Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
Independentemente da crença ou da classe social, os argentinos se dividem entre os que revelam e os que escondem as suas crenças - e até aqueles que as omitem pode ser por pura superstição.
A 30 quilômetros de Buenos Aires, na cidade de Hurlingham, o torcedor Nicolás Adi tem o seu próprio ritual de sorte. A cada jogo, põe uma peruca e pinta o rosto com as cores da bandeira argentina, num processo que leva uma hora e funciona também como uma forma de canalizar a ansiedade para esta final.
Depois, viaja à capital argentina para assistir ao jogo num parque junto com a multidão, levando a mesma camiseta que usou na Copa do Mundo de 2022, no Catar, quando a Argentina foi campeã.
Os argentinos chamam de "cábalas" as superstições aplicadas ao futebol. Não é uma questão de crença religiosa, mas de repetir determinados costumes que provam trazer sorte e boas energias para a seleção.
"As 'cábalas' são como o nosso grãozinho de areia para sermos parte do avanço da Argentina, ganhando cada partida e chegando à glória. As superstições são a parte da torcida no jogo. Você sabe que está fazendo a sua parte", explica Nicolás à RFI.
'Anulo mufa'
De um modo geral, está proibido cantar vitória antes do jogo. Os "cabuleiros" evitam palavras como "campeão" ou "ganhador". Se por acaso tropeçarem nas palavras, antecipando um triunfo, repetem "anulo mufa". "Mufa" é o mesmo que azar ou azarento.
"Por 'cábala' não posso dizer o resultado do jogo, não posso dar a minha previsão, mas quero que seja a quarta", indica Nicolás, em referência implícita à quarta taça de campeão do mundo.
A torcedora Julia Pinal monta o seu altar no meio da torcida: uma bandeira com os dois maiores ídolos da história argentina, uma réplica da taça, uma foto de Diego Maradona e uma máscara de Lionel Messi que ela usa a cada vez que a Argentina está em apuros, precisando de uma virada épica. E ela garante: tem dado resultado.
Com a máscara, Julia incorpora a personagem. "O altar é uma superstição. Usei a máscara do Messi em 2022 até ganharmos o Mundial. E agora, cada vez que a Argentina está em apuros, ponho a máscara do Messi. Então, continuo com a superstição porque escolho acreditar", diz Julia.
"Escolho acreditar" (em espanhol, "elijo creer") é usado quando a coincidência entre o ritual e o resultado é forte e não há explicações.
No jogo crucial da Argentina contra a Inglaterra, na quarta-feira (15), o comentarista Hernán Feler, do principal canal de esportes do país (TyC), quando viu que a seleção argentina precisava de uma virada a poucos minutos do final, não teve dúvidas. Pediu para todos os telespectadores mudarem de lugar. Logo em seguida, os gols argentinos vieram. O pedido passou a ser, então, para que todos continuassem nos seus lugares. A Argentina fez dois gols em sete minutos.
Altares pessoais
Muitos argentinos criam um altar neste período de Copa. Juntam símbolos que acreditam ser bons como velas, alguma imagem ou camisa da seleção campeã e qualquer objeto que represente boa energia para aquela pessoa.
"Nós somos supersticiosos e as superstições fazem com que a gente se sinta parte da equipe, sem estar correndo no campo de jogo. Mandamos boa energia e o melhor para que a equipe ganhe", interpreta Lorena Pons, uma profissional das 'cábalas'.
Lorena é tarotista e médium. Prepara um ritual em casa com a simbologia de cartas, vela e elementos da sorte. Depois, sintetiza o processo em números que as pessoas devem repetir. Nesse caso, é uma superstição esotérica, enviada como corrente para 80 contatos pelo WhatsApp, que depois se multiplicam, numa progressão geométrica, a centenas de pessoas.
"A superstição para este domingo é repetir o número 2-1-9-0, que é o número do sucesso, 45 vezes. E quando terminarmos, dizemos 'está feito, obrigado, obrigado'. Podem fazer isso quantas vezes quiserem, mas sempre repetindo 45 vezes", ensina.
A superstição está presente até nas esferas do poder. O presidente Javier Milei decidiu não viajar aos Estados Unidos para a final. Vai assistir à partida, como sempre, na residência presidencial de Olivos.
Milei diz que é por superstição, mas os presidentes argentinos fazem um cálculo político: se viajarem e a Argentina for campeã, podem ser acusados de "oportunistas políticos". Se forem e a seleção perder, podem ser acusados de "mufas", ou melhor, de azarentos.
Milei disse que vai assistir ao jogo com o mesmo macacão da petrolífera estatal que usou ao longo da Copa. "A única vez que eu o tirei, fizeram-nos um gol [no jogo contra a Suíça, pelas quartas de final]. Então, não o retirarei nunca mais", garante Milei, provando ser "cabuleiro".
Contra a maldição
Esses amuletos também podem servir para a Argentina romper com uma maldição de 64 anos: desde que o Brasil foi bicampeão com dois títulos seguidos, em 1958 e 1962, nenhuma outra seleção conseguiu ganhar duas vezes consecutivas.
Outra superstição, neste caso histórica: os argentinos criaram o Regimento de Patrícios para expulsar os ingleses em 1806 e 1807. Dez anos depois, esse mesmo regimento ajudou a expulsar os espanhóis, permitindo a Independência da Argentina há exatamente 210 anos. Ou seja: vitórias primeiro contra a Inglaterra, depois contra a Espanha.
"Quando a nossa seleção de futebol obtém esses triunfos, une todo mundo sem distinção de ideologia política, nem outra diferença social. Também une em torno das causas da pátria", aponta à RFI o major Alan Nuñez, diretor da banda militar "Tambor de Tacuarí" do Regimento de Patricios.
Repórter amuleto
O resultado dessas superstições acontece na praça República, no Centro de Buenos Aires, ao redor do Obelisco da avenida 9 de Julho, para onde milhares de torcedores vão depois de cada vitória. Mas o que acontece quando o repórter se torna o amuleto de um torcedor?
Desde que a reportagem entrevistou Nicolás pela primeira vez, no segundo jogo da Argentina na Copa do Mundo no Catar, os argentinos ganharam todas as partidas que disputaram. Para ele, citado no começo deste texto, tornou-se uma superstição reencontrar o jornalista, sempre no mesmo lugar.
"Tenho outra superstição que é me encontrar com o jornalista da RFI em cada jogo. Desde que nos cruzamos na partida contra o México no Catar em 2022, a Argentina nunca perdeu", reforça Nicolás.