Fortalecida com a maioria no Congresso, a oposição democrata planeja investigar Donald Trump por suposta corrupção envolvendo países do Oriente Médio. O foco recairá sobre lucros bilionários em criptomoedas ligados aos Emirados Árabes, licenciamentos imobiliários de luxo, o recebimento de um jato de US$ 400 milhões do Catar e a gestão obscura do Conselho da Paz para Gaza. Além do próprio presidente, negócios e a influência diplomática de seu genro, Jared Kushner, também serão alvos de apuração.
Após conquistar maioria no Congresso, oposição democrata promete investigar Trump por suspeitas de corrupção. Investimentos imobiliários, presentes multimilionários e conselho da paz em Gaza estão entre possíveis alvos.A corrupção é uma das principais preocupações do eleitorado americano em relação ao governo de Donald Trump, segundo diversas pesquisas realizadas no contexto das eleições de meio de mandato.
Cientes disso, figuras importantes do Partido Democrata foram rápidas em anunciar, após sua vitória no pleito, que pretendem investigar acusações de corrupção quando assumirem seus mandatos no Congresso em janeiro.
É muito provável que muitas dessas investigações se concentrem nas ligações do governo e da família Trump com países ricos do Oriente Médio.
"A nova maioria democrata no Congresso certamente usará de forma agressiva seus poderes para investigar as alegadas irregularidades do governo", escreveu Amy Hawthorne, pesquisadora associada do think tank Arab Center, sediado em Washington, em um comentário após as eleições. "Casos envolvendo o Oriente Médio serão seus principais alvos."
As declarações financeiras apresentadas pelo presidente Trump no meio deste ano mostraram que, em 2025, seus negócios geraram cerca de 2 bilhões de dólares em receitas.
Observadores destacaram que esse valor foi três vezes maior do que o reportado no ano anterior.
"De acordo com as informações disponíveis [...], países e empresas do Oriente Médio contribuíram diretamente para os resultados financeiros dos negócios da família Trump, mais do que qualquer outra região do mundo", comentou à época Brian Katulis, pesquisador sênior e especialista em política externa dos EUA no Middle East Institute, em Washington. "Entidades do Golfo pagaram cerca de 300 milhões de dólares aos negócios do presidente em 2025."
Bilhões em criptomoedas
Grande parte do dinheiro que Trump ganhou em 2025 veio da venda de uma participação em uma empresa de criptomoedas, a World Liberty Financial, observou Katulis.
A empresa foi fundada pelas famílias Trump e Witkoff em 2024. Steve Witkoff é o enviado especial de Trump para o Oriente Médio.
Em 2025, uma grande parte da companhia foi vendida a uma empresa de investimentos apoiada pelo xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, alto funcionário dos Emirados Árabes Unidos.
Tahnoon atua como conselheiro de segurança nacional dos Emirados e também é irmão do presidente do país.
O negócio foi selado a portas fechadas em janeiro de 2025, pouco antes da posse de Trump como presidente.
Meses depois, em maio de 2025, os Estados Unidos concordaram em permitir que os Emirados Árabes Unidos tivessem acesso a chips avançados de inteligência artificial, apesar das objeções de alguns conselheiros de segurança nacional.
O governo Trump nega que os dois negócios estejam relacionados.
Prédios de Trump no Oriente Médio
Há também outros supostos casos de corrupção ligados ao governo Trump com conexões ao Oriente Médio.
Entre eles estão acordos de Trump com incorporadoras imobiliárias da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, com possíveis conflitos de interesse.
Essas incorporadoras do Golfo, que mantêm laços estreitos com seus governos e famílias reais, concordaram em construir resorts de golfe, hotéis, mansões, arranha-céus e torres com a marca Trump na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes Unidos, no Catar e nas Maldivas.
Em 2025, Trump informou ter recebido 59,5 milhões de dólares em receitas de licenciamento imobiliário no exterior, dez vezes mais do que havia faturado em 2023, informou a CNBC em agosto. Segundo a emissora, quase dois terços desse valor vieram de projetos no Golfo.
Entidades da sociedade civil argumentam que "os acordos criam conflitos entre o papel de liderança política de Trump e seus interesses privados", porque alguns desses países do Golfo e seus empreendedores também estavam "buscando grandes investimentos nos Estados Unidos, solicitando autorizações governamentais ou defendendo relações econômicas e diplomáticas favoráveis".
Avião presenteado pelo Catar
Quando a família real do Catar presenteou Trump com um jato de luxo avaliado em cerca de 400 milhões dólares, em maio de 2025, políticos e especialistas em ética questionaram se era adequado aceitar um presente tão valioso de um governo estrangeiro.
Trump aparentemente pretendia doar a aeronave para seu projeto sediado na Flórida, a Donald J. Trump Presidential Library Foundation, depois que encerrasse seu mandato.
Atualmente, não está claro se isso acontecerá. Também há especulações de que Trump possa tentar manter o avião para uso pessoal.
A fundação é uma organização sem fins lucrativos e recebeu dezenas de milhões de dólares em financiamento. Uma investigação da rede CBS rastreou mais de 100 milhões de dólares em doações provenientes de acordos judiciais e doações empresariais.
A senadora democrata Elizabeth Warren já afirmou que a fundação será investigada. "Grandes corporações e governos estrangeiros não deveriam poder comprar influência em Washington por meio de doações à biblioteca presidencial", declarou ela à CBS.
O "Conselho da Paz" de Gaza
Os planos para o chamado Conselho da Paz foram elaborados em setembro de 2025 para facilitar um cessar-fogo e a reconstrução em Gaza.
O órgão foi concebido como uma espécie de organização internacional multilateral, semelhante às Nações Unidas, com a diferença de que Trump atuaria como presidente por tempo indeterminado, enquanto países que doassem 1 bilhão de dólares poderiam ter assento permanente no conselho.
Especialistas afirmam que o Conselho da Paz teve poucos resultados em Gaza, e apontam diversos fatos preocupantes.
Quatro meses após sua criação, a conta do Banco Mundial destinada a administrar os recursos do conselho estava vazia, informou o jornal Financial Times em maio. Em vez disso, o dinheiro teria sido depositado em uma conta privada do banco JP Morgan, sem supervisão.
Houve contribuições de cerca de 3 milhões de dólares do Marrocos e de 20 milhões de dólares dos Emirados Árabes Unidos, além de promessas de bilhões de dólares dos membros do conselho e de 10 bilhões de dólares por parte de Trump.
O status jurídico da entidade também foi alterado para transformá-la em uma organização não governamental internacional. Essa mudança pode ter visado "evitar a supervisão do Congresso americano e manter grande parte de suas atividades opacas", como observou em junho a advogada e pesquisadora Zaha Hassan em um texto publicado pelo think tank Carnegie Endowment for International Peace.
Hassan destacou ainda que a alteração "concede a Trump autoridade máxima de tomada de decisões, inclusive sobre questões financeiras".
Negócios em família
"A família criminosa Trump está no topo das nossas prioridades de investigação", afirmou Robert Garcia, principal democrata no Comitê de Supervisão da Câmara dos Representantes, após as eleições legislativas.
Garcia já manifestou preocupação com a atuação de Jared Kushner, genro de Trump, no Oriente Médio.
A maior parte das questões envolvendo Kushner diz respeito a possíveis conflitos de interesse.
Kushner atua como enviado voluntário na região e esteve profundamente envolvido em negociações para encerrar os conflitos em Gaza e com o Irã.
No início de outubro, a CNN publicou uma investigação detalhando ligações entre a empresa de private equity de Kushner, a Affinity Partners, e investimentos em importantes fabricantes militares israelenses.
Também foi noticiado que, enquanto viajava pela região, Kushner buscou captar bilhões de dólares para seu fundo de investimentos.
Em março, políticos democratas, incluindo Garcia, enviaram cartas ao gabinete presidencial afirmando ter "sérias preocupações sobre se a Casa Branca está permitindo que o sr. Kushner utilize sua influência para obter ganhos financeiros pessoais".
As acusações potencialmente mais prejudiciais contra Kushner surgem no livro Prince and Thieves, publicado no fim de outubro pelo jornalista investigativo americano Matthew Cole.
"Kushner trabalhou com os Emirados Árabes Unidos para moldar a política externa americana em todo o Oriente Médio e, durante esse trabalho, teve acesso a contas bancárias contendo aproximadamente 2 bilhões de dólares", escreveu o New York Times em sua resenha do livro de Cole.
Kushner nega as acusações sobre qualquer fundo secreto administrado por um banco israelense e ameaçou processar a revista Vanity Fair, que publicou trechos do livro.
Mas, como concluiu o New York Times, "o trabalho de Cole é suficientemente sóbrio, detalhado e forense para justificar uma investigação urgente e em larga escala por parte do Congresso".