'Quando a injustiça corrompe, o pão de todos vira propriedade de poucos', denuncia Leão XIV em Angola

O papa Leão XIV denunciou nesta segunda-feira (20), em Saurimo, no leste de Angola, que "quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos vira propriedade de poucos". O sumo pontífice afirmou ainda que "desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, explorados pelos tiranos e enganados pela riqueza". As declarações foram feitas durante uma missa diante de dezenas de milhares de fiéis, no terceiro dia de sua visita ao país africano, marcado por fortes desigualdades apesar da abundância de recursos naturais.

20 abr 2026 - 12h38

Cristiana Soares, enviada especial da RFI a Angola, com agências

O papa Leão XIV acena para a multidão a partir do papamóvel ao chegar para presidir a Santa Missa na esplanada de Saurimo, em Saurimo, no oitavo dia de uma viagem apostólica de 11 dias à África, em 20 de abril de 2026.
O papa Leão XIV acena para a multidão a partir do papamóvel ao chegar para presidir a Santa Missa na esplanada de Saurimo, em Saurimo, no oitavo dia de uma viagem apostólica de 11 dias à África, em 20 de abril de 2026.
Foto: AFP - ALBERTO PIZZOLI / RFI

Entre cantos e manifestações de entusiasmo, o pontífice norte-americano foi recebido com grande mobilização popular na cidade de Saurimo, a mais de 800 km de Luanda, capital do país. Sede da província de Lunda Sul, a região é isolada e localizada próxima às áreas de exploração de diamantes no nordeste angolano. Em meio a esse cenário, marcado por pobreza persistente e impactos ambientais da mineração - já criticados pelo papa desde sua chegada ao país -, Leão XIV fez um discurso de forte teor social.

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O papa alertou para o risco de uma relação utilitária com Deus, na qual a fé se reduz a interesse imediato. "O Senhor vem ao nosso coração perguntando se o buscamos por gratidão ou por interesse, por cálculo ou por amor", afirmou, criticando os que "procuram Jesus como instrumento para atingir outros fins ou como um prestador de serviços". Ele advertiu ainda contra a transformação da fé em superstição: "o mesmo acontece quando a fé autêntica é substituída por um comércio supersticioso no qual Deus se torna um ídolo buscado apenas quando nos serve ou enquanto nos serve".

O líder da Igreja Católica insistiu que Cristo "não rejeita essa busca insincera, mas incentiva sua conversão". O encontro com Jesus é apresentado como um caminho progressivo de liberdade e maturidade espiritual, disse. 

"Cristo nos chama à liberdade. Não quer servos nem clientes, mas busca irmãos e irmãs a quem possa se dedicar plenamente", afirmou, destacando que a fé não pode ser reduzida à dependência ou ao consumo religioso.

Na homilia, o papa voltou a denunciar as injustiças estruturais que marcam a vida de muitos povos e repetiu a crítica social central de sua mensagem: "Hoje vemos que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, explorados pelos tiranos e enganados pela riqueza". Diante de cerca de 40 mil fiéis - além de outras 20 mil pessoas nas áreas próximas, segundo autoridades locais -, ele reforçou que "quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos vira propriedade de poucos". Foi a terceira vez, durante a viagem de 11 dias pela África, que o papa utilizou o termo "tiranos", após discursos na Argélia e em Camarões.

Pouco antes da celebração, sob calor intenso e cercado por um forte esquema de segurança, o pontífice percorreu as ruas da cidade, de cerca de 220 mil habitantes, em papamóvel, saudando a população. Na cidade, a Igreja Católica atua para suprir falhas de infraestrutura pública e assistência social.

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No domingo (19), durante uma missa perto de Luanda com cerca de 100 mil fiéis, o papa, de 70 anos, já havia defendido a necessidade de "curar o flagelo da corrupção" por meio de "uma nova cultura de justiça e partilha".

Riqueza de Angola beneficia sobretudo uma elite política

Angola possui grandes reservas de petróleo, gás, diamantes e outros minerais, e depende majoritariamente da extração e exportação dessas matérias-primas. No entanto, essa riqueza beneficia sobretudo uma elite política e econômica, além de empresas estrangeiras, enquanto grande parte da população tem pouco acesso aos seus efeitos. Segundo o Banco Mundial, cerca de um terço dos angolanos vive abaixo da linha internacional de pobreza, de US$ 2,15 por dia.

Ainda pela manhã, o papa visitou uma instituição que acolhe cerca de 60 idosos em situação de vulnerabilidade, abandonados por suas famílias ou vítimas de violência. Ele foi recebido com cantos e manifestações de entusiasmo pelos residentes, que usavam roupas coloridas e acenavam lenços brancos, após ter sido saudado por centenas de pessoas ao longo do trajeto, incluindo muitas crianças. "Sua presença nesta casa é uma bênção de Deus", afirmou ao pontífice Antonio Joaquin, de 72 anos, que relatou episódios de violência doméstica sofridos dentro da própria família.

Cerca de 44% da população angolana - aproximadamente 15 milhões de pessoas - se declara católica, segundo o censo de 2024. O país saiu devastado, em 2002, de uma longa guerra civil iniciada após a independência do domínio colonial português, em 1975.

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Na tarde desta segunda-feira, Leão XIV retorna a Luanda para um encontro com bispos, padres e religiosos na paróquia Nossa Senhora de Fátima, em uma reunião dedicada aos desafios da Igreja no país, que enfrenta limitações de recursos e o crescimento de igrejas evangélicas.

Depois de João Paulo II, em 1992, e Bento XVI, em 2009, Leão XIV é o terceiro papa a visitar Angola. Sua viagem pela África começou na Argélia, passou por Camarões e termina na Guiné Equatorial, entre os dias 21 e 23 de abril.

RFI com AFP

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