Uma série de mortes de nove mulheres em dois meses gerou uma onda de protestos contra o feminicídio na África do Sul. As vítimas foram achadas com sinais de violência, como a corredora Elizabeth, cujo caso mobilizou centenas de atletas em Kempton Park. O país vive uma crise endêmica, onde uma em cada três mulheres sofre violência física ou sexual. Enquanto a polícia investiga a ação de possíveis suspeitos ou de um assassino em série, a população exige ações imediatas das autoridades.
Mãe de uma filha única de oito anos, que ela criava sozinha, Elizabeth era uma figura conhecida na comunidade. Ela saiu para correr em 9 de setembro e jamais voltou para casa, assim como outras oito mulheres desde 15 de julho.
Os corpos de todas foram encontrados em condições semelhantes: seminuas e com sinais de violência, algumas ainda sofreram queimaduras. A série de assassinatos provocou uma onda de revolta na África do Sul, apesar de o país registrar, em média, mais de 60 homicídios por dia.
Nos últimos dias, de Joanesburgo à Cidade do Cabo, passando por Tembisa, cidadãos organizaram manifestações em memória das vítimas, com a frase "chega!" como palavra de ordem. Na manhã deste sábado, centenas de corredores percorreram 13 quilômetros em Kempton Park, atendendo a um apelo de clubes de corrida que já estavam mobilizados desde o desaparecimento de Elizabeth.
Medo nas ruas
"Não deveríamos ter de olhar para trás o tempo todo. Deveríamos estar protegidas permanentemente. Queremos reconquistar nossas ruas", explica à AFP Hlompho Matji, analista de dados e corredora de 47 anos, que mora no mesmo bairro que Elizabeth.
"Durante toda a semana passada, não corri (...) Ficamos paranoicas, estamos com medo", acrescenta ela.
Por enquanto, a polícia se recusa a informar se está em busca de um serial killer ou de vários suspeitos. A investigação determinou que algumas das vítimas não foram mortas no local onde seus corpos foram encontrados.
Liberdade roubada
A violência contra as mulheres atinge níveis endêmicos na África do Sul: segundo as Nações Unidas, uma em cada três mulheres no país sofre violência física ou sexual ao longo da vida.
"Isso precisa acabar, porque eles [os autores dos assassinatos] roubam nossa liberdade, nossa autoconfiança", afirma Busisiwe Pakati, engenheira de computação e corredora experiente de 53 anos.
Muitos homens se juntaram à manifestação de sábado, incluindo Mkhuleko Tshabalala, também morador de Kempton Park. "Elizabeth era uma de nós. Eu a via correndo aqui e hoje foi muito, muito emocionante. Passamos pelo local onde ela morreu", relata o consultor financeiro de 50 anos.
No local, algumas velas apagadas deitadas no chão e um buquê de flores marcam o ponto exato no qual o corpo foi encontrado, ao longo de uma via de acesso discreta, situada entre uma rodovia cercada por um muro de concreto e a parte de trás de um hotel.
Do outro lado da rodovia, está o aeroporto internacional de Joanesburgo. A área fica ao lado de um bairro residencial arborizado, propício para a corrida, mas cujo acesso a partir do centro da cidade só é possível percorrendo grandes estradas ladeadas por concessionárias de veículos e terrenos baldios.
Pressão sobre os governos
Na noite de sexta-feira, na Cidade do Cabo, a mais de 1.400 km dali, mais de mil estudantes participaram de uma vigília no campus da universidade. Em um cartaz, uma estudante escreveu: "Quero viver, não sobreviver".
"Há sempre aquele pensamento de que poderia ser minha mãe, minha irmã, uma prima, uma colega de classe, e o país continua em silêncio", explica Kitso Majapelo, presidente de uma associação de estudantes.
"As falhas se sucedem por parte do governo, da polícia e dos políticos que deveriam nos proteger e mudar essa situação. E já chega", acusa ele.
Com AFP