Estudo revela impacto financeiro do câncer na vida dos pacientes

Pressão econômica é frequente, além de estar associada ao comprometimento da qualidade de vida, mesmo entre pessoas que têm plano de saúde

5 nov 2026 - 10h06
Resumo
Um estudo publicado na Supportive Care in Cancer revela que a "toxicidade financeira" atinge pacientes oncológicos mesmo na rede privada com planos de saúde. Custos indiretos com transporte, alimentação e perda de renda geram forte estresse econômico, afetando 25% dos indivíduos e piorando sua qualidade de vida. Pacientes jovens são os mais vulneráveis. Diante desse impacto duradouro, especialistas defendem a triagem financeira precoce na rotina médica para criar redes de apoio integral.
Pesquisa que acompanhou 1.343 pacientes em tratamento contra diversos cânceres no Rio de Janeiro e São Paulo identificou que a pressão econômica é frequente, além de estar associada ao comprometimento da qualidade de vida, mesmo entre pessoas que têm plano de saúde. ChatGPT, CC BY
Pesquisa que acompanhou 1.343 pacientes em tratamento contra diversos cânceres no Rio de Janeiro e São Paulo identificou que a pressão econômica é frequente, além de estar associada ao comprometimento da qualidade de vida, mesmo entre pessoas que têm plano de saúde. ChatGPT, CC BY
Foto: The Conversation

Quando pensamos nos efeitos colaterais do tratamento contra o câncer, é comum lembrarmos de náuseas, fadiga, queda de cabelo e dores corporais. Mas existe uma complicação recorrente que raramente é abordada na consulta médica ou descrita nas bulas dos medicamentos: a "toxicidade financeira".

A chamada toxicidade financeira afeta de forma profunda e duradoura a vida dos pacientes e de suas famílias. Essa toxicidade refere-se ao surgimento de dificuldades que não existiam antes do tratamento ou o agravamento de dificuldades que já estavam presentes.

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Geralmente associada às carências do sistema público, a carga econômica do diagnóstico de câncer não deve ser tratada como um desafio exclusivo daqueles que dependem do SUS.

Em um estudo publicado na revista científica Supportive Care in Cancer, revelamos que esse fenômeno também é uma realidade marcante na esfera privada.

Ao acompanharmos 1.343 pacientes em tratamento contra diversos cânceres no Rio de Janeiro e São Paulo, identificamos que a pressão econômica é frequente. Além disso, ela está associada ao comprometimento da qualidade de vida. Isso ocorre mesmo entre pessoas que têm plano de saúde.

Estresse econômico durante o tratamento

A pesquisa utilizou um questionário padronizado de qualidade de vida em oncologia, aplicado antes do tratamento e após seis meses de acompanhamento.

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O questionário contém um domínio específico sobre dificuldades financeiras percebidas pelos próprios pacientes em decorrência da condição física ou do tratamento. Essa abordagem é importante porque ajuda a reconhecer uma dimensão do cuidado que nem sempre aparece nos indicadores clínicos tradicionais.

Ao analisar o início da jornada terapêutica, observamos que 23% dos participantes já começavam o tratamento relatando algum grau de dificuldade financeira. Após seis meses de acompanhamento, essa proporção subiu para 25%.

Mais de 15% dos pacientes apresentaram um quadro inédito ou um agravamento significativo do estresse econômico especificamente por causa da doença.

Esses números evidenciam que a cobertura de uma apólice de saúde não protege totalmente o indivíduo. O impacto financeiro trazido por um diagnóstico oncológico pode ser muito alto.

Essa aparente contradição ocorre porque os planos de saúde costumam cobrir exames, consultas, internações e medicamentos antineoplásicos prescritos em suas diretrizes. Por outro lado, a cobertura formal não alcança uma vasta gama de custos indiretos, além de despesas do cotidiano que surgem ao longo de meses de tratamento.

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Entram nessa conta, por exemplo, o deslocamento constante até hospitais e clínicas e a necessidade de dietas especiais. Além da contratação de cuidadores e a aquisição de medicamentos de suporte para amenizar sintomas. Sem contar o afastamento do trabalho, que afeta paciente e parentes envolvidos nos cuidados diários, que pode também ter impactos.

Quanto mais novo, mais vulnerável

A pesquisa também apontou que a idade é um fator determinante de vulnerabilidade. Pacientes mais jovens são significativamente mais suscetíveis à toxicidade financeira e ao aumento do estresse econômico.

Por estarem em plena fase produtiva, muitas vezes construindo suas carreiras e ainda sem um acúmulo consolidado de reservas financeiras, a interrupção súbita das atividades profissionais e a eventual perda de renda impõem um peso sobre eles e suas famílias.

Outro dado relevante é que os pacientes que já relatavam dificuldades financeiras no início do tratamento apresentaram quase seis vezes mais chances de continuar enfrentando o problema após seis meses.

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O resultado reforça a necessidade de identificar precocemente a vulnerabilidade econômica. As dificuldades iniciais podem persistir durante a jornada terapêutica.

Consequências além das finanças

As consequências dessa sobrecarga econômica não se restringem às finanças domésticas.

No estudo, observamos que pacientes com dificuldades financeiras também apresentavam uma pior percepção sobre sua saúde geral e qualidade de vida.

Essa avaliação foi realizada por meio de um questionário padronizado, com pontuação de 0 a 100. Nessa avaliação, os valores mais elevados representam uma melhor percepção de saúde e qualidade de vida.

Após seis meses de tratamento, a pontuação média foi de 70,9 entre os pacientes com dificuldades financeiras. E 81,1 entre aqueles que não relataram esse tipo de problema. Essa associação permaneceu presente mesmo após considerarmos outras características dos pacientes na análise estatística.

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A preocupação contínua com o pagamento de contas, a incerteza sobre o futuro do orçamento doméstico e a sensação de desamparo material geram um estado de estresse emocional crônico. Esse estado pode acompanhar o paciente no período em que ele mais precisaria de tranquilidade e foco no processo de cura.

Por isso, a avaliação do impacto financeiro precisa ser incorporada à rotina da assistência médica em oncologia. O uso sistemático de questionários simples e padronizados de qualidade de vida no dia a dia dos consultórios pode funcionar como um instrumento eficaz de rastreamento precoce. E isso pode permitir identificar quem está em situação de risco antes que o esgotamento financeiro comprometa o acompanhamento médico.

Redes de apoio

A partir da identificação precoce das dificuldades socioeconômicas, as equipes de saúde podem organizar redes de apoio que incluam orientação sobre direitos e benefícios sociais, além de programas de navegação de pacientes.

Nesses programas, profissionais de saúde acompanham mais de perto a trajetória do paciente, ajudando a identificar e superar obstáculos ao tratamento, como dificuldades de transporte, acesso a medicamentos, agendamento de consultas e necessidade de suporte social e financeiro.

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O diagnóstico de câncer traz desafios complexos que extrapolam a cobertura contratual de qualquer plano de saúde. Para avançarmos rumo a um modelo de atenção integral e centrado na pessoa, é fundamental reconhecer que a estabilidade social e econômica é parte indissociável da saúde física e emocional ao longo de toda a linha de cuidado.

The Conversation
Foto: The Conversation

Natalia Nunes não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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