Human Rights Watch acusa milícia do Mali e aliados russos de atrocidades sem precedentes contra civis

Reunidos sob a sombra de uma árvore no centro do Mali para acessar a internet por meio de uma antena Starlink, de Elon Musk, moradores de uma pequena localidade rural buscavam contato com parentes e notícias do mundo exterior quando um drone militar atingiu o local. Segundo a Human Rights Watch, ao menos oito civis morreram e seis ficaram feridos. O episódio, ocorrido em 16 de setembro, tornou-se o símbolo mais recente de uma guerra que continua cobrando um preço devastador da população.

22 out 2026 - 13h22
Resumo
A Human Rights Watch denunciou forças do Mali e mercenários russos do Africa Corps por graves violações contra civis. As acusações incluem um bombardeio com drone que matou oito pessoas que acessavam internet via satélite, torturas com mortes em contêineres metálicos superaquecidos e extorsão financeira de famílias. No combate a grupos jihadistas, as tropas têm tratado moradores locais arbitrariamente como insurgentes, inclusive impedindo socorro médico urgente às vítimas do ataque.

Segundo relatório divulgado nesta quinta-feira (22) pela organização Human Rights Watch (HRW), forças armadas malinesas e seus aliados russos do Africa Corps teriam cometido uma série de novos abusos contra civis no centro do país, incluindo mortes em um ataque com drone, detenções arbitrárias, tortura e extorsão.

Soldados do Africa Corps russo no Mali. Imagem extraída de vídeo publicado no canal oficial do Africa Corps.
Soldados do Africa Corps russo no Mali. Imagem extraída de vídeo publicado no canal oficial do Africa Corps.
Foto: © YouTube @TheAfricanCorps / RFI

O caso mais grave relatado pela organização ocorreu em 16 de setembro em Guélédié, na região de Mopti. De acordo com a HRW, ao menos oito pessoas morreram e outras seis ficaram feridas quando um drone militar atingiu um grupo que estava reunido sob uma árvore para utilizar uma conexão de internet via satélite Starlink.

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A região é palco frequente de confrontos entre o Exército e combatentes do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM), organização jihadista ligada à Al-Qaeda e uma das mais ativas do Sahel, faixa semiárida que atravessa a África ao sul do deserto do Saara e inclui países como Mali, Níger, Burkina Faso e Chade.

Segundo a investigação da entidade, integrantes do grupo armado chegaram a estar presentes na localidade, mas teriam deixado a área antes do ataque. Quando o drone lançou sua ofensiva, afirma a organização, apenas civis permaneciam no local.

Em comunicado divulgado no dia seguinte à operação, o Exército malinês declarou ter neutralizado "elementos terroristas escondidos sob cobertura vegetal" e em posse de equipamentos de comunicação por satélite e material de guerra.

Feridos teriam sido tratados como insurgentes

A Human Rights Watch afirma que o sofrimento das vítimas não terminou após a explosão. Segundo a organização, autoridades militares locais teriam impedido a evacuação médica dos feridos, sob o argumento de que eles seriam associados aos grupos insurgentes presentes na região.

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Em amplas áreas do centro do Mali, onde o Estado tem presença limitada e grupos armados circulam com frequência, a linha que separa combatentes e moradores tornou-se cada vez mais tênue aos olhos das forças de segurança e das facções em disputa.

Muitas aldeias vivem sob permanente suspeita. Habitantes são frequentemente acusados de colaborar com jihadistas por viverem em territórios onde os grupos exercem influência ou mantêm presença regular.

Organizações internacionais de direitos humanos alertam há anos que essa lógica tem contribuído para ampliar o número de abusos contra a população local, alimentando ciclos de violência e desconfiança. Para comunidades rurais frequentemente isoladas por estradas precárias e pela insegurança, até mesmo o acesso à internet passou a ser uma atividade carregada de riscos.

Relatos descrevem prisões em contêiner metálico

O relatório também traz denúncias sobre o tratamento dispensado a civis detidos na base militar Hamadoun Bocary Barry, em Sévaré, entre maio e agosto deste ano. Segundo testemunhos reunidos pela organização, dezenas de pessoas foram mantidas incomunicáveis dentro de um contêiner metálico sem ventilação e sem instalações sanitárias adequadas.

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Em uma das regiões mais quentes da África Ocidental, onde as temperaturas frequentemente ultrapassam os 40°C, o recipiente teria se transformado em uma espécie de cela improvisada submetida a calor extremo. Os relatos descrevem uma sucessão de abusos. Ex-detentos afirmaram ter sofrido choques elétricos, espancamentos e queimaduras provocadas por plástico derretido.

Alguns também narraram sessões de simulação de afogamento realizadas com a utilização de barris cheios de água. De acordo com a Human Rights Watch, pelo menos oito pessoas morreram dentro do contêiner em consequência dos maus-tratos sofridos.

Famílias teriam pago para libertar parentes

O documento também aponta um sistema informal de extorsão envolvendo familiares dos detidos. Segundo a organização, algumas famílias precisaram desembolsar até 1,8 milhão de francos CFA, cerca de R$ 13 mil, para obter a libertação de parentes presos.

Em um país onde a renda média permanece entre as mais baixas do mundo, esse valor representa anos de trabalho para muitas famílias. As acusações surgem em um momento particularmente delicado para o Mali, governado por uma junta militar desde os golpes de Estado de 2020 e 2021.

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Depois de romper alianças tradicionais com países ocidentais, os militares intensificaram a cooperação com a Rússia na luta contra grupos jihadistas que atuam no norte e no centro do território. Foi nesse contexto que o grupo Wagner, posteriormente reorganizado sob o nome Africa Corps, passou a operar ao lado das forças malinesas.

Guerra já dura mais de uma década

Desde 2012, o Mali enfrenta uma das mais graves crises de segurança da África. A instabilidade começou após uma rebelião separatista tuaregue no norte do país, mas rapidamente se transformou em um conflito muito mais amplo, envolvendo organizações jihadistas ligadas à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico, grupos comunitários armados, milícias locais e forças estrangeiras.

Ao longo desses anos, centenas de milhares de pessoas foram deslocadas e vastas áreas do território escaparam ao controle efetivo do Estado. Diversos relatórios internacionais já documentaram abusos cometidos tanto por grupos extremistas quanto por forças governamentais e seus aliados.

Para os moradores das regiões mais afetadas, no entanto, a guerra costuma ser menos uma disputa geopolítica do que uma sucessão de perdas cotidianas: parentes desaparecidos, aldeias abandonadas, colheitas interrompidas e o medo permanente de estar no lugar errado quando a violência voltar a bater à porta.

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Foi exatamente isso que aconteceu em Guélédié. Em uma comunidade acostumada ao isolamento, moradores procuravam apenas alguns minutos de conexão com o mundo exterior. Segundo a Human Rights Watch, encontraram a guerra - e a morte - antes da internet.

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