Estados Unidos e Venezuela: a volta da geopolítica clássica ao centro do debate

O ataque à Venezuela traz de volta à tona perspectivas clássicas de poder, e devem ser entendidos menos como objetivos concretos e mais como instrumentos políticos e discursivos de pressão

20 jan 2026 - 07h28

A escalada de tensões entre Estados Unidos e Venezuela recoloca no centro do debate uma lógica antiga da política internacional: a disputa por áreas de influência. Mais do que um episódio isolado da política externa americana, esse caso ajuda a entender porque conceitos clássicos da geopolítica voltaram a ganhar espaço.

As ações militares dos EUA na Venezuela são uma afronta à soberania daquele país, ao Direito Internacional e aos demais Estados do sistema internacional. São indicativos de uma nova era da Doutrina Monroe comandada por Donald Trump: a Doutrina Donroe. Trump assumiu o termo em sua coletiva sobre a Venezuela, no dia após o ataque, ao dizer que foi "muito além da Doutrina Monroe".

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Geopolítica clássica

O ataque à Venezuela traz de volta à tona perspectivas clássicas de poder. Detentora de importantes ativos estratégicos, especialmente no setor energético, e sustentando um projeto político que confronta a ordem liberal dominante no continente, o país passou a ocupar um lugar central nas disputas geopolíticas que envolvem tanto nações da região quanto grandes potências externas

Os ataques militares dos Estados Unidos e o sequestro de Nicolás Maduro devem ser entendidos menos como objetivos concretos e mais como instrumentos políticos e discursivos de pressão. Neste sentido, há justificativas econômicas e ideológicas por trás dessas ações.

Assumir o controle sobre o petróleo venezuelano, além de criar obstáculos para a expansão chinesa na região, tem grande potencial econômico para os EUA, podendo contribuir para a segurança energética e para a redução da inflação americana. Como justificativa ideológica, vende a ideia de combate ao comunismo e a um governo autoritário.

O caso venezuelano não pode ser analisado isoladamente, se inserindo em um contexto de transformação mais ampla da geopolítica contemporânea, que passou a dividir espaço com abordagens temáticas mais diversificadas. Embora, note-se uma retomada de uma visão mais realista, centrada na disputa pelo poder, fazendo uma intersecção entre o pensamento geopolítico clássico e a área de segurança e defesa.

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Como o mundo deve reagir frente a isso? Buscando afastar ao máximo uma guerra, com declarações, negociações e tentativas de demover o governo Trump a prosseguir nessa empreitada. Evitar replicar o mesmo tipo de ação militar sobre outros países, como Cuba, Colômbia, México e no território dinamarquês da Groenlândia, para se ater ao hemisfério ocidental.

O episódio, ao mesmo tempo em que expõe os limites da autonomia política da América do Sul, revela a permanência de lógicas de poder e conflito nos moldes da teoria geopolítica clássica.

A geopolítica clássica é uma corrente de pensamento que se estrutura do final do século XIX até meados do século XX, associada a autores como Friedrich Ratzel, Halford Mackinder, Karl Haushofer, entre outros.

Panregiões

A escalada de conflitos no cenário internacional e as posturas de Rússia, China e Estados Unidos apontam para um retorno da ideia de grandes áreas de influência, as chamadas panregiões.

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A ideia original foi desenvolvida pelo geopolítico alemão Karl Haushofer, principalmente em seu livro "Geopolítica das Panregiões", de 1931.

Nele, defendia que havia quatro grandes potências mundiais destinadas a responsabilidades internas (satisfazer a necessidade de seus habitantes) e externas (dominar e organizar o mundo).

Essas potências se organizariam em "panregiões": a americana, sob responsabilidade dos EUA; a Euro-Asiática, liderada pela Rússia; a Leste-Asiática, comandada pelo Japão; e a Euro-Africana, regida pela Alemanha.

A ideia de Haushofer demonstra limitações, como na aposta no Japão que, desmilitarizado após a Segunda Guerra Mundial, não é mais uma potência militar, sendo potência apenas econômica.

As potências militares e nucleares, especialmente China e Rússia, poderiam dissuadir militarmente os EUA, mas dificilmente o farão, porque a elas interessa a não ingerência nas áreas de influência de potência.

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A área de influência de Moscou encontra-se sob forte pressão e redefinição, especialmente diante do apoio dos Estados Unidos à expansão russa sobre o território ucraniano, assegurando limites estratégicos.

A prioridade russa tende a ser a defesa de seu entorno imediato, e não a projeção de poder contínua no hemisfério ocidental.

A China, por sua vez, desponta como o ator com maior disposição para oferecer apoio político e diplomático mais consistente ao governo venezuelano. Além dos seus interesses econômicos ou energéticos, mas também pelo fato de Pequim enfrentar um processo semelhante de contenção em sua própria área de influência, principalmente em relação à Taiwan.

Assim, apoiar a Venezuela pode integrar uma estratégia mais ampla de afirmação chinesa diante da tentativa dos Estados Unidos de pressionar simultaneamente diferentes regiões do sistema internacional. Entretanto, pelo menos a princípio, isso não deve ocorrer.

A paz da América Latina e Caribe

"A América Latina e o Caribe fizeram da paz uma escolha consciente, duradoura e irreversível", como afirmou o embaixador brasileiro na ONU, Sérgio Danese.

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Apesar disso, a América do Sul corre o risco de ser novamente posicionada como espaço subordinado, com limitada capacidade de construir mecanismos próprios de integração, segurança e mediação política.

A crise venezuelana extrapola o plano regional e passa a expressar uma reconfiguração da ordem internacional, baseada na contenção, na concorrência entre grandes potências e na definição de áreas de influência. As panregiões do mundo contemporâneo são mais complexas, mas a geografia ainda importa.

Ainda se disputam território e recursos naturais. As ações na Venezuela marcam o retorno de perspectivas clássicas da geopolítica, sob um Estado de Natureza hobbesiano, ou seja, de guerra de todos contra todos, em que vale a lei do mais forte.

A publicação deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes).

The Conversation
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Foto: The Conversation

Vitor Stuart Gabriel de Pieri é afiliado ao Centro de Estudos e Relações Internacionais

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Ricardo Luigi é afiliado ao Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI).

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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