Entenda o escândalo bancário que derrubou o presidente do Paraguai

5 nov 2026 - 17h06
Resumo
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou após o colapso do Ueno Bank, que deixou quase 3 milhões de clientes sem acesso aos seus fundos e gerou forte crise política. A intervenção do Banco Central na instituição, provocada por insolvência, desencadeou protestos e um processo de impeachment contra Peña por suposto conflito de interesses, uso indevido de verbas públicas e benefício pessoal. Com a saída do mandatário, o vice-presidente Pedro Alliana assumiu o comando do país.

Temendo impeachment, Santiago Peña renunciou após colapso do Ueno Bank prejudicar quase 3 milhões de clientes. Segundo o Banco Central, instituição não tinha fundos suficientes para honrar compromissos.O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou nesta quinta-feira (04/11), em meio à movimentação no Congresso para removê-lo do cargo e protestos nas ruas em razão do escândalo no Ueno Bank, um dos maiores do país.

O colapso do banco digital, alvo de intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) dois dias antes, deflagrou uma crise financeira e política no país, deixando quase 3 milhões de clientes sem acesso às suas contas.

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"Faço isso tendo em mente a estabilidade do nosso país, a paz social e a necessidade de preservar nossas instituições democráticas", afirmou Peña em um vídeo postado no X. "Quero pedir desculpas ao povo se em algum momento lhes falhei."

Em seu lugar, assume o vice-presidente Pedro Alliana.

Aliado do presidente dos EUA, Donald Trump, Peña assumiu o mandato em agosto de 2023 e deveria governar por cinco anos, até 2028.

A crise abalou a reputação duramente conquistada do Paraguai como um destino estável para investimentos estrangeiros, especialmente os provenientes do Brasil.

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Por que o Ueno Bank entrou na mira do Banco Central do Paraguai?

O BCP interveio no Ueno na terça-feira, após constatar que o índice de solvência do banco — ou seja, sua capacidade de quitar todas as suas dívidas e honrar todos os seus compromissos — havia caído para menos de 50% do mínimo legal exigido.

O órgão argumentou que a intervenção permitirá a liquidação ordenada do Ueno, protegendo as economias dos clientes e evitando impactos sobre os demais bancos. Também assegurou que os problemas estão restritos ao Ueno e "não afetam o sistema financeiro como um todo".

A intervenção do BCP levou à suspensão imediata de todos os serviços do banco e deixou clientes em pânico por não conseguirem acessar suas contas.

No mesmo dia, oito executivos da instituição financeira foram alvos de mandados de prisão.

Horas depois, o diretor do BCP, Carlos Carvallo, anunciou sua renúncia.

Quase metade da população do Paraguai tinha conta no Ueno Bank

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O Ueno Bank foi criado em 2021 e logo tornou-se um dos maiores bancos do país. São cerca de 2,94 milhões de clientes — em uma nação de 6,1 milhões de habitantes —, dentre eles várias instituições do Estado.

Só em dinheiro público o banco acumula mais de 850 milhões de dólares — incluindo cerca de 380 milhões em investimentos do IPS, o fundo estatal de pensões. O valor equivale a quase um terço dos depósitos do Ueno, e cresceu sob o governo Peña.

Qual foi a resposta do governo Peña ao colapso do Ueno Bank?

Um dia depois da intervenção do BCP no Ueno, Peña promulgou uma lei que dá prazo de cinco dias úteis para restituir a maioria dos fundos dos clientes do Ueno.

Cada depositante poderá receber até 40 salários mínimos por mês, um valor que equivale a 121,7 milhões de guaranis (cerca de R$ 108 mil).

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A restituição será feita por um mecanismo semelhante ao do Fundo Garantidor de Créditos no Brasil.

Ao anunciar a liquidação do Ueno um dia antes, o BCP disse que ativaria o fundo paraguaio, que cobre até 75 salários mínimos ou cerca de 228.300.000 guaranis (cerca de R$ 203 mil) "por pessoa física ou jurídica".

Horas depois, a entidade emissora informou que os poupadores receberiam um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis (R$ 8,9 mil) "em breve".

Como a população reagiu ao colapso do Ueno Bank

Logo na terça, clientes relataram que ficaram sem acesso às suas contas no aplicativo do banco. A polícia montou guarda do lado de fora das agências, no que as autoridades descreveram como uma medida preventiva contra possíveis distúrbios.

Na quarta-feira, uma corrida para abrir novas contas em outras instituições derrubou os aplicativos de outros bancos, enquanto rumores provocaram a aglomeração de centenas de pessoas nas agências bancárias do país para sacar recursos.

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As autoridades pediram calma e afirmaram que já haviam iniciado o reembolso aos depositantes, abrindo novas contas em outras instituições para cerca de 280 mil pessoas que tinham contas só no Ueno.

"O sistema bancário é sólido", insistiu Pedro Acosta Bernal, que assumiu o BCP interinamente após a renúncia de Carvallo.

A deputada de oposição Johana Ortega, por sua vez, alertou que a realização de saques em massa pode "fazer cair sistemas financeiros que são solventes".

A resposta do Congresso paraguaio

Ainda na quarta-feira, a oposição a Peña na Câmara dos Deputados começou a se movimentar para dar entrada em um processo de impeachment.

O afastamento do cargo, que ainda precisa ser aprovado pelo Senado, teve apoio unânime dos deputados nesta quinta-feira, inclusive da base governista.

Peña é acusado de conflitos de interesse, uso indevido de fundos de pensão e acobertamentos institucionais ligados à forma como seu governo lidou com o colapso do banco.

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"Nunca antes ninguém na República do Paraguai prejudicou 3 milhões de pessoas em um único dia. O senhor conseguiu", afirmou na tribuna a deputada de oposição Rocío Vallejo, antes de apresentar as acusações contra o presidente.

Quais são os elos do governo Peña com o Ueno Bank?

Peña foi acionista do conglomerado dono da Ueno Bank até março de 2025 e nomeou o ex-presidente do banco, Carlos Carvallo, para comandar o Banco Central paraguaio em 2023, assim que assumiu o governo.

O BCP alega que Carvallo não participou de decisões envolvendo o Ueno.

Como presidente, Peña minimizou diversas vezes as preocupações em torno do banco digital, que já vinha sendo alvo de escrutínio por parte da imprensa e de órgãos reguladores devido ao volume significativo de empréstimos concedidos a entidades ligadas à sua própria empresa controladora.

No pedido de impeachment enviado ao Senado, os deputados paraguaios também denunciam uma suposta "ingerência presidencial indevida" para favorecer o Ueno com investimentos de entidades estatais como o Instituto de Previdência Social (IPS).

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Também acusam o chefe de Estado de "benefício patrimonial indevido e indícios de enriquecimento ilícito", ao relacionar, entre outros fatos, dois empréstimos simultâneos que recebeu do Ueno, e de "afetação da confiança no sistema financeiro nacional e exposição a um risco sistêmico".

ra/md (EFE, Reuters, AP, AFP)

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