Nove mulheres em dois meses: série de mortes gera mobilização contra feminicídios na África do Sul

Centenas de corredores participaram neste sábado (19) de uma homenagem diante de um gramado em Kempton Park, nos arredores de Joanesburgo (África do Sul), onde o corpo de Elizabeth Moselakgomo, de 38 anos, foi localizado em 12 de setembro. Desde meados de julho, nove mulheres foram encontradas mortas na mesma região.

19 set 2026 - 13h18
Resumo
Uma série de mortes de nove mulheres em dois meses gerou uma onda de protestos contra o feminicídio na África do Sul. As vítimas foram achadas com sinais de violência, como a corredora Elizabeth, cujo caso mobilizou centenas de atletas em Kempton Park. O país vive uma crise endêmica, onde uma em cada três mulheres sofre violência física ou sexual. Enquanto a polícia investiga a ação de possíveis suspeitos ou de um assassino em série, a população exige ações imediatas das autoridades.

Mãe de uma filha única de oito anos, que ela criava sozinha, Elizabeth era uma figura conhecida na comunidade. Ela saiu para correr em 9 de setembro e jamais voltou para casa, assim como outras oito mulheres desde 15 de julho.

Os corpos de todas foram encontrados em condições semelhantes: seminuas e com sinais de violência, algumas ainda sofreram queimaduras. A série de assassinatos provocou uma onda de revolta na África do Sul, apesar de o país registrar, em média, mais de 60 homicídios por dia.

Publicidade

Nos últimos dias, de Joanesburgo à Cidade do Cabo, passando por Tembisa, cidadãos organizaram manifestações em memória das vítimas, com a frase "chega!" como palavra de ordem. Na manhã deste sábado, centenas de corredores percorreram 13 quilômetros em Kempton Park, atendendo a um apelo de clubes de corrida que já estavam mobilizados desde o desaparecimento de Elizabeth.

Medo nas ruas 

"Não deveríamos ter de olhar para trás o tempo todo. Deveríamos estar protegidas permanentemente. Queremos reconquistar nossas ruas", explica à AFP Hlompho Matji, analista de dados e corredora de 47 anos, que mora no mesmo bairro que Elizabeth.

"Durante toda a semana passada, não corri (...) Ficamos paranoicas, estamos com medo", acrescenta ela.

Mulheres protestam contra a violência de gênero na África do Sul, após descoberta do corpo de Elizabeth Moselakgomo, de 38 anos, em Kempton Park. (17/09/2026)
Mulheres protestam contra a violência de gênero na África do Sul, após descoberta do corpo de Elizabeth Moselakgomo, de 38 anos, em Kempton Park. (17/09/2026)
Foto: RFI

Por enquanto, a polícia se recusa a informar se está em busca de um serial killer ou de vários suspeitos. A investigação determinou que algumas das vítimas não foram mortas no local onde seus corpos foram encontrados.

Publicidade

Liberdade roubada 

A violência contra as mulheres atinge níveis endêmicos na África do Sul: segundo as Nações Unidas, uma em cada três mulheres no país sofre violência física ou sexual ao longo da vida.

"Isso precisa acabar, porque eles [os autores dos assassinatos] roubam nossa liberdade, nossa autoconfiança", afirma Busisiwe Pakati, engenheira de computação e corredora experiente de 53 anos.

Muitos homens se juntaram à manifestação de sábado, incluindo Mkhuleko Tshabalala, também morador de Kempton Park. "Elizabeth era uma de nós. Eu a via correndo aqui e hoje foi muito, muito emocionante. Passamos pelo local onde ela morreu", relata o consultor financeiro de 50 anos.

No local, algumas velas apagadas deitadas no chão e um buquê de flores marcam o ponto exato no qual o corpo foi encontrado, ao longo de uma via de acesso discreta, situada entre uma rodovia cercada por um muro de concreto e a parte de trás de um hotel.

Publicidade

Do outro lado da rodovia, está o aeroporto internacional de Joanesburgo. A área fica ao lado de um bairro residencial arborizado, propício para a corrida, mas cujo acesso a partir do centro da cidade só é possível percorrendo grandes estradas ladeadas por concessionárias de veículos e terrenos baldios.

Pressão sobre os governos 

Na noite de sexta-feira, na Cidade do Cabo, a mais de 1.400 km dali, mais de mil estudantes participaram de uma vigília no campus da universidade. Em um cartaz, uma estudante escreveu: "Quero viver, não sobreviver".

"Há sempre aquele pensamento de que poderia ser minha mãe, minha irmã, uma prima, uma colega de classe, e o país continua em silêncio", explica Kitso Majapelo, presidente de uma associação de estudantes.

"As falhas se sucedem por parte do governo, da polícia e dos políticos que deveriam nos proteger e mudar essa situação. E já chega", acusa ele.

Com AFP

Publicidade
A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações