Algemados, migrantes sul-americanos são expulsos dos EUA para a República Democrática do Congo

Eles estão há cinco dias retidos em um hotel nos arredores de Kinshasa. Expulsos dos Estados Unidos, 15 homens e mulheres, migrantes colombianos, equatorianos e peruanos, contaram à AFP nesta quarta-feira (22) que passaram 27 horas dentro de um avião, com mãos e pés algemados, antes de finalmente desembarcar na República Democrática do Congo (RDC).

22 abr 2026 - 16h23

Gabriela tem 30 anos e é da Colômbia. A jovem tatuada, vestindo uma camiseta branca como a maioria dos companheiros, não quis revelar o nome completo: "Eu não queria ir para o Congo. Estou com medo, não conheço a língua", disse.

Hugo Palencia Ropero, 25 anos, cidadão colombiano expulso dos Estados Unidos, sentado do lado de fora de seu quarto em um hotel em Kinshasa em 22 de abril de 2026.
Hugo Palencia Ropero, 25 anos, cidadão colombiano expulso dos Estados Unidos, sentado do lado de fora de seu quarto em um hotel em Kinshasa em 22 de abril de 2026.
Foto: AFP - GLODY MURHABAZI / RFI

Ela afirma ter sido informada do destino apenas na véspera da expulsão: a República Democrática do Congo, país da África Central entre os 15 mais pobres do mundo, a milhares de quilômetros do continente americano.

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A RDC recebeu na sexta-feira, pela primeira vez, migrantes expulsos dos Estados Unidos. O país passa a integrar a lista de nações africanas que nos últimos meses aceitaram participar de um mecanismo migratório americano contestado, de envio de estrangeiros em situação irregular para países terceiros, incluindo Guiné Equatorial, Gana, Ruanda, Sudão do Sul, Camarões e Essuatíni.

Esses acordos costumam incluir apoio financeiro ou logístico dos Estados Unidos. As autoridades dos países de acolhida raramente informam o que acontece com esses migrantes após a chegada.

"Retorno voluntário assistido"

A Organização Internacional para as Migrações (OIM), que os atende após a concessão de autorizações de curta permanência pelos países de destino, afirmou que pode oferecer "retorno voluntário assistido aos migrantes que solicitarem".

Desde a chegada a Kinshasa, megacidade superpovoada com mais de 17 milhões de habitantes, os 15 migrantes sul-americanos passam os dias em um complexo hoteleiro a poucos quilômetros do aeroporto onde aterrissaram. O local tem fileiras de pequenas casas bem cuidadas com paredes brancas. Eles dormem ali e dizem que estão proibidos de sair.

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Viaturas da polícia e do exército estão estacionadas no local, onde às vezes circulam membros de uma empresa militar privada que a AFP não conseguiu identificar.

"Desumano"

Vítimas da política migratória do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, os migrantes passam o dia presos aos celulares para falar com suas famílias. Nenhum fala francês, língua oficial na RDC. Eles afirmam ter recebido cerca de US$ 100 de ajuda de agentes da OIM e dizem que não podem receber visitas.

"Vários dos nossos companheiros ficaram doentes, eu também", relata Gabriela. "Tivemos febre, vômitos, problemas estomacais. Mas nos dizem que é normal e que precisamos nos adaptar." Alguns receberam medicamentos, mas nenhum profissional de saúde os examinou, segundo ela.

Quatro dos moradores do hotel disseram ter recebido um visto de sete dias, prorrogável por três meses. Mas, após os sete dias, afirmam ser ameaçados de perder o apoio e ficar "abandonados".

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"Eles nos pressionam, dizendo: 'Se vocês não aceitarem o programa de retorno aos seus países de origem, vão ficar presos nessa situação aqui no Congo'", afirma Gabriela. "É desumano e injusto."

Atrás dos muros do hotel, ecoa o caos da capital congolesa: uma sucessão de minivans e carros buzinando em uma via esburacada, entre prédios degradados.

A maior parte da população de Kinshasa não tem acesso regular a água encanada nem eletricidade. Quase três quartos dos congoleses vivem abaixo da linha da pobreza, segundo o Banco Mundial.

A chegada dos migrantes sul-americanos já gerou fortes reações na sociedade civil e nas redes sociais congolesas.

"Tenho minhas três refeições, a equipe do hotel limpa tudo e estamos bem protegidos", afirma Hugo Palencia Ropero, colombiano de 25 anos, que diz ter passado cinco meses detido nos Estados Unidos antes de ser expulso para a RDC. Mas "tenho mais medo de estar aqui na África do que na Colômbia", admite, preocupado com o futuro.

"Se os sete dias passarem e não formos mais assistidos, vai ficar muito complicado para nós, ainda mais porque não temos permissão de trabalho", diz o jovem, que agora afirma estar disposto a aceitar "qualquer documento de viagem" para "poder sair deste país".

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Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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