Acordo sino‑americano pressiona soja brasileira e expõe falta de estratégia

Quando Donald Trump pousou em Pequim, na última quinta-feira (14), a coreografia já estava pronta nos mínimos detalhes. Os roseirais de Zhongnanhai foram escolhidos a dedo — aqueles mesmos canteiros que pertenceram à liderança imperial e depois ao regime comunista. Ali o presidente americano caminhou ao lado do líder chinês, Xi Jinping, em um passeio que mais parecia ensaio de filme do que uma reunião entre os dois homens mais poderosos do planeta.

18 mai 2026 - 14h21

Thiago de Aragão, analista político

Houve almoço sem agenda divulgada, sementes oferecidas a Trump para que florescessem no jardim da Casa Branca, e a frase de Xi sobre uma "nova relação bilateral de estabilidade estratégica construtiva" recebida do outro lado com a palavra amigo.

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Quem viu aquilo e achou que era só teatro perdeu o que importava, porque diplomacia de superpotência é sempre um pouco teatro e o que vale mesmo é ler o roteiro nas entrelinhas. E o roteiro, para o Brasil, é desconfortável.

Faz dois anos que o agronegócio brasileiro vive uma das melhores janelas da sua história recente, e essa janela se abriu quase por acidente. A guerra tarifária aberta por Trump no segundo mandato fechou o mercado chinês para a soja americana, e nós entramos nesse vácuo com a velocidade de quem encontra a porta destrancada e simplesmente passa.

Em 2016, antes da primeira guerra comercial, os Estados Unidos forneciam 41% da soja consumida pela China. No ano passado, esse número despencou para 15%.

A diferença, em larga medida, é brasileira: foram quase US$ 37 bilhões em soja exportada em 2025, com mais de 60% desembarcando em portos chineses. A tentação imediata diante de números desse tamanho é interpretá-los como conquista, como se o Brasil tivesse finalmente descoberto uma vocação que sempre esteve ali esperando, como se houvesse uma estratégia coordenada por trás de tudo isso. Não há, e talvez seja melhor falar isso em voz alta antes que mais alguém suba em um palco para fazer discurso bonito sobre o assunto.

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De Iowa ao Mato Grosso

O que aconteceu não foi vitória brasileira, foi penalização americana, e essa distinção parece pedante até o momento em que deixa de ser. O produtor de Iowa apanhou da política tarifária do seu próprio presidente e o produtor de Mato Grosso colheu o que não plantou. A vitória construída pertence a quem construiu, enquanto janela aberta pela imprudência alheia fecha no instante em que a imprudência cessa.

Foi exatamente isso que saiu de Pequim na semana passada, com o acordo que Trump e Xi costuraram prevendo a retomada das compras chinesas de soja americana em volume crescente até chegar a 25 milhões de toneladas anuais em 2028, o que corresponde a mais de um terço de tudo que o Brasil exporta hoje para o mercado chinês. O compromisso pode não se cumprir por inteiro porque a história das relações sino-americanas é uma coleção generosa de promessas que evaporam no caminho, mas o vetor político mudou, e mudou contra o nosso interesse.

Quem acompanha o setor mais de perto sabe que existe ainda uma segunda camada, mais lenta e mais profunda, e que tem a ver com a decisão chinesa de reduzir gradualmente a dependência de proteína vegetal importada para ração animal. Não é que vão comer menos carne, é que vão produzir essa carne com uma matriz proteica menos dependente de soja, dentro daquela obsessão crescente de Pequim com soberania alimentar que atravessa todos os planos quinquenais recentes.

Para o Brasil, é uma curva que se desenha no horizonte de 2030. Quando se soma essa curva à reaproximação americana o quadro fica difícil de ignorar: o pico da nossa exposição à demanda chinesa de soja talvez já tenha ficado para trás sem que a gente tenha percebido.

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Nada disso configura tragédia iminente, porque o Brasil continua sendo fornecedor central e a sazonalidade da safra sul-americana garante mercado entre fevereiro e agosto independentemente do humor de Washington ou Pequim.

O problema não é o colapso, é a complacência, e ela tem nome no vocabulário diplomático brasileiro: pragmatismo, uma palavra que ficou perigosa de tão usada e que do jeito que aplicamos virou eufemismo educado para ausência de estratégia. Vendemos para a China o que ela precisa enquanto ela precisa, sem verticalizar indústria, sem diversificar destinos com a agressividade que o momento exige, sem montar uma diplomacia comercial proporcional ao tamanho do nosso superávit agrícola, tratando uma posição privilegiada conjuntural como se fosse paisagem permanente quando ela nunca foi mais do que um momento.

Aviso entre rosas

O que aconteceu em Pequim na semana passada foi, no fundo, um aviso entregue entre rosas. Os dois maiores compradores e produtores de commodities do planeta sinalizaram com sorrisos largos que pretendem voltar a fazer negócios um com o outro.

Isso não destrói o Brasil mas reduz drasticamente a folga que o país vinha tendo para confundir sorte com mérito. Brasília que entender essa diferença antes de outubro chegará mais preparado para a década que vem.

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O país que não entender vai continuar celebrando recordes anuais sem perceber que qualquer um deles pode ter sido o último.

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