Recomendação de vacina contra hepatite B para todos os bebês é suspensa após 30 anos nos EUA

Um grupo de especialistas nomeados pelo ministro da Saúde do governo Donald Trump, conhecido por seu ceticismo em relação às vacinas, decidiu na sexta-feira (5) suspender a recomendação de aplicar a vacina contra a hepatite B em todos os recém-nascidos. A medida foi aprovada por oito votos a três, contrariando a posição de grande parte da comunidade médica. A decisão deve ser seguida pelas autoridades e encerrar uma política de prevenção que vigora há mais de 30 anos nos Estados Unidos.

6 dez 2025 - 07h36

Com informações de Vincent Souriau, correspondente da RFI em Washington 

ChatGPT a dit : Uma enfermeira enche uma seringa com uma vacina contra a hepatite em uma clínica de imunização gratuita para estudantes, antes do início do ano letivo, em Lynwood, Califórnia, 27 de agosto de 2013.
ChatGPT a dit : Uma enfermeira enche uma seringa com uma vacina contra a hepatite em uma clínica de imunização gratuita para estudantes, antes do início do ano letivo, em Lynwood, Califórnia, 27 de agosto de 2013.
Foto: AFP - ROBYN BECK / RFI

Trump comemorou a medida em sua rede Truth Social, chamando-a de "uma ótima decisão".

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Segundo a nova orientação, a primeira dose da vacina contra hepatite B — de um total de três — não será mais recomendada de forma sistemática para bebês cujas mães tenham resultado negativo no teste da doença. Associações médicas reagiram imediatamente, classificando a mudança como injustificada e perigosa, já que há falhas no rastreamento das mães e risco de contaminação dos recém-nascidos por outras pessoas próximas.

Susan Kressly, presidente da Academia Americana de Pediatria, alertou que a medida "vai aumentar as infecções por hepatite B em bebês e crianças".

O Comitê Consultivo sobre Práticas de Vacinação (ACIP), reformulado neste ano pelo ministro da saúde negacionista, Robert Kennedy Jr., também sugeriu que seja feito um exame sorológico após a primeira dose para avaliar a necessidade das demais aplicações.

"Causar prejuízo"

A hepatite B é uma doença viral que afeta o fígado, podendo ser transmitida da mãe para o bebê durante o parto. Ela aumenta significativamente o risco de cirrose e câncer hepático. A recomendação de vacinar todos os recém-nascidos, apoiada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), foi adotada nos EUA em 1991 e praticamente eliminou os casos entre jovens.

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Antes da votação, o médico Cody Meissner, uma das poucas vozes contrárias dentro do comitê, pediu que não houvesse mudanças. "Ao alterar essa recomendação, estamos causando prejuízo", alertou. Outros membros defenderam a medida como forma de alinhar a política norte-americana à de países como a França, apesar dos problemas específicos de acesso e vigilância nos EUA.

Queda nas taxas de vacinação

O grupo responsável pela decisão é criticado por falta de experiência e por ter divulgado informações falsas sobre vacinas. Em setembro, o mesmo grupo já havia alterado recomendações sobre Covid-19 e sarampo no país. Agora, iniciou uma revisão mais ampla do calendário infantil, com participação do advogado Aaron Siri, aliado de Robert Kennedy Jr. e conhecido por difundir teorias sem fundamento sobre imunização.

A comunidade médica norte-americana teme que essas mudanças restrinjam ainda mais o acesso às vacinas, em um momento em que as taxas de imunização caem desde a pandemia, aumentando o risco de retorno de doenças graves como o sarampo. Em resposta, instituições científicas e estados governados por democratas anunciaram que não seguirão as novas diretrizes e elaborarão suas próprias recomendações.

Até mesmo dentro do Partido Republicano houve reação: o senador Bill Cassidy, médico, pediu publicamente que as autoridades federais não implementem a decisão. Nos EUA, essas recomendações influenciam diretamente se vacinas serão cobertas por seguros de saúde e programas públicos — um fator crucial em um país onde uma única dose pode custar centenas de dólares.

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Impactos sociais

A decisão também preocupa pediatras como Cal Gordon, da Califórnia, que se aposentou após 35 anos de carreira. Para ele, trata-se de uma medida sem justificativa médica e que pode ampliar desigualdades sociais. "Os planos de saúde podem se recusar a cobrir essas vacinas, criando barreiras enormes, principalmente para famílias de baixa renda", afirmou.

Segundo Gordon, o avanço do movimento antivacina está corroendo a relação de confiança entre médicos e pacientes. "Cada vez mais sociedades médicas, como a Academia Americana de Pediatria e a de Obstetrícia, se posicionam contra as recomendações do CDC. Isso gera hesitação nos pacientes, que dizem: 'mas não é isso que o CDC recomenda'. Explicar e convencer se torna muito mais difícil."

Ele prevê que nos próximos meses haverá novas controvérsias e uma piora significativa no acesso à saúde nos Estados Unidos.

RFI com AFP

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