A informalidade no transporte rodoviário de cargas representa 43% do mercado brasileiro e gera uma perda anual estimada em R$ 32,7 bilhões em tributos, segundo estudo da Associação das Administradoras de Meios de Pagamento Eletrônico de Frete (Ampef). O levantamento aponta que práticas fora das regras seguem disseminadas no setor e impactam a arrecadação e a dinâmica da atividade.
De acordo com o estudo, o transporte rodoviário movimenta cerca de R$ 818,6 bilhões no país. Desse total, R$ 351,8 bilhões estão no segmento informal, enquanto R$ 466,9 bilhões correspondem a operações formalizadas. A estimativa foi construída com base no consumo de diesel e nos dados declarados à Receita Federal.
A diferença entre o volume movimentado e os valores registrados resulta em perdas relevantes para os cofres públicos, considerando tributos federais, estaduais, municipais e contribuições previdenciárias. Para a entidade, parte desses recursos poderia ser direcionada a políticas públicas.
Carta-frete ainda é um dos principais gargalos
Entre os fatores associados à informalidade está a carta-frete, prática considerada ilegal, mas ainda utilizada em operações de transporte de média e longa distância.
Nesse modelo, o caminhoneiro recebe um documento para custear despesas da viagem, como combustível e alimentação, e tem acesso integral ao valor apenas após a entrega da carga. Na prática, o sistema restringe o uso dos recursos a estabelecimentos credenciados e pode gerar perdas financeiras na conversão em dinheiro.
Além disso, a ausência de pagamento formal dificulta a comprovação de renda do motorista, limitando o acesso a crédito e a outros serviços financeiros.
O estudo também traz um recorte específico sobre os impactos da carta-frete. Considerando dados de 2023, a perda tributária e previdenciária associada a esse mecanismo foi estimada em valores significativos. Quando atualizada para preços de agosto de 2025, essa perda varia entre R$ 8,9 bilhões e R$ 14,2 bilhões, a depender das premissas adotadas.
Impactos na concorrência e no valor do frete
A informalidade também afeta a concorrência no transporte de cargas. Empresas que operam fora das regras conseguem reduzir custos ao evitar tributos e obrigações, o que pressiona os preços praticados no mercado.
Esse cenário tende a reduzir o valor médio do frete e impactar diretamente a renda dos caminhoneiros, além de criar um ambiente mais instável para empresas que atuam de forma regular.
Custos elevados marcam o cenário atual
O avanço da informalidade ocorre em um momento de pressão sobre os custos do transporte. Em março, o preço do diesel subiu mais de 13% na comparação com fevereiro, com média de R$ 7,10 por litro no tipo S-10, segundo dados da Edenred Ticket Log .
A alta foi influenciada por fatores como a valorização do petróleo no mercado internacional, em meio a tensões geopolíticas, além de reajustes internos. Como o diesel é um dos principais componentes do custo do frete, variações no preço podem impactar diretamente a operação das transportadoras e, indiretamente, incentivar a informalidade.
Setor estratégico para a economia
O transporte rodoviário de cargas é responsável por grande parte da logística no país e segue essencial mesmo em cadeias que envolvem outros modais, como ferrovia e navegação.
Para a Ampef, a ampliação do uso de meios eletrônicos de pagamento de frete, regulamentados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), é uma das alternativas para reduzir a informalidade e aumentar a transparência no setor.