Avanços em olhos biônicos estão transformando a ficção científica em realidade ao restaurar a visão de pacientes com doenças retinianas. Dispositivos modernos, como o Prima, já devolvem a visão central funcional por meio de microchips e óculos transmissores. Apesar de pioneiros terem enfrentado falhas técnicas, as novas abordagens incluem estimulação cerebral direta e recursos extras como zoom. Contudo, desafios cirúrgicos e a concorrência de terapias com células-tronco ainda limitam a tecnologia.
Se você já mergulhou nos mundos de Star Trek, O Exterminador do Futuro ou no romance cyberpunk Neuromancer, de William Gibson, sabe que uma visão aprimorada pela eletrônica é um elemento clássico da ficção científica. Agora, o que antes era ficção futurista está se tornando realidade.
Pesquisadores desenvolveram olhos biônicos capazes de restaurar parte de uma visão perdida. As capacidades desses dispositivos ainda são básicas atualmente, mas elas vêm melhorando constantemente nos últimos anos.
Um dia, os olhos biônicos poderão até oferecer recursos que transcendam os limites da visão humana natural — por exemplo, manipulando imagens de uma forma que o olho humano não consegue ou enxergando além do espectro da luz visível.
Até o momento, os implantes têm se concentrado no combate a problemas relacionados à retina, a camada de células sensíveis à luz localizada na parte posterior do olho. Assim como o filme na parte traseira de uma câmera fotográfica analógica, a retina nos permite ver o mundo exterior. Quando ela apresenta graves problemas, o resultado pode ser a perda total da visão.
Os trabalhos para tratar a cegueira retiniana com implantes começaram há mais de duas décadas. Um dos primeiros dispositivos, desenvolvido pela fabricante alemã Retina Implant AG, contava com um chip sensível à luz colocado sob a retina danificada da pessoa. Esse chip se conectava às células retinianas saudáveis remanescentes, que então transmitiam o sinal visual do chip do olho para o córtex occipital, a região do cérebro onde a visão é percebida.
A cirurgia para implantar o chip levava cerca de oito horas. Isso incluía a criação de um recesso no crânio, atrás da orelha, para implantar um receptor de energia e, em seguida, conectá-lo por meio de um fio sob a pele ao chip.
O dispositivo oferecia apenas uma visão rudimentar, com os pacientes vendo flashes de luz que correspondiam aproximadamente à forma do objeto para o qual estavam olhando. Muitos implantes também quebravam com o tempo, possivelmente devido aos movimentos rápidos e frequentes do olho ou à corrosão causada pelo líquido salino em seu interior. A Retina Implant AG encerrou suas atividades em 2019, citando a falta de progresso médico como uma das principais razões.
O outro dispositivo pioneiro de destaque, o Argus II, combinava uma câmera montada em óculos com um chip inserido cirurgicamente sobre a retina. A imagem captada pela câmera era convertida em um sinal e transmitida sem fio para o chip (junto com a energia), que então estimulava as células saudáveis da retina danificada por meio de um conjunto de 60 eletrodos.
Apesar dos resultados iniciais positivos e da autorização da FDA - a agência reguladora de medicamentos e alimentos dos EUA - em 2013, o ARGUS II também acabou não apresentando resultados suficientemente convincentes e foi descontinuado em 2019.
Abordagens mais recentes
Apesar desses contratempos, os pesquisadores têm persistido na tentativa de criar uma visão artificial.
Uma abordagem mais recente consiste em usar uma câmera externa que transfere, sem fio, energia e dados de imagem para um chip implantado no córtex occipital. Isso se baseou em pesquisas que colocavam sondas elétricas diretamente no córtex occipital para estimular a percepção visual.
Essa abordagem pode ajudar tanto pacientes com doenças da retina quanto aqueles com condições que afetam o nervo óptico, que conecta a retina ao cérebro. Mas não está claro exatamente qual nível de resolução pode ser alcançado com essa técnica, já que a alta resolução da retina e o complexo processamento de sinais são perdidos.
Uma empresa que está testando essa técnica, a ReVision Implant, com sede na Bélgica, está lançando seu primeiro teste clínico em humanos em outubro de 2026.
Outra opção é usar óculos que transmitam tanto imagens quanto energia para um chip sub-retiniano inserido cirurgicamente por meio de um sinal infravermelho. Um dispositivo que utiliza essa técnica, o Prima, foi testado em uma doença específica da retina chamada degeneração macular relacionada à idade do tipo seco (DMRI), uma das principais causas de cegueira.
Em um pequeno ensaio clínico, o dispositivo restaurou a visão central funcional em 81% dos pacientes, permitindo que lessem letras, números e palavras. O dispositivo já está autorizado para uso em 30 países europeus.
Como a DMRI é muito mais comum do que as doenças retinianas hereditárias tratadas pela maioria dos dispositivos anteriores, o Prima é muito mais atraente para os investidores. Mas há questões éticas envolvidas. Diferentemente dos pacientes com doenças retinianas hereditárias, a maioria dos portadores de DMRI ainda possui boa visão periférica. Assim, eles têm muito a perder se algo der errado, já que a complexa cirurgia para implantar um chip sub-retiniano está longe de ser isenta de riscos.
Visão sobre-humana?
Como essas tecnologias transmitem informações visuais eletronicamente, funcionalidades adicionais poderiam, potencialmente, ser incorporadas a elas. Com o Prima, os pacientes já podem usar o zoom óptico. E algoritmos que permitiriam o aprimoramento da imagem já foram propostos.
No futuro, é possível que surjam dispositivos que utilizem câmeras capazes de enxergar além do espectro da luz visível. Isso poderia oferecer imagens térmicas e visão noturna. Um dispositivo que oferece visão no infravermelho próximo já foi testado em primatas.
Mas, embora sejam empolgantes, esses dispositivos provavelmente não oferecerão visão aprimorada até que a visão artificial, atualmente rudimentar, avance a ponto de esses "recursos opcionais" se tornarem mais relevantes.
Por enquanto, ainda há muitos desafios relacionados a biomateriais e à eletrônica que impedem que os implantes retinianos ofereçam uma restauração completa e de longo prazo da visão. Em desafio potencialmente maior, no entanto, vem de soluções biológicas concorrentes, como as células-tronco, que estão nos estágios iniciais de testes em humanos.
Essas soluções também já passaram por algumas falsas esperanças e há grandes obstáculos a serem superados em termos de sobrevivência e integração celular. Mas, se novas células retinianas humanas puderem substituir aquelas perdidas devido à doença, elas poderão, um dia, superar completamente os olhos biônicos como solução para a restauração da visão.
Tim Jackson participou de um dos ensaios clínicos do dispositivo da Retina AG, e a instituição do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS) na qual ele trabalhava recebeu recursos de centro clínico pelos participantes inscritos no ensaio. Como parte desse ensaio, ele também recebeu apoio para participar de um treinamento para cirurgiões na Alemanha.