Após o naufrágio de um barco superlotado rumo ao Iêmen deixar ao menos 139 mortos e 84 desaparecidos no Djibuti, a União Africana e a OIM cobraram ações urgentes contra o tráfico de pessoas e as causas da migração irregular. A maioria das 305 vítimas a bordo era da Etiópia, país de onde milhares fogem em direção ao Golfo pela perigosa "Rota do Leste". A tragédia reforça os apelos internacionais por vias migratórias seguras diante do aumento contínuo do fluxo de migrantes na região.
O presidente da Comissão da UA, Mahmoud Ali Youssouf, expressou "profundo pesar" e ressaltou, em comunicado, a urgência de "enfrentar as causas profundas da migração irregular" e de "promover uma migração segura, ordenada e regular".
Além dos mortos, 84 pessoas estão desaparecidas após o naufrágio da embarcação superlotada que seguia para o Iêmen. A maioria das vítimas era de origem etíope, informou a ONU neste domingo.
Dezenas de milhares de migrantes percorrem todos os anos a chamada "Rota do Leste", trajeto marítimo que liga o Chifre da África ao Iêmen, passando pelo Djibuti e pelo estreito de Bab el-Mandeb, apesar de ser uma das rotas migratórias mais perigosas do mundo.
Mais de 80 pessoas sobreviveram ao naufrágio, todas de nacionalidade etíope, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), agência da ONU. De acordo com os sobreviventes, a embarcação, que estava lotada, virou na madrugada de 9 de outubro, perto de Guhere, ao norte da cidade djibutiana de Obock, segundo comunicado da organização.
A embarcação transportava 305 pessoas, informou à AFP o chefe da missão da OIM no Djibuti, Alexandre Coissac. O barco, "pequeno demais para o número de passageiros", virou a algumas dezenas de metros da costa, acrescentou. "Sobreviventes me disseram que a embarcação começou a virar pela popa assim que eles subiram a bordo", relatou.
A organização está prestando assistência a 64 sobreviventes em seu centro de apoio a migrantes em Obock, oferecendo, entre outros serviços, cuidados de saúde, alojamento temporário e ajuda alimentar. Enquanto isso, as autoridades do Djibuti prosseguem com as operações de busca.
Aumento do fluxo migratório
Apesar da retomada dos combates no Iêmen, no início de setembro, entre os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, e as forças pró-governo, a OIM registrou a chegada de mais de 20 mil pessoas procedentes da Etiópia ao Djibuti desde 10 de setembro.
"O objetivo continua sendo chegar aos países do Golfo", explicou Coissac. Ele ressaltou que um grupo de cerca de 150 pessoas que estava na embarcação naufragada já havia sido rejeitado no Iêmen e, mesmo assim, tentou novamente fazer a travessia.
O representante da OIM relatou ter conversado com um sobrevivente originário do Tigré, região no norte da Etiópia, onde os combates foram retomados no mês passado entre a Frente de Libertação do Povo de Tigré (TPLF) e o Exército federal. A Eritreia enviou tropas para a região nos últimos dias.
"Essa tragédia nos lembra de forma brutal os perigos aos quais os migrantes estão expostos ao longo dessa rota migratória", percorrida na esperança de encontrar melhores "oportunidades econômicas", resumiu Coissac.
Naufrágios na região
Segundo a OIM, este é um dos naufrágios mais letais dos últimos anos na costa do Djibuti.
Em 2025, mais de 900 migrantes morreram ou desapareceram na "Rota do Leste", tornando aquele o ano "mais mortal já registrado", segundo a OIM. O número de pessoas que percorreram esse trajeto aumentou 18% no período, informou a agência da ONU.
Entre 1º de janeiro e 1º de outubro de 2026, a organização contabilizou cerca de 178 mil chegadas ao Djibuti provenientes da Etiópia.
"Não podemos continuar a encarar essas mortes como algo normal. Vias de migração seguras e legais salvam vidas. Apelo aos governos e aos doadores para que ajam antes que outra embarcação naufrague", declarou Amy Pope, diretora-geral da OIM, citada no comunicado.
Com AFP