EUA e China lideram corrida global inédita por fusão nuclear

5 jul 2026 - 11h46

Investimentos globais chegam a 13 bilhões de dólares, com salto de 30% no segundo semestre do ano passado. Alemanha mira tecnologia, mas ainda está atrás de outras potências.O mundo vive uma corrida pela liderança tecnológica da fusão nuclear, defendida por alguns como potencial fonte de energia massiva e livre de gases de efeito estufa. Embora a viabilidade econômica de uma eventual usina seja incerta, cada vez mais bilhões de dólares vêm sendo aplicados por governos, empresas e investidores privado.

Investimentos na fusão nuclear estão hoje 85% concentrados na China e nos EUA
Investimentos na fusão nuclear estão hoje 85% concentrados na China e nos EUA
Foto: DW / Deutsche Welle

No segundo semestre de 2025, os investimentos privados no setor cresceram num ritmo sem precedentes, com 85% do financiamento concentrado na China e nos Estados Unidos. O aumento global foi de 30%, alcançando 13 bilhões de dólares (R$67 bilhões), segundo relatório da organização Fusion for Energy (F4E), da União Europeia (UE).

Publicidade

Até 2050, o setor de energia de fusão poderia atingir um volume de mais de 350 bilhões de dólares, estima a Agência Internacional de Energia (IEA). A demanda por energia cresce continuamente — impulsionada, entre outros fatores, pela eletrificação da economia. E os centros de dados necessários para ainteligência artificial (IA) aumentaram significativamente esse apetite.

O princípio por trás da tecnologia é: núcleos atômicos leves se fundem, formando novos elementos e liberando energia na forma de calor. Esse calor pode ser utilizado para gerar eletricidade, de forma independente do clima, com segurança no fornecimento, sem combustíveis fósseis e sem emissão de gases de efeito estufa.

Ao contrário da energia nuclear convencional, na qual a energia é obtida pela fissão de núcleos atômicos, o risco de acidente na fusão é mais baixo. Os resíduos radioativos apresentam risco menor para a saúde humana e o meio ambiente. Parte dos especialistas argumenta que mesmo um desenvolvimento tecnológico bem-sucedido não seria veloz o bastante para que a Europa alcance suas metas para proteger o clima.

Startups apostam na fusão

Publicidade

Durante décadas, o foco no tema da fusão nuclear esteve principalmente em grandes projetos financiados pelo Estado, como o ITER (International Thermonuclear Experimental Reactor). Neste projeto, 35 países participam da construção de um reator experimental no sul da França, incluindo os países da UE, os Estados Unidos, a Rússia e a China.

Desde o início das obras em 2007, os custos aumentaram enormemente, enquanto a conclusão foi repetidamente adiada. Atualmente, a entrada em operação está prevista para o período entre 2034 e 2036.

Em todo o mundo, também foram fundadas muitas empresas que buscam avançar na construção de reatores de fusão nuclear. Atualmente, 77 companhias trabalham para levar a fusão nuclear à maturidade de mercado, segundo a F4E.

A maioria (42) está nos Estados Unidos, contra oito na China e seis no Reino Unido. Também na Alemanha quatro startups se posicionam no mercado.

Investimentos concentrados em EUA e China

Publicidade

A fusão nuclear não só exige muita pesquisa, como também a injeção de recursos. Excluindo os fundos públicos, cerca de 13 bilhões de euros foram investidos até o fim de 2025 na pesquisa privada em fusão.

A maior parte (53%) vai para empresas dos EUA e cerca de um terço para empresas chinesas. "De fato, nesses dois mercados já existem alguns 'unicórnios' com avaliações superiores a um bilhão de dólares", afirma a F4E. O restante, pouco mais de 700 milhões de euros, vai para oito empresas europeias.

Enquanto na China o Estado investe fortemente na fusão nuclear, nos Estados Unidos o setor é impulsionado principalmente por investidores privados, inclusive das grandes empresas de tecnologia. Por exemplo, o Google apoia a empresa americana TAE Technologies há mais de dez anos, não apenas com centenas de milhões de dólares, mas também com engenheiros da própria empresa trabalhando diretamente no desenvolvimento tecnológico.

Além disso, o Google investiu na maior empresa de fusão dos EUA, a Commonwealth Fusion Systems (CFS), e assinou um contrato para compra de eletricidade. Já a empresa americana Helion Energy é apoiada por Sam Altman, CEO da OpenAI. A Microsoft também firmou um contrato de compra de eletricidade com a Helion Energy.

Publicidade

Alemanha mira mesmo objetivo

Para Markus Roth, professor da TU Darmstadt que fundou em 2021 a startup Focused Energy, a Alemanha tem um ecossistema competitivo para o desenvolvimento da fusão nuclear, em razão da ampla presença de instituições de pesquisa, startups e empresas industriais.

Ao contrário da maioria dos concorrentes, a sua startup aposta em tecnologia a laser. A viabilidade do método foi demonstrada em 2022, quando pesquisadores nos Estados Unidos conseguiram, pela primeira vez, obter mais energia de uma reação de fusão em escala de laboratório do que foi necessário para iniciá-la.

Mas um dos grandes obstáculos no caminho para um reator de fusão é o rápido desenvolvimento de cadeias de fornecimento, ele aponta. "Precisamos aprender, na Alemanha, a construir sistemas a laser como construímos carros — em linha de produção, mas com alta precisão."

O governo alemão também vê grande potencial na fusão nuclear e a define como uma das seis tecnologias-chave para o futuro da Alemanha. Mais de dois bilhões de euros em investimentos públicos foram prometidos para a fusão nuclear nesta legislatura.

Publicidade

No entanto, ainda levará tempo até a geração efetiva de eletricidade, e as startups afirmam que estão longe de ter os recursos necessários para o longo prazo.

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se