Fim da 6x1 vai exigir mais caminhoneiros, mas setor de transportes já não encontra quem contratar

Nova regra garante dois dias de folga por semana, mas aplicação aos motoristas profissionais ainda exige esclarecimentos; empresas temem aumento de custos e falta de mão de obra

22 out 2026 - 17h42
Resumo
O fim da escala 6x1 deve alcançar os caminhoneiros CLT, impondo dois dias de descanso e reduzindo a jornada para até 40 horas semanais. Embora traga benefícios à saúde e à segurança viária, a mudança preocupa transportadoras diante da escassez crônica de mão de obra e da necessidade estimada de 240 mil novos motoristas. O setor alerta que a falta de profissionais pode encarecer o frete e elevar custos operacionais sem investimentos prévios em formação, produtividade e modernização da frota.

O fim da escala 6x1, promulgado pelo Congresso Nacional em 16 de outubro, também deverá alcançar os caminhoneiros contratados com carteira assinada, segundo uma representante do transporte rodoviário de cargas e o ministro dos Transportes. A mudança garante dois dias de descanso semanal, sem redução salarial, e poderá exigir a reorganização das operações das transportadoras, que já enfrentam dificuldades para contratar motoristas.

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A Emenda Constitucional 141/2026 estabelece uma transição gradual. A partir de 15 de dezembro, a jornada máxima semanal cai de 44 para 42 horas, e os dois dias de descanso remunerado passam a valer. Doze meses depois, o limite chega a 40 horas.

Gislaine Zorzin, diretora administrativa da Zorzin Logística e diretora institucional da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos (ABTLP), considera que os motoristas empregados também estarão sujeitos aos novos limites.

"A gente realmente tem uma legislação, que é a Lei do Motorista, mas a questão de jornada, apesar de ser uma flexível, segue a lei maior, que é a CLT", afirmou ao Estradão.

"Eu não vejo uma distinção ou uma exclusão dos motoristas dessa lei. Porque, apesar de o motorista ser uma atividade essencial, ele continua sendo um trabalhador como qualquer outro", disse. A emenda prevê compensação de jornada e negociação coletiva, inclusive para regimes diferentes do 5x2. Como essas regras serão aplicadas às particularidades do transporte rodoviário, porém, ainda precisa ser esclarecido. Para Gislaine, essa discussão deve ganhar força durante o período de transição.

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Falta de motoristas pode dificultar adaptação à 5x2

A principal preocupação da empresária é a falta de mão de obra para manter as operações com jornadas menores. "A gente vai precisar de um efetivo maior para atender as operações e esse efetivo não existe já hoje para atender as operações que a gente tem andando", afirmou.

O tamanho dessa necessidade, segundo ela, vai depender da organização das escalas e das características de cada operação. Estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgado anteriormente pelo Estradão, estimou que a redução da jornada sem diminuição proporcional dos salários poderia elevar os custos com pessoal do setor em 8,6%. O levantamento também projetou a necessidade de cerca de 240 mil trabalhadores adicionais para manter os serviços contínuos no cenário analisado.

Outra pesquisa da CNT apontou que 65,1% das transportadoras relatavam dificuldades para contratar motoristas e que 44,6% das empresas do transporte rodoviário de cargas tinham vagas abertas.

A escassez já afeta a operação de empresas do setor. Em entrevista anterior ao Estradão, Gislaine relatou ter cerca de 20 caminhões parados por falta de motoristas.

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Custos do transporte também preocupam

Além da contratação, a empresária alerta para possíveis impactos sobre produtividade, disponibilidade de frota e custos operacionais.

Gislaine argumenta que a redução da jornada sem investimentos simultâneos em tecnologia, qualificação profissional e eficiência pode provocar atrasos, reduzir a capacidade de transporte e aumentar despesas. Parte desses custos, avalia, pode ser repassada ao frete e, depois, aos preços dos produtos transportados.

"O problema não é a jornada. O problema é tentar mudá-la sem arrumar a casa", escreveu.

A empresária defende uma transição acompanhada de investimentos na formação de motoristas, modernização das operações e ganho de produtividade.

A redução da jornada também pode trazer benefícios aos trabalhadores, como mais tempo de descanso e menor exposição à fadiga. Especialistas ouvidos anteriormente pelo Estradão apontaram que jornadas menores podem contribuir para a saúde dos profissionais e para a segurança nas rodovias.

Como ficam as transportadoras?

O desafio das empresas será reorganizar escalas, viagens e prazos de entrega |
O desafio das empresas será reorganizar escalas, viagens e prazos de entrega |
Foto: Luft Logística/Divulgação / Estadão

Com a emenda promulgada, o desafio das empresas será reorganizar escalas, viagens e prazos de entrega, considerando os períodos obrigatórios de descanso e a disponibilidade de profissionais, enquanto não se define como a nova regra será conciliada com a Lei do Motorista.

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Gislaine acredita que a adaptação levará tempo. "Acho que também, depois de todas as leis, quando muda alguma coisa assim, leva um tempo para tudo se ajustar, tudo se adaptar. E com essa lei não vai ser diferente", afirmou.

O Estradão procurou o Ministério dos Transportes para esclarecer como a nova jornada será aplicada aos motoristas profissionais, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

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