EUA anunciam processo contra o ex-líder cubano Raúl Castro

20 mai 2026 - 17h26

Promotores tentam responsabilizar Castro, de 94 anos, pelo abate, em 1996, de dois aviões civis operados por ativistas exilados que viviam nos EUA. Acusação ocorre em meio à escalada de tensões entre EUA e Cuba.O ex-líder cubano Raúl Castro foi denunciado por promotores federais à Justiça americana pelo abatimento, em 1996, de dois aviões civis operados por um grupo de exilados que viviam nos EUA.

Raúl Castro deixou a Presidência de Cuba em 2021, mas segue influente. Em 1996, ele era ministro da Defesa
Raúl Castro deixou a Presidência de Cuba em 2021, mas segue influente. Em 1996, ele era ministro da Defesa
Foto: DW / Deutsche Welle

A denúncia, anunciada nesta quarta-feira (20/05), responsabiliza Castro pelo episódio. Hoje com 94 anos, ele era ministro da Defesa à época. As acusações incluem homicídio e destruição de aeronave, e vêm em um momento de escalada das tensões entre Washington e Havana.

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"Por quase 30 anos, as famílias de quatro americanos assassinados esperaram por justiça", disse o procurador-geral interino Todd Blanche durante cerimônia em Miami para homenagear os mortos. "Eles eram civis desarmados e realizavam missões humanitárias de resgate e proteção de pessoas que fugiam da opressão através do estreito da Flórida."

Questionado sobre até onde as autoridades americanas iriam para levar Castro a responder às acusações nos Estados Unidos, Blanche disse: "Foi emitido um mandado de prisão contra ele. Portanto, esperamos que ele apareça aqui, por vontade própria ou de outra forma."

O governo americano, acrescentou Blanche, indicia pessoas fora dos Estados Unidos "o tempo todo" e usa uma variedade de métodos para levá-las à Justiça.

No início deste ano, os EUA capturaram o líder venezuelano Nicolás Maduro, acusando-o de "narcoterrorismo". Antigo aliado de Cuba, ele está preso em Nova York, onde responde a um processo perante a Justiça americana.

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Desde então, Cuba enfrenta um bloqueio americano que deixou a ilha sem combustível, levando a apagões severos, escassez de alimentos e um colapso econômico em todo o país.

O presidente Donald Trump, que já cogitou uma "tomada amigável" do país e pressiona por uma mudança de regime, quer a abertura da economia ao investimento americano e a ruptura com adversários de Washington.

Cuba critica "ação política sem base legal"

O presidente cubano Miguel Díaz-Canel condenou a denúncia e acusou os Estados Unidos de mentir sobre o que aconteceu em 1996. Ele classificou o indiciamento como "uma ação política sem qualquer base legal", que busca apenas "reforçar o caso que estão fabricando para justificar a loucura de uma agressão militar contra Cuba".

Via X, Díaz-Canel argumentou que Cuba agiu em "legítima defesa dentro de suas águas territoriais após repetidas e perigosas violações de seu espaço aéreo por terroristas notórios".

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Ele disse que autoridades americanas à época haviam sido alertadas sobre as violações, mas permitiram que continuassem.

Também nesta quarta, o secretário de Estado Marco Rubio divulgou uma mensagem em espanhol em que insta o povo cubano a exigir uma economia de livre mercado sob nova liderança.

"Estamos prontos para abrir um novo capítulo na relação entre nossos povos", disse Rubio, que é filho de imigrantes cubanos. "Atualmente, a única coisa que impede um futuro melhor são aqueles que controlam o seu país [Cuba]."

Via X, o vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos F. de Cossío, acusou Rubio de mentir "de forma repetida e inescrupulosa sobre Cuba" e tentar "justificar a agressão que impõe ao povo cubano", afirmando não haver "desculpa para uma agressão tão cruel e implacável".

Quem é Raúl Castro

Castro assumiu a liderança do regime de Cuba em 2006, substituindo seu irmão mais velho e doente, Fidel Castro, antes de transferir o poder a um aliado de confiança, Díaz-Canel, em 2018.

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Embora tenha se aposentado em 2021 como chefe do Partido Comunista Cubano, ele é amplamente visto como alguém que ainda exerce poder nos bastidores.

O neto dele, Raúl Guillermo Rodríguez Castro, já se reuniu secretamente com Rubio e esteve na semana passada com o diretor da CIA, John Ratcliffe, que visitou Havana para reuniões com autoridades cubanas. Outros dois altos funcionários do Departamento de Estado estiveram com ele em abril.

Brothers to the rescue

A partir de 1995, aviões pilotados por integrantes do Brothers to the Rescue, um grupo fundado por exilados cubanos, sobrevoaram Havana lançando panfletos que conclamavam os cubanos a se rebelarem contra o governo Castro.

O regime queixou-se ao governo americano, alertando que defenderia seu espaço aéreo. O caso foi investigado pela Administração Federal de Aviação, órgão regulador da aviação americana. O órgão pediu a líderes do grupo que suspendessem os voos, segundo registros governamentais desclassificados obtidos pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington.

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"Este último sobrevoo só pode ser visto como mais uma provocação ao governo cubano", escreveu uma autoridade da FAA em um e-mail a seus superiores após uma incursão em janeiro de 1996. "O pior cenário é que, algum dia, os cubanos derrubem um desses aviões."

Em 24 de fevereiro de 1996, mísseis disparados por caças MiG-29 de fabricação russa derrubaram dois aviões civis Cessna desarmados, a uma curta distância ao norte de Havana, logo além do espaço aéreo cubano. Os quatro homens a bordo morreram.

Marlene Alejandre-Triana, cujo pai, Armando Alejandre Jr., estava entre os mortos, disse que as acusações chegaram "com muito atraso". Segundo ela, seu pai só queria levar liberdade à sua terra natal, Cuba.

Ao longo dos anos, ela falou com vários investigadores federais sobre a possibilidade de acusar Castro, que considera "um dos principais arquitetos do crime".

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ra (AP, AFP)

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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