Modelo de comunicação pós-pandemia das plataformas digitais dificulta acesso universal à informação

A ascensão das plataformas digitais alimentou a promessa de uma comunicação em rede, com a informação circulando livremente. Mas elas apenas deslocaram os mecanismos de centralização, e tornaram ainda menos visíveis quem organiza, seleciona e hierarquiza a informação que chega até cada usuário

15 out 2026 - 06h50
Resumo
A pesquisa da Unicamp revela que a pandemia agravou a crise no acesso à informação no Brasil. Apesar da aparente democratização digital, as plataformas mantêm a centralização ao ditar a visibilidade dos conteúdos via algoritmos e interesses comerciais. Entre desertos de notícias, dados móveis limitados e vieses algorítmicos, o direito à informação foi restringido, mostrando a urgência de encarar a comunicação como política pública essencial para a própria sobrevivência e para a democracia.

Caro leitor, se você é um vivente do século XXI, provavelmente já se deparou com o desafio de buscar informações em meio à coexistência do excesso e da falta informacional. Afinal, o "rolar do feed" não significa, necessariamente, estar informado.

Essa não é uma questão que surgiu em 2026. A pandemia mostrou não só que ela já estava presente mas também evidenciou que, em meio ao caos, informar-se não dizia respeito apenas à qualidade do debate público, mas à própria possibilidade de participação social e de sobrevivência. Informar-se, portanto, é um direito.

Publicidade

E esse é o debate que propõe a minha pesquisa recém-publicada pela Unicamp: [Crises entrelaçadas em um Brasil pandêmico: como se configura a permacrise no Brasil durante a Covid-19. ](https://pecim.unicamp.br/evento/2025/10/03/crises-entrelacadas-em-um-brasil-pandemico-como-se-configura-a-permacrise-no-brasil-durante-a-covid-19/)

O que aconteceu com a informação durante a pandemia da covid-19 no Brasil?

Para responder a essa pergunta, a pesquisa partiu da complexidade de produzir e consumir informação no século XXI, marcado pelo digital, que naquele momento aparecia como resposta ao isolamento e à necessidade de conter o contágio.

Informar-se parecia, a princípio, um ato simples e de acesso "universal". Mas, para quem, como nós, sobreviveu àquele período mórbido, ficou evidente que estávamos diante de um ambiente de disputa. Para compreender esse processo, reconstruímos o dia a dia da busca por informações em veículos de jornalismo e divulgação científica, formando uma linha do tempo informacional do primeiro ano da pandemia no Brasil.

Esse processo trouxe à tona não apenas as condições de produção e circulação das informações, mas também revelou que não estávamos diante de uma problemática apenas sanitária. Diferentes crises emergiram, entrelaçaram-se e reforçaram-se mutuamente, produzindo um estado persistente de instabilidade — o que, na pesquisa, chamamos de Permacrise.

Publicidade

O conceito de Permacrise é mobilizado para compreender como diferentes crises se articulam e estabelecem parâmetros para reconhecer e analisar esse e outros cenários semelhantes. Isso exige do pesquisador um olhar atento às particularidades de cada contexto, capazes de ampliar e prolongar seus efeitos. Afinal, como debate Sueli Carneiro, embora a pandemia tenha sido um fenômeno global, ela foi vivenciada de maneiras muito diferentes ao redor do planeta.

E quais eram essas condições? Em 2021, 47% dos acessos à internet no país eram feitos por celulares com planos pré-pagos. Para uma parcela significativa da população, portanto, estar conectado dependia da capacidade de pagar pelos dados móveis. Na prática, buscar notícias, acompanhar orientações e consultar diferentes fontes estava condicionado a essa disponibilidade. A conexão, apresentada como uma das principais respostas ao isolamento, revelava seus limites: estar conectado não significava ter, necessariamente, as mesmas condições para se informar.

E nem mesmo o acesso a outras fontes estava garantido. O país já enfrentava um apagão jornalístico, com o fechamento de 602 veículos de comunicação nos últimos 30 anos. Desses, 61 encerraram suas atividades apenas em 2020.

Quem decide o que vemos?

Para além do acesso, há outra questão especialmente relevante neste momento eleitoral e nos debates de saúde: a centralidade da lógica midiática. Ela não surgiu em 2026, mas a pandemia ajudou a aprofundá-la. É o que chamamos de subversão do modelo de comunicabilidade. Sim, eu também vou explicar!

Publicidade

A ascensão das plataformas digitais alimentou a promessa de uma comunicação em rede, na qual a informação poderia circular entre diferentes sujeitos e em múltiplas direções. Era uma possibilidade que se contrapunha ao modelo de comunicabilidade "unidirecional, linear e autoritário", como descreve Jesús Martín-Barbero, no qual a informação era produzida e distribuída segundo uma lógica de um para muitos. Nesse modelo, poucas e conhecidas instituições concentravam a responsabilidade pela produção e circulação da informação.

Não podemos negar que a expansão das plataformas digitais abriu, de fato, novos espaços de produção e acesso. Mas, como debatemos na pesquisa, essa promessa não significou o fim da centralização. Ela apenas deslocou seus mecanismos, tornando, inclusive, menos visível quem organiza, seleciona e dá visibilidade à informação. Afinal quem decide o que vemos e portanto, consideramos relevante e de credibilidade?

A chamada subversão do modelo de comunicabilidade discute justamente esse deslocamento: a informação, antes concentrada em poucas e conhecidas instituições, passa a ter sua circulação fortemente mediada pelas plataformas digitais. São elas que, por meio de regras, critérios comerciais e sistemas algorítmicos, interferem no que ganha visibilidade e, consequentemente, no que permanece disponível para circulação e até nas condições pelas quais um conteúdo pode ser considerado relevante ou confiável.

É uma subversão porque aparenta produzir uma mudança que, na prática, não se concretiza. Nesse processo, a responsabilidade pela informação — produzida e consumida — é transferida aos indivíduos, sustentando a promessa de um grande alcance que nem sequer pode ser verificado. Afinal, como você, caro leitor, confere se os números daquele seu post mais acessado correspondem, de fato, a pessoas que tiveram acesso ao conteúdo?

Publicidade

O resultado é um ambiente que se apresenta como aberto, conectado e interativo, mas no qual a circulação da informação continua atravessada por uma lógica de centralidade e por interesses comerciais. Essa mediação algorítmica produz consequências que ferem o direito constitucional à informação.

Algoritmos podem amplificar desigualdades, reproduzir vieses e produzir efeitos discriminatórios, como já discutido por Nina da Hora em diferentes espaços. Mais do que organizar o fluxo de informações: as plataformas participam da definição das condições de circulação dos discursos.

E, quando poucas empresas — sediadas fora do Brasil — concentram esse poder, decisões que afetam o ambiente informacional passam a ser tomadas longe dos espaços de debate público e das normas construídas democraticamente no país.

Informação também é política pública

É nesse ponto que a questão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser política pública. Tratar a qualidade do ambiente informacional como responsabilidade individual funciona, na prática, como uma forma de desresponsabilizar as empresas que estruturam esse ambiente. Isso não significa retirar das pessoas a responsabilidade por suas ações, mas reconhecer que ela não pode se limitar ao âmbito individual.

Publicidade

Em uma democracia, o direito à informação não termina quando um conteúdo é publicado. Ele depende das condições para que essa informação alcance as pessoas, possa ser confrontada com outras fontes, permaneça disponível e seja compreendida em seu contexto. E, como previsto pela pesquisa, essa questão se torna ainda mais complexa diante de momentos em que a informação significa a real sobrevivência das pessoas.

Quais são, afinal, as condições para manter veículos de informação em um país no qual as políticas públicas para o setor são poucas ou inexistentes? O fechamento de veículos, a redução das equipes e da cobertura local produzem os chamados desertos de notícias: espaços em que a produção profissional e sistemática de informações de interesse público se torna cada vez mais limitada ou até nula.

Por isso, defender a informação pública e brasileira não significa defender exclusivamente os veículos tradicionais. Universidades, instituições científicas, a divulgação científica, organizações da sociedade civil, projetos independentes e iniciativas comunitárias também contribuem para um ecossistema plural de produção de informação pública, ampliando as possibilidades de acesso, verificação e contextualização.

A democracia depende não apenas da possibilidade formal de escolher, mas das condições informacionais nas quais cada escolha é construída. Informar-se envolve encontrar conteúdos, verificar sua origem, compreender seu contexto e confrontar diferentes fontes. Afinal, a comunicação deve ser compreendida como um direito da humanidade.

Publicidade
The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Érica Mariosa Moreira Carneiro não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se