Salles descarta trauma por eventual impeachment de ministros do STF, critica ‘centrão valdemarista’ e diz ser contra regulamentar IA

Principais candidatos ao Senado são entrevistados pelo Terra e apresentam propostas e prioridades para um eventual mandato

18 set 2026 - 04h57
Salles comenta crise no STF, critica ‘centrão valdemarista’ e diz ser contra regulamentar IA
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Após ser eleito deputado federal por São Paulo, Ricardo Salles (Novo) quer ocupar uma das cadeiras do Senado por São Paulo. Em entrevista ao Terra, ele defende a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) caso sejam comprovados crimes de responsabilidade, quer reter recursos da capital para fortalecer o combate à corrupção e melhorar a segurança pública. 

  • Essa reportagem faz parte de uma série de entrevistas do Terra com os candidatos ao Senado por São Paulo. Além de Ricardo Salles (Novo), também foram convidados Simone Tebet (PSB)André do Prado (PP), Geraldo Rufino (Podemos), Guilherme Derrite (PP), Marina Silva (Rede), e Soninha Francine (Cidadania)

Com discurso firme e sendo claro nos posicionamentos, Salles comenta sobre seu afastamento da família Bolsonaro e da relação desgastada com outros políticos de destaque da direita --criticando, inclusive, o que chamou de "centrão Valdemarista", em referência ao presidente do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, sigla que o deputado deixou para se filiar ao Novo após desentendimentos.

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O candidato ainda fala sobre redução da maioridade penal, aborto, castração química, meio ambiente, inteligência artificial e equilíbrio fiscal. Sobre sua trajetória política, apontou manter a mesma posição quando questionado sobre a polêmica frase de "passar a boiada", dita em reunião ministerial no governo Bolsonaro.

Confira os principais pontos da entrevista:

Crise no STF

Ricardo Salles propõe idade mínima para ministros do STF: ‘Resolve muitos dos problemas’
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Em meio à crise no Supremo Tribunal Federal, Salles defende que pedidos de impeachment de ministros sigam o rito previsto na legislação, com garantia de ampla defesa, contraditório e devido processo legal. Para ele, caso a investigação conclua pela existência de crime de responsabilidade, a consequência deve ser a prevista em lei. A entrevista ao Terra aconteceu no último dia 14 de setembro, antes do julgamento de Alexandre de Moraes, que terminou sem uma definição sobre uma possível investigação do ministro por elo com Daniel Vorcaro, do Banco Master

“O processo de investigação em si, ele deve seguir os parâmetros que são garantia para todo mundo. Ampla defesa, devido processo legal, estabelecimento do contraditório. Isto feito desta maneira, se ao fim se chegar à conclusão que houve crime de responsabilidade, como qualquer outra coisa no Brasil, a consequência é o que manda a lei. [...] O impeachment da autoridade não é nada traumático, o Brasil já fez impeachment de dois presidentes da República” -- Ricardo Salles

Questionado sobre como votaria caso eleito, afirma ser favorável ao impeachment se houver comprovação de crime de responsabilidade. “Se você tem motivos efetivamente para que haja a imposição da pena, ela tem que ser imposta. Agora, seguindo sempre o devido processo legal", argumenta. "O processo instruído de maneira adequada e com a conclusão correta, leva à consequência que a lei prevê, que é o impeachment. Ninguém está acima da lei.”

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Cadeiras do Supremo

Salles diz que é ‘paulista de verdade’ ao criticar Marina e Simone Tebet e chama André do Prado de 'candidato do centrão'
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O próximo presidente eleito poderá indicar ao menos três ministros por causa da aposentadoria compulsória de 75 anos --o que atinge Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. E há também a cadeira vaga de Luís Roberto Barroso, que se aposentou antecipadamente e que Lula teve sua indicação, de Jorge Messias, rejeitada pelo Senado. Com relação à renovação, o que Salles defende é que os indicados tenham idade mínima de 60 anos.

Segundo ele, a regra resolveria também a discussão sobre a duração dos mandatos, já que a aposentadoria compulsória ocorre aos 75 anos. O candidato também avalia que pessoas com militância político-partidária não sejam indicadas para a Corte.

"Não gosto de indicações de gente com ligação política. Nós deveríamos adotar um critério para sabatinas. O Senado, que é a quem compete fazer a sabatina, deveria adotar como regra, regra ainda que não escrita, como é em vários outros países do mundo, inclusive nos Estados Unidos: que quem tem envolvimento político partidário, quem tem militância político partidária, de qualquer lado... Não importa, deveria ser impedido, não deveria ser aceito como ministro do Supremo. Isso faria com que a gente tivesse juristas, efetivamente, sem nenhum vínculo político partidário" -- Ricardo Salles

Para ele, a presença de vínculos políticos e ideológicos pode afetar a imparcialidade dos ministros, já que a militância e as posições partidárias anteriores podem permanecer mesmo após a nomeação para a Corte. Salles afirma que "quando você tem a imparcialidade afetada, todo o resto é afetado também".

O deputado também vê como importante a presença feminina no Supremo. "Até porque dá a multiplicidade de visão que a sociedade brasileira tem, uma sociedade em que grande parte da população é mulher. Não é possível que a gente não tenha mulheres no Supremo Tribunal Federal.”

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Afastamento da família Bolsonaro

Salles sobre deixar partido de Jair Bolsonaro: ‘Quem manda no PL é o Valdemar, não é o bolsonarismo’
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Ex-ministro de Jair Bolsonaro e integrante do PL até 2024, Salles mantém o apoio ao ex-presidente, mas critica o comando do partido por Valdemar Costa Neto. Segundo ele, a decisão de deixar a legenda ocorreu depois de Valdemar impedir sua candidatura à Prefeitura de São Paulo em 2024 e optar pelo apoio a Ricardo Nunes (MDB).

Salles explica que a saída do PL também provocou um afastamento da família Bolsonaro. Apesar da proximidade que já manteve com o ex-presidente, ele não integra a chapa encabeçada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, que tem André do Prado (PL-SP) e Guilherme Derrite (PP-SP) como nomes apoiados para o Senado em São Paulo. O ex-ministro também foi alvo de críticas públicas de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) neste ano.

Ao comentar o rompimento com o PL, Salles argumenta que a escolha de Valdemar de apoiar Nunes na disputa municipal mais recente deixou claro que o comando da legenda “estava nas mãos do Centrão”. "Não obstante eu tivesse sido um dos deputados mais votados da capital, ex-ministro do Bolsonaro, secretário em São Paulo, conhecia São Paulo e era do partido... ele preferiu fazer uma aliança com Ricardo Nunes."

Apesar do afastamento político do grupo político vinculado ao PL, Salles mantém a gratidão a Jair Bolsonaro e afirma que não pretende se submeter ao comando de Valdemar para permanecer próximo do ex-presidente.

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“Quem manda no PL não é a direita bolsonarista, quem manda no PL é o centrão valdemarista” -- Ricardo Salles

Questionado sobre Flávio Bolsonaro e as suspeitas envolvendo o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Salles evitou fazer uma avaliação direta sobre a candidatura do parlamentar e comentou o caso envolvendo o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, minimizando as suspeitas em torno do candidato à Presidência. Flávio confirmou ter procurado Vorcaro para pedir recursos para a produção e, segundo as investigações, o ex-banqueiro teria repassado ao menos R$ 61 milhões ao projeto.

Salles classificou o episódio como uma “vorcarização da política brasileira” e afirmou que Vorcaro teria buscado estabelecer relações com diferentes grupos políticos. “Você vê que ele [Vorcaro] espalhou a maneira dele de comprar apoio para tudo quanto é lado, independentemente de grupo partidário, de partido, de filosofia.”

Sobre a eleição presidencial, Salles declara voto em Romeu Zema (Novo) no primeiro turno, candidato de seu partido. Apenas em um eventual segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Lula, afirmou que votaria em Flávio. "Não tenho dúvida."

Meio ambiente e 'passar a boiada'

‘Continuo defensor da simplificação’, diz Salles ao relembrar frase sobre ‘passar a boiada’
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A passagem de Salles pelo Ministério do Meio Ambiente foi marcada por controvérsias e polêmicas. Ele deixou o cargo em 2021 após ser acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) de promover o desmonte do sistema de proteção ambiental brasileiro e ser investigado pela Polícia Federal por suspeita de facilitação de exportação ilegal de madeira. Uma das declarações que mais repercutiram durante sua gestão foi a defesa de aproveitar o foco na pandemia de covid-19 para “passar a boiada”, simplificando normas ambientais, em uma reunião ministerial no governo Bolsonaro em abril de 2020, cuja gravação foi tornada pública por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).

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Questionado sobre por que o eleitor paulista deveria confiar nele diante das controvérsias, e se ele se arrepende da fala sobre "passar a boiada", Salles reafirma sua defesa da desburocratização e da simplificação das regras ambientais e de outras áreas para estimular o desenvolvimento econômico. “De fato, a minha posição continua sendo a mesma”, destaca. Segundo ele, a forma de se expressar em uma reunião interna de ministros é diferente de uma conversa pública, quando se fala "com muito mais liberdade e de maneira muito mais coloquial".

“O Brasil é o País da burocracia, é o País que atrapalha o desenvolvimento. Um monte de regras irracionais, contraditórias entre si. Quem quer empreender no Brasil, desde um pequeno comerciante, como uma pessoa que quer montar uma banca de jornal, tem uma via crucis para conseguir licença na prefeitura, até grandes empreendimentos como hidrelétricas, ferrovias, hidrovias. O Brasil é o inferno para o empreendedor" -- Ricardo Salles

Sobre feitos na área ambiental, Salles destaca sua atuação no saneamento e na gestão de resíduos sólidos, citando o Programa Nacional Lixão Zero, criado durante sua gestão à frente do ministério, em abril de 2019. Como senador, como prioridade, pretende defender recursos para consórcios municipais voltados ao saneamento e à gestão de resíduos, além de ampliar a coleta e o reaproveitamento de materiais.

Feminicídio

São Paulo bateu recorde de feminicídios em 2025. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), de janeiro a dezembro foram 270 ocorrências --o equivalente a uma mulher assassinada a cada 32 horas no Estado. O que fazer para mudar isso?

Salles defende uma combinação de prevenção, conscientização e punição. Para ele, além de medidas como tornozeleiras eletrônicas e restrições de aproximação, é necessário investir em campanhas educativas. Além disso, as punições mais rigorosas podem funcionar como forma de prevenção, acredita. "A hora que ele vê que ele vai ser duramente punido, ele vai pensar duas vezes antes de fazer uma coisa assim.”

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Redução da maioridade penal

Salles defende redução da maioridade penal, castração química e que presos sejam 'obrigados' a trabalhar
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Salles é favorável à redução da maioridade penal para 16 anos. Ele argumenta que se jovens podem votar a partir dessa idade também devem responder criminalmente pelos atos cometidos.

Além da redução, defende mudanças no sistema de segurança pública, como o fim das audiências de custódia e a obrigatoriedade de trabalho para presos.

“Nós temos que obrigar [os presos a trabalharem]. Inclusive você tem aquelas imagens que acontecem nos Estados Unidos, você vê o preso na beira da rodovia trabalhando, com o policial a cavalo tomando conta. O Brasil pode fazer isso também". -- Ricardo Salles

Aborto

Salles defende a manutenção da legislação atual sobre o aborto. Questionado sobre uma eventual mudança das regras, afirmou que os casos previstos atualmente são suficientes. "Da forma que está é mais do que o suficiente para cobrir as hipóteses, inclusive em que se permite ou que não permite."

  • Atualmente, a legislação brasileira permite a interrupção da gravidez em três situações: quando há risco de vida para a gestante, quando a gravidez é fruto de violência sexual ou estupro de vulnerável e em casos de anencefalia fetal, conforme decisão do STF. Nessas hipóteses, o atendimento deve ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sem necessidade de autorização judicial ou de boletim de ocorrência. Fora dessas exceções, a interrupção voluntária da gestação é considerada crime pelo Código Penal.

Castração química

Em 2024, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que prevê a castração química a pessoas condenadas por pedofilia. A regra foi incluída a partir de uma emenda proposta pelo deputado Ricardo Salles. Ao Terra, Salles reforça ser favorável à medida para casos de crimes sexuais. Segundo ele, além da prisão e de outras restrições de direitos, a castração química "poderia atuar na prevenção de crimes cometidos de forma reiterada".

“Legislação é importante. Punição, restrição de direito, de liberdade, de ir e vir também é importante, mas há medidas como a castração química que talvez sejam as mais importantes. Então, você ter uma medida que é terminativa, você elimina a capacidade da pessoa de praticar esse crime, é talvez, do ponto de vista de prevenção para a sociedade, a mais eficaz" -- Ricardo Salles

Inteligência artificial

Salles é contrário à criação de uma regulamentação para a inteligência artificial. Ele afirma que medidas específicas podem ser adotadas para combater crimes como pedofilia e crimes cibernéticos, mas defende cautela para "evitar restrições à iniciativa privada e ao desenvolvimento tecnológico".

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“Eu, a princípio, sou uma pessoa contrária a regulamentações, em geral, mas sou favorável à inteligência artificial como método, como incentivo, como ganho de eficiência, ganho de produtividade, ganho de aprendizado nas escolas, nas universidades.”

Dívida pública

A Dívida Bruta do Governo Geral do Brasil já ultrapassa 80% do Produto Interno Bruto (PIB) e é uma das grandes problemáticas do País, conforme apontam especialistas. Para Salles, o Senado deve atuar na revisão de subsídios, incentivos fiscais e outras vantagens concedidas pelo Estado a setores específicos. Ele também defende a redução de despesas consideradas ineficientes e de supersalários.

O candidato afirma que o equilíbrio das contas públicas é necessário para permitir a redução da carga tributária e dos juros. Também defende mudanças nas reformas administrativa e trabalhista e uma nova revisão da Previdência.

Atuação no Senado

Salles resume suas prioridades em três frentes: defender os recursos de São Paulo, combater a corrupção e atuar na segurança pública. “Falar em Ricardo Salles é falar em defender São Paulo, em combater a corrupção e defender os cidadãos de bem."

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Segundo ele, sua principal missão no Senado será atuar em defesa dos interesses do Estado na divisão dos recursos da União. Salles afirma que São Paulo contribui com cerca de um terço da arrecadação federal, mas recebe menos de 10% de volta. “Um senador por São Paulo, e esse é o meu grande objetivo, deve lutar por São Paulo. Pelo dinheiro dos paulistas ficar aqui, investir no nosso saneamento, na nossa segurança, na nossa habitação, no transporte, enfim, na saúde.”

Fonte: Portal Terra
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