Após esforço de aproximação e apoio a conflito, premiê alemão muda de tom ao negar ajuda ao presidente dos EUA. Guerra impacta também economia e governo da Alemanha.O chanceler federal alemão, Friedrich Merz, tem alternado suas posições sobre o presidente dos EUA, Donald Trump. Há um ano, ele se apresentava como crítico contundente do americano. Depois veio uma longa fase de aproximação, com opositores políticos acusando-o de bajular o chefe da Casa Branca.
A lua de mel culminou na visita de Merz a Washington há cerca de duas semanas. Lá, o chanceler federal expressou compreensão pelos ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã, que resultaram na morte do aiatolá Ali Khamenei.
Merz disse, então, que não queria dar lições a Trump sobre questões de direito internacional. Mas, na segunda-feira (16/03), ele pareceu dar um passo atrás, afirmando que Trump está indo longe demais no Irã.
"O governo não participará desta guerra", declarou na segunda-feira o porta-voz do governo alemão, Stefan Kornelius. Tampouco a Alemanha participará de uma operação militar para permitir que navios atravessem o Estreito de Ormuz, tal como pediu Trump."Esta guerra não tem nada a ver com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Não é uma guerra da Otan", acrescentou, quando jornalistas lhe perguntaram sobre uma possível contribuição da Marinha alemã.
"Soluções diplomáticas"
O ministro da Defesa, Boris Pistorius, reafirmou a posição no mesmo dia, dizendo: "Queremos soluções diplomáticas e um rápido fim [para o conflito], mas navios de guerra adicionais na região provavelmente não contribuirão para isso."
Segundo ele, a atual Operação Aspides da União Europeia, uma missão militar criada em resposta aos ataques dos houthis para proteger rotas marítimas no Mar Vermelho, seja adequada para uma missão no Estreito de Ormuz.
O presidente dos EUA usou a própria rede social para demandar que vários países apoiem as forças americanas na rota marítima, que é chave para a passagem de embarcações petrolíferas. Segundo Trump, a Otan enfrentaria um futuro sombrio se não ajudasse a garantir a segurança do estreito.
"Os Estados Unidos também não nos consultaram antes desta guerra", disse ainda o porta-voz Kornelius. "Acreditamos que isso não seja da alçada da Otan nem do governo federal."
Altos preços da energia
Após o início da guerra no Irã, Merz voltou a adotar uma postura de confronto em relação a Trump. "A cada dia que passa de guerra, surgem mais perguntas. Acima de tudo, preocupa-nos que aparentemente não exista um plano conjunto [dos EUA e de Israel] para encerrar essa guerra de forma rápida e decisiva", afirmou no fim de semana, dez dias após o início da guerra.
Uma guerra prolongada não está no interesse da Alemanha, continuou ele, alertando para consequências de longo alcance para a Europa, incluindo nas áreas de segurança, fornecimento de energia e migração.
Acima de tudo, o forte aumento dos preços do petróleo mostra como a guerra dificulta a recuperação econômica da Alemanha, a meta política mais importante para Merz.
A economia luta para sair da recessão, com avanços recentes se mostrando dependentes de novos investimentos maciços, que geram dívida pública. Empresas alemãs vêm entrando em falência a passos mais largos do que o habitual ou transferindo operações para o exterior, enquanto cresce o desemprego.
A previsão do Instituto Econômico Ifo é que a guerra no Irã enfraquecerá a recuperação e alimentará a inflação. Se a guerra terminar em breve, o instituto prevê que o crescimento econômico deste ano seria reduzido entre 0,2% e 0,8%. Se a guerra durar mais, a redução estimada seria de 0,4%.
Duplo dilema para Merz
Merz sabe que a situação econômica provavelmente determinará o sucesso ou fracasso do seu governo. Além disso, a crise atual poderá ter impacto já nas duas eleições de setembro, nos estados da Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, ambos no Leste da Alemanha.
Lá, o partido populista de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) está à frente nas pesquisas, com uma plataforma favorável ao fim das sanções contra a Rússia. O fato de que Trump agora também quer suspender sanções no setor energético para reduzir os preços de petróleo e gás favorece diretamente a legenda.
Isso apresenta um dilema para Merz. Ele quer manter as sanções contra o Kremlin, para sustenta a pressão sobre a Rússia na guerra na Ucrânia. Mas uma grande maioria na Alemanha espera que o governo federal faça algo para reduzir os altos preços da energia.
Pesquisas também mostram uma rejeição esmagadora da opinião pública a qualquer envolvimento militar alemão na guerra contra o Irã. Este é o segundo dilema do chanceler: ele quer se apresentar como um aliado confiável dos Estados Unidos. Mas, após se esforçar para construir uma boa relação com Trump, ele agora se vê forçado a se distanciar novamente.
efe do governo alemão não está sozinho na Europa em recusar uma contribuição militar. Reino Unido e França, ambos com fortes forças navais, também têm se mantido reservados. A disposição de seguir os EUA em uma guerra iniciada por Trump sem consultar seus aliados é muito baixa neses países, assim como na Alemanha.