Empresas estrangeiras estão deixando Cuba sob pressão crescente dos Estados Unidos, às vésperas da entrada em vigor de um decreto norte‑americano que ameaça aplicar sanções financeiras a companhias que mantêm relações comerciais com o governo cubano. As mais recentes a anunciar sua retirada são Visa e Mastercard, decisão que isola ainda mais a ilha do restante do sistema econômico internacional.
A medida ocorre após a saída da mineradora canadense Sherritt, principal investidora estrangeira em Cuba, e de grandes redes hoteleiras internacionais. A partir deste sábado, pagamentos com cartões Visa e Mastercard deixarão de funcionar no país. Empresas temem punições como perda de acesso ao sistema financeiro global ou congelamento de ativos. Enquanto isso, o governo Trump insiste em classificar o regime cubano como uma "grande ameaça" à segurança nacional dos Estados Unidos.
Turismo paralisado
Segundo o economista cubano Elias Amor, radicado na Espanha, a suspensão dos pagamentos com Visa e Mastercard afetará sobretudo o turismo, setor praticamente paralisado. Ele explica que turistas dependem desses cartões, enquanto cubanos pagam quase tudo em dinheiro vivo, em uma economia marcada por práticas rudimentares, trocas informais e comércio de rua. Amor descreve um cenário de miséria profunda, com forte desaceleração da atividade econômica no primeiro trimestre.
O turismo, um dos pilares da economia cubana, está em queda livre. Entre janeiro e abril, o número de visitantes foi metade do registrado no mesmo período do ano passado - que já havia sido fraco. A ilha enfrenta sua pior crise econômica em décadas, com falta de combustível, dificuldades de acesso a água, eletricidade e serviços de saúde. O quadro se explica principalmente pelo bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos desde janeiro, somado ao embargo que vigora há quase 60 anos.
Objetivo do embargo é político
Para o economista Jérôme Leleu, especialista em Cuba, o objetivo do embargo é provocar mudanças políticas. Ele afirma que a intenção é gerar dificuldades econômicas que se traduzam em tensões sociais e, eventualmente, em mobilização popular. Ao mesmo tempo, o governo cubano é criticado por sua própria gestão da crise. Protestos e panelaços se tornaram frequentes, motivados por apagões, falta de alimentos e pedidos pelo fim do embargo.
Apesar do endurecimento das medidas norte‑americanas, há sinais de conversas discretas entre Washington e Havana. O governo cubano confirmou recentemente contatos com autoridades dos Estados Unidos, embora sem detalhes. A informação mais surpreendente foi a visita do diretor da CIA à ilha, há duas semanas, para reuniões com altos funcionários cubanos. No último fim de semana, representantes militares dos dois países também se encontraram perto da base naval norte‑americana de Guantánamo, em território cubano.