Lula diz sair 'muito otimista' de conversa com Trump na Casa Branca

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que não discutirá sobre as eleições de 2026 com líderes estrangeiros, propôs 30 dias para resolver impasse comercial com os EUA e disse ter tido "química" com Donald Trump, durante reunião na Casa Branca nesta quinta-feira (7).

7 mai 2026 - 18h51
(atualizado às 19h06)

Luciana Rosa, de Washington para a RFI

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante coletiva de imprensa após se reunir com Donald Trump, em Washington.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante coletiva de imprensa após se reunir com Donald Trump, em Washington.
Foto: AFP - SAUL LOEB / RFI

Após o encontro em Washington, Lula disse que saiu "muito otimista" da reunião e avaliou que houve uma conexão positiva entre os dois líderes. Em uma coletiva de imprensa realizada na embaixada brasileira, o presidente brincou ao definir a relação construída com Trump como um caso de "amor à primeira vista". Houve "aquele negócio da química" entre os dois, disse.

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Segundo o líder brasileiro, apesar das diferenças políticas e comerciais, o foco das conversas foi encontrar caminhos práticos para avançar em temas considerados prioritários para os dois países. "O importante é o principal, o resto é secundário", disse.

Tarifas e investigação comercial

Boa parte da conversa foi dedicada às tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, especialmente diante da investigação aberta por Washington com base na chamada Seção 301, mecanismo legal que pode resultar em novas tarifas contra produtos brasileiros.

Lula reconheceu que houve divergências entre as equipes ministeriais dos dois países, mas afirmou ter proposto um prazo de 30 dias para que os ministros tentem encontrar uma solução técnica antes de uma nova conversa presidencial.

Segundo o presidente, os americanos apresentaram questionamentos sobre práticas comerciais e tributárias brasileiras, mas o governo brasileiro considera que parte das acusações "não tem procedência".

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Lula afirmou que prefere resolver o impasse pela negociação e disse ter saído confiante de que os dois governos conseguirão avançar.

Eleições e soberania brasileira

Questionado por um jornalista do Washington Post sobre possíveis tentativas de interferência estrangeira nas eleições brasileiras, Lula respondeu de forma direta. "Se ele tentou interferir nas eleições brasileiras, ele perdeu, porque eu ganhei as eleições", afirmou.

O presidente disse considerar inadequado que líderes estrangeiros tentem influenciar processos eleitorais em outros países, que representa, segundo ele, uma ameaça à soberania nacional. As eleições brasileiras são um "assunto brasileiro", alegou, e não serão discutidas com presidentes estrangeiros.

"Quem vai decidir a eleição brasileira é o povo brasileiro", reiterou.

Segurança pública e crime organizado

O presidente também afirmou que apresentou a Trump propostas brasileiras para cooperação internacional no combate ao crime organizado e ao tráfico de armas e drogas.

Segundo Lula, o governo brasileiro lançará já na próxima semana um novo plano nacional de segurança pública, focado principalmente no enfraquecimento financeiro das organizações criminosas. Ao comentar o avanço das facções, Lula argumentou que grupos criminosos passaram a atuar como grandes estruturas internacionais.

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"Eles hoje viraram, em alguns casos, empresas multinacionais", explicou.

O presidente também defendeu a retomada territorial pelo Estado e afirmou que "o território de uma cidade, de um bairro, é do povo, não é de crime organizado, não é de facção criminosa".

Lula revelou ainda que propôs uma maior integração regional no combate ao crime organizado, incluindo a criação de uma base em Manaus voltada ao enfrentamento do tráfico nas fronteiras amazônicas.

Questionado sobre a possibilidade de os Estados Unidos classificarem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, Lula garantiu que o tema não foi discutido durante a reunião com Trump.

Diplomacia, Irã e política internacional

Na coletiva, Lula voltou a defender a diplomacia como principal ferramenta para resolver conflitos internacionais e reforçou sua oposição a soluções militares. O presidente frisou que acredita "muito mais no diálogo do que na guerra" e declarou que não possui "vocação belicista", mas sim "vocação de diálogo".

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Lula afirmou que deixou claro para Trump que os dois têm visões diferentes sobre conflitos internacionais, especialmente em relação ao Irã. "Olha, o Trump não vai mudar o jeito dele ser por causa de uma reunião que durou três horas comigo."

Segundo o presidente brasileiro, ele alertou o americano de que uma escalada militar contra o Irã poderia gerar consequências maiores do que Washington imagina. Ele comentou, ainda, que Trump demonstra acreditar que "a guerra já acabou". "Não é o real. Mas ele acha", declarou.

Ele também afirmou estar "disposto" a discutir temas como Irã, Cuba e Venezuela com os Estados Unidos. Lula relatou ter colocado o Brasil à disposição para atuar como mediador em conflitos internacionais e entregado a Trump uma cópia do acordo negociado em 2010 entre Brasil, Turquia e Irã sobre o programa nuclear iraniano. 

Minerais críticos e terras raras

Lula também comentou o interesse americano em minerais críticos e terras raras brasileiras, mas afirmou que o país não pretende repetir o modelo histórico de exportar apenas matéria-prima.

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"O Brasil não quer repetir o que aconteceu com a prata, com o ouro, com minério de ferro", disse.

Segundo o presidente, o Brasil está aberto a parcerias internacionais, inclusive com os Estados Unidos, desde que os investimentos incluam processamento industrial e geração de riqueza dentro do território brasileiro.

ONU e Conselho de Segurança

O líder petista voltou a defender uma reforma no Conselho de Segurança da ONU, alegando que a estrutura atual, em que apenas os cinco membros permanentes têm poder efetivo de decisão sobre guerras e conflitos internacionais, não representa mais a geopolítica mundial.

"A geopolítica de 2026 não é a geopolítica de 1945. O mundo é outro", sublinhou.

Ele criticou o poder de veto exercido pelos membros permanentes do Conselho e comentou que, desta forma, países como o Brasil acabam limitados a discursos sem capacidade real de decisão.

"O Brasil só pode gritar. O Brasil só pode fazer discurso", declarou, ao comentar os impasses diplomáticos envolvendo conflitos internacionais e a guerra em Gaza.

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"Os Estados Unidos vetam. A China veta. A Rússia veta. Então, é preciso que eles se coloquem de acordo para a gente mudar", acrescentou.

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