A presidência dos EUA na reunião de Finanças do G20 causou atrito com a União Europeia devido ao convite feito ao ministro russo Anton Siluanov. Washington defendeu a aproximação para negociar o fim da guerra na Ucrânia e articulou sanções contra o Irã, gerando descontentamento entre aliados europeus. O encontro é marcado por tensões geradas pelas tarifas comerciais do governo Trump, atritos com Canadá e Brasil, além da controversa exclusão da África do Sul do evento.
Washington preside este ano o grupo das maiores economias do mundo, entre elas China, Índia, Japão, França e Brasil. AO encontro reúne os ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais em um complexo hoteleiro na região Montes Apalaches, em Asheville, na Carolina do Norte.
Os EUA tentam aproveitar a ocasião para promover suas políticas, especialmente as de desregulamentação, mas também para reforçar sua campanha de novas sanções contra Teerã. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, que comanda a reunião, lidera a defesa da ofensiva econômica para isolar o Irã, que até agora não foi enfraquecido pela força militar.
"Vamos continuar pressionando Teerã. Já tivemos boas discussões aqui", declarou ele na segunda-feira (31), no início da cúpula, poucas horas depois de Washington ter retomado os bombardeios contra o Irã.
A União Europeia, que participa da reunião do G20, sinalizou que pode endurecer suas próprias sanções contra o regime iraniano.
Presença do ministro russo das Finanças
No entanto, outra guerra, a travada pela Rússia na Ucrânia desde 2022, acabou gerando atritos entre os participantes.
O ministro russo das Finanças, Anton Siluanov, isolado pelos países ocidentais desde a invasão da Ucrânia, foi convidado pelos Estados Unidos e sua presença entre os delegados do G20 causou desconforto. Siluanov também teve a oportunidade de se reunir com Scott Bessent.
"O fato de receber aqui o ministro da Rússia envia um sinal que considero perturbador", declarou o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, a jornalistas.
A Casa Branca defendeu o convite, afirmando que está disposta a dialogar com a Rússia para tentar pôr fim à guerra na Ucrânia, mas garantiu que manterá a pressão econômica sobre Moscou enquanto o conflito continuar. "O presidente e o governo Trump não têm medo de conversar com pessoas influentes" com o objetivo de "pôr fim ao interminável banho de sangue" na Ucrânia, justificou Kush Desai, porta-voz da Casa Branca enviado ao G20.
Uma fonte que pediu anonimato informou que Bessent teria deixado claro a Siluanov que "os Estados Unidos não concederão nenhum alívio econômico à Rússia enquanto a guerra na Ucrânia continuar".
A UE conseguiu que o ministro russo fosse excluído da tradicional foto de família. A foto foi tirada discretamente na segunda-feira, em um momento que não contou com a presença da imprensa.
Desentendimento com o Canadá
A entrada do hotel que abriga as discussões dos ministros das Finanças em Asheville está decorada com uma réplica da residência oficial dos presidentes dos Estados Unidos. A política tarifária de Trump tem abalado os membros do G20 desde seu retorno ao poder, no ano passado.
Apesar de a Suprema Corte ter barrado grande parte das novas tarifas impostas, o republicano acaba de reacender as hostilidades com o Canadá, membro do G20 e do G7.
O ministro canadense François-Philippe Champagne disse na segunda-feira que comparece ao encontro "com um espírito positivo" e "pronto para dialogar". Já o ministro da Fazenda brasileiro, Dario Durigan, não está em Asheville. O Brasil, que também vive um momento de tensão com os EUA, está representado na reunião pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
A África do Sul foi excluída das reuniões deste ano pelo governo americano. Os EUA acusam regularmente, sem apresentar provas, as autoridades de Pretória de perseguirem agricultores brancos.
O G20 foi criado após a crise financeira asiática de 1997-1998 com o objetivo de fortalecer a estabilidade econômica e financeira global. O grupo é composto por 19 países, mais a União Europeia e a União Africana.
Com AFP