Ex-presidente pró-Europa conquista maioria parlamentar na Bulgária e promete 'fim da instabilidade'

O ex-presidente Roumen Radev conquistou a maioria absoluta no Parlamento na Bulgária, segundo resultados preliminares desta segunda-feira (20), em eleição marcada pela promessa de combater a corrupção e encerrar anos de instabilidade política. Com 44,7% dos votos, a coligação de partidos que ele lidera caminha para obter cerca de 130 das 240 cadeiras do plenário, após oito eleições em cinco anos no país mais pobre da União Europeia.

20 abr 2026 - 07h47

A coligação de Radev, Bulgária Progressista, obteve 44,7% dos votos, segundo resultados oficiais com 96,4% das urnas apuradas até a manhã de segunda‑feira. A vitória expressiva garante a primeira maioria parlamentar absoluta na Bulgária desde 1997 e abre caminho para a formação de um governo estável, após oito eleições realizadas em apenas cinco anos — um ciclo que, segundo analistas internacionais, evidencia uma crise estrutural de governabilidade marcada pela fragmentação partidária e pela dificuldade de construir maiorias duradouras.

O líder da coalizão "Bulgária Progressista" e ex-presidente Rumen Radev fala à imprensa na sede de seu partido, após o encerramento das legislativas em Sófia, em 19 de abril de 2026.
O líder da coalizão "Bulgária Progressista" e ex-presidente Rumen Radev fala à imprensa na sede de seu partido, após o encerramento das legislativas em Sófia, em 19 de abril de 2026.
Foto: AFP - DIMITAR KYOSEMARLIEV / RFI

A Bulgária Progressista supera com folga os conservadores (GERB), do ex-primeiro-ministro Boïko Borissov, que lideravam o governo anterior, e os liberais do PP-DB, que registram respectivamente 13,4% e 12,9% dos votos.

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Em análises da imprensa internacional, a Bulgária aparece com freqûencia como um caso extremo de instabilidade institucional dentro da União Europeia, em que eleições sucessivas não produzem estabilização, mas apenas rearranjos temporários de coalizões.

"Diálogo com Moscou"

"Nós superamos a apatia", afirmou Roumen Radev, ex-general e piloto de caça de 62 anos, diante de apoiadores no domingo.

Defensor da retomada do diálogo com Moscou, o futuro chefe de governo disse que o país "fará esforços para seguir seu caminho europeu, mas, acredite, uma Bulgária forte e uma Europa forte precisam de espírito crítico e pragmatismo".

A ênfase no "pragmatismo", segundo leituras frequentes da imprensa internacional sobre países do Leste Europeu, costuma refletir uma tentativa de equilibrar pressões contraditórias: a integração institucional com a União Europeia e a manutenção de margens de manobra em relação à Rússia, especialmente em temas energéticos e de segurança.

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Antes da votação, Radev declarou compartilhar a recusa da Hungria e da Eslováquia em enviar armas à Ucrânia, em guerra contra a invasão russa, afirmando "não ver interesse para seu país, pobre, em pagar por isso".

Ao mesmo tempo, o político, que tem reiterado os benefícios da União Europeia desde a adesão búlgara em 2007, afirmou que não pretende acionar o direito de veto para bloquear decisões do bloco, sinalizando uma postura descrita por analistas como de eurointegração pragmática, sem ruptura institucional com Bruxelas.

"É uma vitória da esperança sobre a desconfiança, uma vitória da liberdade sobre o medo", declarou Radev, que renunciou em janeiro ao cargo de presidente para disputar as eleições legislativas, com a promessa de enfrentar a "oligarquia política" do país.

Sua formação, criada há apenas alguns meses, reúne figuras heterogêneas, incluindo militares, ex-membros do campo socialista e esportistas.

Anticorrupção e desgaste dos partidos tradicionais

Boryana Dimitrova, do instituto Alpha Research, afirmou que Radev se consolidou como o "vencedor inequívoco" do pleito, destacando também o desempenho abaixo do esperado do GERB.

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Segundo o cientista político Teodor Slavev, Radev "capturou parte do eleitorado do partido pró-Kremlin Vazrazhdane", impulsionado por uma retórica anti-elite e por posições mais abertas em relação à Rússia.

Esse tipo de realinhamento eleitoral é frequentemente apontado por analistas internacionais como sintoma de sistemas partidários altamente voláteis, nos quais partidos tradicionais perdem capacidade de organização de maiorias estáveis, enquanto novas formações absorvem eleitores de espectros ideológicos distintos.

Pesquisas indicam ainda que parte do eleitorado anteriormente alinhado a partidos pró-ocidentais também migrou em direção à nova formação.

"Que tudo mude"

A nova força política "abrange um espectro muito amplo", avaliou na semana passada o ex-vice-primeiro-ministro Atanas Pekanov.

Já Daniel Smilov, do Center for Liberal Strategies, afirmou que Radev poderá enfrentar "pressões" para conduzir o país por uma linha "eurocética", tanto dentro de sua própria coalizão quanto por parte da oposição de extrema direita.

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Segundo ele, os sinais iniciais indicam uma orientação pró-europeia, mas a dúvida central é se essa posição se sustentará na prática diante das pressões políticas internas.

O ex-primeiro-ministro Boïko Borissov parabenizou Radev pela vitória, mas rejeitou a ideia de que o novo governo represente novidade política. "Vencer eleições é uma coisa, governar é outra", disse.

Instabilidade, protestos e crise de confiança institucional

A Bulgária vive desde 2021 um ciclo de instabilidade política marcado por sucessivas eleições e governos frágeis. Protestos anticorrupção contribuíram para a queda de Borissov, que esteve no poder por quase dez anos.

Desde então, coalizões instáveis se sucederam, e o último governo caiu em dezembro diante de novas manifestações anticorrupção apoiadas por Radev.

Para analistas internacionais, esse padrão reflete não apenas alternância política, mas uma crise de confiança mais profunda nas instituições do país, especialmente em relação à percepção de captura do Estado por redes político-econômicas informais frequentemente descritas como "oligárquicas".

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"É simples: as pessoas querem que tudo mude", afirmou a aposentada Stiliana Andonova, entrevistada pela AFP.

Já a analista financeira Gergana Mihailova, de 47 anos, demonstrou preocupação de que a orientação europeia do país possa se deslocar em direção a Moscou.

Alta participação e fragmentação política

A participação eleitoral ultrapassou 50%, o nível mais alto desde 2021, segundo o instituto Market Links.

O pleito também confirmou a entrada no Parlamento do partido de extrema direita Vazrazhdane, além do partido MRF, que representa as minorias turca e rom, esta última de origem indo-ariana.

A fragmentação do Legislativo, combinada com a ascensão simultânea de forças pró-europeias e eurocéticas, reforça o cenário descrito por analistas internacionais como uma democracia de coalizões instáveis permanentes, em que a formação de maiorias depende de rearranjos frequentes e pouco duradouros entre forças políticas altamente heterogêneas.

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Com AFP

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