A eleição brasileira opõe dois modelos de inserção global: a autonomia multilateral defendida por Lula e o alinhamento aos EUA proposto por Flávio Bolsonaro. O embate envolve a soberania sobre minerais estratégicos, políticas de segurança e a submissão aos interesses norte-americanos, como a controversa iniciativa Escudo das Américas. A escolha definirá se o Brasil agregará valor às suas riquezas e manterá independência decisória ou se subordinará suas diretrizes e recursos a Washington.
Este texto foi escrito com a colaboração da editora Mônica Tarantino, do The Conversation Brasil
A expressão imperialismo norte-americano, frequente nos debates políticos da década de 1970, costuma ser vista como uma palavra de ordem do passado. Mas ela se mantém atual e ajuda a compreender a disputa eleitoral no maior país da América Latina.
Imperialismo não significa somente ocupação de território ou intervenção militar. Também designa a capacidade de uma potência de impor limites às escolhas de outros países por meio de pressão diplomática e econômica, alianças militares, controle de tecnologias e acesso privilegiado a recursos. Os instrumentos de coerção mudam, mas a relação de poder permanece: alguns países definem as regras, enquanto outros são pressionados a aceitá-las.
Na eleição brasileira, Flávio Bolsonaro, candidato da ultradireita, defende o alinhamento automático e ideológico com os Estados Unidos e claramente se diz disposto a acatar o que Donald Trump ordenar, como o acesso irrestrito aos recursos naturais. O presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, defende a autonomia e o multilateralismo, enquanto negocia com Washington a redução de tarifas sobre a importação de produtos brasileiros e o acesso a minerais críticos. Trata-se de uma política externa que poderíamos chamar "autonomia não confrontativa".
Bolsonaro já ofereceu sua equipe de transição, em caso de vitória, ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, e informou que poderia colocá-la à disposição para concluir acordos. A proposta veio a público depois que Rubio a mencionou em sua resposta à oferta. A iniciativa contrasta com os princípios da política externa brasileira previstos na Constituição, como a independência nacional, a autodeterminação dos povos e a não intervenção nos assuntos internos.
Minerais e democracia
A disputa pelo controle dos recursos minerais e energéticos do Brasil não é novidade. Em 1953, o debate se concentrava em torno de quem deveria controlar o petróleo brasileiro. A campanha "O petróleo é nosso" defendia que essas atividades, por serem estratégicas, deveriam ficar sob controle do Estado. Outros grupos defendiam a participação de empresas privadas, inclusive estrangeiras. A Lei nº 2.004, de 3 de outubro de 1953, criou a Petrobras e estabeleceu o monopólio da União sobre atividades como pesquisa, extração, refino e transporte do petróleo.
Em 1995, após a redemocratização, uma emenda constitucional permitiu que outras empresas atuassem no setor. Dois anos depois, em 1997, a Lei do Petróleo definiu as regras e criou a ANP (Agência Nacional do Petróleo). Hoje, empresas brasileiras e estrangeiras podem explorar petróleo sob contratos fiscalizados pela agência.
Nos dias atuais, além do petróleo e do gás, essa disputa inclui minerais críticos para a transição energética, como lítio, cobalto, cobre e manganês. O Brasil também detém a maior reserva mundial de nióbio e reservas expressivas de grafita, terras raras e níquel. Esses minerais integram diferentes cadeias industriais, da produção de baterias e ligas metálicas a semicondutores, equipamentos de defesa e tecnologias digitais.
O que está em jogo nesta eleição é o modelo de aproveitamento de toda essa riqueza. O país pode continuar exportando as matérias-primas ou investir para processá-las e produzir aqui componentes e tecnologias de maior valor agregado.
Essa escolha — entre a submissão aos interesses de Washington e a autonomia nacional — definirá quem controla as etapas mais rentáveis, onde ficam os empregos qualificados e as receitas e quanto o Brasil dependerá de tecnologia e empresas estrangeiras. É essa disputa que está à mesa nesta eleição, junto com a decisão sobre quem se beneficiará da exploração desses recursos.
A intenção norte-americana de interferir na política brasileira também não é inédita. Quando os militares deflagraram o golpe de Estado de 31 de março de 1964 (que levou a 21 anos de ditadura empresarial-militar), o presidente Lyndon Johnson (EUA) autorizou a Operação Brother Sam. Era um plano para enviar combustível, armas e munição e posicionar uma força naval perto do Brasil, caso a ação enfrentasse resistência.
A disposição de apoiar os golpistas está registrada em diversos documentos. Essa aliança mostra como os interesses políticos e estratégicos dos Estados Unidos prevaleceram sobre a defesa da democracia e da autonomia brasileira.
Esferas de poder
A disputa eleitoral no Brasil também ocorre em meio à reconfiguração da ordem mundial. O fim da Guerra Fria (1947-1991) encerrou a disputa entre Estados Unidos e União Soviética e abriu um período de predominância norte-americana. Washington passou a disseminar a sua agenda neoliberal, que pregou a abertura dos mercados e a redução de impostos e de outras barreiras à entrada de produtos e empresas estrangeiras.
Nas décadas seguintes, essa ordem mudou com a ascensão da China e o maior peso de países emergentes, que reivindicam mais influência nas decisões globais. A ampliação do BRICS — grupo de cooperação política e econômica criado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia e China, com a entrada da África do Sul em 2011 — expressa essa busca. Em 2024, foram incorporados Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos. A Indonésia aderiu em 2025. Na Cúpula do Rio, em 2025, o grupo defendeu ampliar a representação de África, Ásia e América Latina no Conselho de Segurança da ONU. Lula era presidente do Brasil quando ocorreu a primeira cúpula do BRICS, em 2009, e desde então apoia fortemente a iniciativa.
Em meio a essas transformações, com a aplicação da sua Doutrina Donroe, os Estados Unidos buscam reforçar sua influência na América Latina, região que consideram parte de sua esfera de influência, para negociar com as potências emergentes a partir de uma posição de força. A construção dessa esfera de poder conecta comércio, defesa, tecnologia e alinhamentos diplomáticos.
Nesse cenário, minerais críticos ganham importância estratégica. A competição envolve não só o acesso às jazidas, mas também onde esses minerais serão processados e quem controlará as tecnologias e os mercados de maior valor.
O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por agentes norte-americanos, em janeiro de 2026, e os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciados em fevereiro, evidenciam o uso da força para impor objetivos políticos fora do território americano. No caso venezuelano, Trump afirmou que os Estados Unidos conduziriam o país e que empresas americanas revitalizariam seu setor petrolífero. No caso iraniano, a ofensiva abriu uma guerra com consequências regionais e globais.
A política regional, como se pode ver, não está separada da disputa global. Toda essa discussão perpassa as relações entre Brasília e Washington. União Europeia, Rússia e outras potências também buscam proteger seus interesses e ampliar sua influência. Para o Brasil, não se trata de escolher automaticamente um lado, mas de impedir que a competição entre grandes potências determine o destino dos recursos brasileiros.
Ingerência na segurança
A disputa por uma nova ordem global também se dá no campo da segurança. Washington designou as facções PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, classificação que entrou em vigor em 5 de junho de 2026. Essa decisão converte um problema de segurança pública em justificativa para enquadrar a região numa estratégia militar definida pelos Estados Unidos. O governo brasileiro rejeitou a designação por avaliar que ela pode abrir espaço para a ingerência armada externa no país e sanções a empresas brasileiras.
Favorito de Trump, Flávio Bolsonaro defende a aproximação do Brasil com a iniciativa "Escudo das Américas", que compromete os governos latino-americanos com a estratégia de segurança de Washington. Nesse arranjo, vidas, recursos públicos e decisões nacionais ficam submetidos e comprometidos com os interesses da Casa Branca.
Na cúpula do "Escudo das Américas", em 7 de março deste ano, Trump reuniu 12 líderes da América Latina e do Caribe no Trump National Doral Miami, seu hotel-resort na Flórida. Brasil, México, Uruguai e Colômbia ficaram de fora. O encontro lançou uma coalizão de segurança regional.
A imagem do "Escudo" exemplifica bem o custo potencial desse alinhamento: cooperação militar, recursos orçamentários e, em uma eventual guerra por procuração, a vida de cidadãos dos países participantes. É assim que a disputa por influência pode se traduzir em decisões concretas para cada sociedade e interferir no cotidiano dos cidadãos.
Em setembro, exércitos do Peru, dos Estados Unidos, do Chile e da Argentina participaram do exercício Southern Vanguard 2026, na Amazônia peruana. O treinamento buscou aprimorar operações conjuntas e a coordenação entre as forças. A agenda incluía ameaças como narcotráfico, mineração ilegal e crime organizado (Comando Sul dos EUA).
Quando essa cooperação é lida ao lado da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos, ela também levanta uma questão de soberania: quem define as prioridades e as formas de atuação das forças de segurança na região?
Fissuras e riscos
Se a ultradireita vencer as eleições e consolidar sua força no Congresso Nacional, o Brasil poderá se somar aos 12 governos reunidos no "Escudo das Américas" e dar maior peso a essa articulação na América Latina. O país seria uma espécie de "cabeça da serpente".
A expressão "IV Reich norte-americano" se forja nesse contexto, nomeando a expansão de um projeto de segurança continental em que pressão econômica, alinhamento diplomático e força militar se combinam para subordinar decisões, recursos e políticas nacionais e exercer forte influência nos partidos de ultradireita do mundo.
O "Escudo das Américas", porém, tem as suas fissuras. Em quase todos os países participantes, a inflação, a desindustrialização e o desemprego alimentam pressões sociais contra as políticas econômicas de seus governos. Essas tensões podem limitar a estabilidade desses alinhamentos.
O alinhamento internacional de um país, portanto, não é uma escolha abstrata: envolve decisões sobre comércio, minerais e tecnologia, além da capacidade de definir os próprios rumos políticos e econômicos. No coração destas eleições, há dois projetos bem distintos em disputa, com consequências para as próximas gerações, tanto brasileiras quanto latino-americanas e mundiais.
Hector Luis Saint-Pierre recebe financiamento da Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnologico (CNPq-Pq) e da CAPES/ MInistério de Defesa através do Edital Pro-Defesa V. É afiliado à Associação Brasileira de Relações Internacionais (ABRI), Sócio Emérito da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED) e da SBPC.