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 Foto: Terra

Tebet diz que STF precisa de 'freio urgente', que não 'coloca a mão no fogo' por aliados e defende sustentabilidade no agro

Principais candidatos ao Senado são entrevistados pelo Terra e apresentam propostas e prioridades para um eventual mandato

Imagem: Terra
  • Isabella Lima Isabella Lima
  • Beatriz Araujo Beatriz Araujo
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16 set 2026 - 04h57

Em meio à crise no Supremo Tribunal Federal (STF), às discussões sobre corrupção e às articulações para as eleições de 2026, a candidata ao Senado por São Paulo Simone Tebet (PSB) defende mudanças no Judiciário, afirma que denúncias de crimes de responsabilidade contra ministros da Corte devem ser apuradas pelo Congresso e diz que “ninguém está acima da lei”. A entrevista foi concedida ao Terra no último dia 11 de setembro, antes do julgamento de Alexandre de Moraes, que terminou sem uma definição sobre uma possível investigação do ministro por elo com Daniel Vorcaro, do Banco Master

  • Essa reportagem faz parte de uma série de entrevistas do Terra com os candidatos ao Senado por São Paulo. Além de Simone Tebet (PSB), também foram convidados André do Prado (PP), Geraldo Rufino (Podemos), Guilherme Derrite (PP), Marina Silva (Rede), Ricardo Salles (Novo) e Soninha Francine (Cidadania)

Atenta aos detalhes e incisiva nas respostas, Tebet aproveitou diferentes momentos da conversa para fazer críticas ao que chama de “lado de lá” e ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), além de citar suas prioridades para um eventual mandato e colocar sua posição sobre temas como aborto, castração química e redução da maioridade penal. A candidata do PSB ainda defendeu o equilíbrio entre a proteção ambiental e a produção, regras para o uso da inteligência artificial e medidas para enfrentar o endividamento público.

Confira os principais pontos da entrevista: 

Crise no STF

Em meio à crise sem precedentes que o Supremo Tribunal Federal atravessa, a possibilidade de impeachment de ministros segue em discussão. Essa seria a melhor forma de apaziguar a situação? Para Simone Tebet, é difícil que o assunto seja pautado às vésperas da eleição, quando os parlamentares estão em busca de votos, mas ela ressalta não ver problema caso a questão seja levada ao Congresso.

A candidata entende que “ninguém está acima da lei e abuso de poder é abuso de poder”, seja na esquerda, no centro --no “centrão”, como diferenciou do centro-- ou na direita. “Para mim, corrupção precisa ser combatida porque ela mata o futuro do Brasil”, complementou. 

“É um combo. Nós precisamos de uma reforma do Judiciário, uma reforma política urgente, mas no caso específico do Judiciário. O Supremo Tribunal Federal tem que colocar um freio de arrumação urgente e imediato (...) É a discussão sobre crime comum de ministros. Se houve abuso, o Congresso Nacional tem a competência constitucional pelos crimes de responsabilidade” – Simone Tebet.

Tebet defende que a reforma no Judiciário discuta o fim de penduricários, o modelo de vitaliciedade com limite de idade e a dinâmica em torno de decisões monocráticas. “É o plenário do Supremo Tribunal Federal que pode, pela Constituição Federal, dar a última palavra”, aponta. 

“Ninguém pode dizer que vota a favor ou contra, sob pena até de não ser chamado para fazer parte da comissão. Porque ele [o senador] vai para a comissão para investigar o fato, e dizer se vota a favor ou contra. O que eu posso dizer é que as denúncias são seríssimas”, alega, defendendo que cabe a abertura de um processo do tipo na situação atual da Corte, que enfrenta pressão por investigação contra os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça.  

De Mato Grosso do Sul a São Paulo

Candidatos ao Senado chamam Tebet, que nasceu em Mato Grosso do Sul e construiu sua trajetória política no Estado, de forasteira por disputar o Senado por São Paulo. Ela rebate  as críticas e afirma que o Estado já demonstrou nas urnas que a reconhece: em 2022, quando disputou a Presidência, recebeu mais de 6% dos votos da capital paulista. “São Paulo já me abraçou. O resultado das urnas, pode ser bem sucedido ou não, é quem vai dizer se eu mereço ou não representar o Estado.”

Além disso, ela cita vínculos pessoais com São Paulo: tem filhas no Estado, nasceu na divisa com a região paulista e é casada com um paulista de Birigui. Tebet classificou que o discurso contra sua candidatura “cheira a xenofobia” e afirmou que São Paulo deve ser visto como um Estado formado por diferentes origens. “É a terra de todos”, afirma.

“Não deixa de ser um discurso que cheira a xenofobia. Aquele que acha que é elitista, que acha que São Paulo é só da carinha branca, daquele que nasceu paulista”.  - Simone Tebet

Questionada sobre a possibilidade de voltar a ocupar um ministério caso o presidente Lula seja reeleito, Tebet descartou a hipótese. “Vou ser senadora por oito anos”, afirma.

Críticas que fez no passado a Lula

Apesar de hoje ser aliada do governo Lula e disputar o Senado em uma chapa encabeçada pelo presidente, Tebet já fez críticas duras ao petista quando ele era seu adversário --como com relação ao que chamou de “petrolão”, na Lava Jato. Agora, no mesmo lado, mantém as críticas que fez ao PT e aos casos de corrupção. “Corrupção não tem lado, corrupção não tem ideologia, não é de centro, não é de esquerda, não é de direita, pega todo mundo e precisa ser punido igual.”

Ao explicar sua aproximação com Lula, Tebet comparou o cenário de 2022 ao período de redemocratização do País. “Repetiu-se, em 2022, no meu ver, alguma coisa, claro que em outras proporções, parecida com o que aconteceu no período em que nós lutamos pela redemocratização do País. Sentaram-se à mesa os principais adversários, adversários ferrenhos, para, em nome de abrigar todo mundo em um único partido, o MDB, que era um partido radicalmente de centro, abrigar toda a esquerda que seria dizimada, inclusive com risco até de vida. Abrigaram, juntaram-se e lutaram pela democracia. E depois caminharam separados”, afirma ela.

“Há determinados momentos muito radicais em que a gente deixa as diferenças de lado se aquilo que nos une é infinitamente maior do que aquilo que nos separa” - Simone Tebet.

Mas, agora, considerando suspeitas de envolvimento de pessoas próximas do presidente a escândalos como o do INSS e do banco Master, reconhece que Lula e o PT têm credibilidade para discutir questões de corrupção? Coloca a mão no fogo? “Não é colocar a mão no fogo, eu não coloco a mão no fogo nem pelo meu marido. Só que tem uma diferença, o Jair Bolsonaro mudou o delegado-geral da Polícia Federal do Rio de Janeiro e caiu o Ministro da Justiça porque ele não deixou apurar os escândalos de rachadinha do filho dele, Flávio Bolsonaro. Ele interveio na Polícia Federal. E foram várias as vezes. Os esquemas de corrupção são sempre descobertos no governo presidido pelo Lula”. [...]. Em nenhum momento eu vi o presidente Lula interferindo na Polícia Federal para proteger o Lulinha. Pelo contrário, se tiver, vai pagar.”

Cadeiras do Supremo

O próximo presidente eleito poderá indicar ao menos três ministros por causa da aposentadoria compulsória de 75 anos –-o que atinge Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. E há também a cadeira vaga de Luís Roberto Barroso, que se aposentou antecipadamente e que Lula teve sua indicação, de Jorge Messias, rejeitada pelo Senado. Quem deve ocupar essas cadeiras?

Tebet espera que, de preferência, uma das cadeiras seja ocupada por uma mulher negra. “Depende de quem ganhar a eleição para presidente da República. Se for presidente Lula, sem dúvida nenhuma [uma mulher será indicada]. Nós nunca tivemos duas mulheres ao mesmo tempo. Aliás, só tivemos duas mulheres”, afirmou a candidata

  • Lula já indicou onze ministros ao Supremo Tribunal Federal, considerando seus três mandatos como presidente da República. Nessa lista, apenas uma mulher foi indicada: Cármen Lúcia, em 2006, que segue na Corte. Na última indicação, feita neste ano, ele também não optou por uma mulher.

Tebet, assim como Lula costuma dizerem seus discursos, fala sobre o “lado de lá” e diz que se a presidência foi ocupada por oponentes do petista não devem ser feitas indicações de mulheres --por mais que a oposição também defenda que haja mulheres na Corte. Ela cita a fala de Jair Bolsonaro, de que ter tido uma filha foi uma “fraquejada”, e de Flávio Bolsonaro, que teve suas filhas para poder ser cuidado na velhice. “DNA Machista.”

“O maior escândalo de corrupção da história do Brasil chama-se Banco Master. [...] Quando a gente vê de todos os investigados, denunciados, busca e apreensão é sempre homem, homem, homem, homem. De político é líder partidário homem, presidente partido homem, ministro supremo, todo mundo é homem. Ainda que apareça uma mulher, vai ser uma no universo de 100. O que reforça a importância de termos pelo menos 30% de mulheres na vida pública brasileira.” – Simone Tebet

Castração química

Tebet afirma ser favorável à discussão sobre a castração química para homens que voluntariamente queiram se submeter ao tratamento. Segundo ela, a medida pode ser considerada em casos de pessoas que reconheçam ter uma patologia e busquem tratamento. “Eu estou aberta a discutir esse assunto, esse assunto não é um tabu para mim, para mim o lugar de estuprador é mesmo preso, condenado.”

A candidata classifica o estupro como uma das maiores violações contra a mulher e destaca os impactos psicológicos provocados nas vítimas. Para ela, a castração química poderia contribuir para a ressocialização do condenado, caso seja comprovada sua eficácia e haja acompanhamento médico. 

Aborto

Em relação ao aborto, Tebet defende a manutenção da legislação atual e acredita que o tema não seja discutido tão cedo no Congresso, diante do perfil conservador do Legislativo.

“Nós temos um país absolutamente religioso e nós não temos como separar a nossa essência daquilo que nós somos. O Estado é laico, nós não podemos colocar a religião dentro, mas a gente não consegue separar o ser Simone do ser católico ou ser evangélico que eu possa ser – no caso, eu sou católica. Hoje nós temos uma maioria de direita e conservadora, tanto no Senado quanto na Câmara” - Simone Tebet

Simone entende que “criança não nasceu para ser mãe” e defende a garantia do procedimento nos casos já previstos em lei --no caso, o direito ao aborto em casos de estupro. Ao ser questionada sobre como votaria no Senado, caso eleita, Tebet destaca que defenderia a manutenção das regras atuais. “Nesse momento, [caso eleita eu votaria] para deixar do jeito como está, só de evitar retrocesso também está bom demais.”

  • Atualmente, a legislação brasileira permite a interrupção da gravidez em três situações: quando há risco de vida para a gestante, quando a gravidez é fruto de violência sexual ou estupro de vulnerável e em casos de anencefalia fetal, conforme decisão do STF. Nessas hipóteses, o atendimento deve ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sem necessidade de autorização judicial ou de boletim de ocorrência. Fora dessas exceções, a interrupção voluntária da gestação é considerada crime pelo Código Penal.

Feminicídio

São Paulo bateu recorde de feminicídios em 2025. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), de janeiro a dezembro foram 270 ocorrências --o equivalente a uma mulher assassinada a cada 32 horas no Estado. O que fazer para mudar isso?

O caminho, para Tebet, é “acabar com o discurso de ódio da extrema-direita” e fazer com que os homens dialoguem entre homens contra a violência. Com relação a propostas específicas, ela defende que recursos sejam utilizados para manter as delegacias das mulheres 24 horas por dia abertas, que policiais mulheres atuem nessa frente, e que suspeitos já saiam de ocorrências com tornozeleira eletrônica, de forma preventiva, e com ‘bip’ para não chegar perto da vítima. 

Redução da maioridade penal

O Congresso tem discutido sobre a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, e o assunto também se faz presente nas campanhas eleitorais deste ano. Tebet diz ser a favor da redução para casos de “crimes gravíssimos”, como o de estupro, estupro coletivo e latrocínio: “Um jovem de 16 anos sabe o que é certo  e o que é errado.”

“Os crimes mais brandos, não, porque ali no presídio é a oficina do diabo, né? Você já tem uma medida sócio-educativa aos 16 anos. Ele furtou para comer, ele furtou até estado de defesa, estado de necessidade. Se eu colocar junto de bandido, ele vai sair pior. Então, eu coloco no sistema educacional para se ressocializar. Mas a redução da maioridade penal não pode vir acompanhada sozinha. Eu tenho que colocar isso dentro de um pacote do sistema judiciário, do sistema penal brasileiro.” -- Simone Tebet.

Sobre pautar a questão, ela afirma que “todos temas são livres, desde que não sejam antidemocráticos” e entende que esse tema, sim, precisa ser trabalhado.

Questão ambiental

Tebet se afirma como alguém do agronegócio e entende como necessário mirar o desenvolvimento sustentável, o “agro sustentável”. 

“Não sou empregada, sou empregadora. Eu não sou do lado ambientalista, eu sou do lado que produz. E eu posso atestar para vocês que se o produtor quiser continuar colocando comida na mesa do povo brasileiro, estou falando da agricultura familiar ao grande agro, continuar exportando, continuar tendo dinheiro, ele precisa cuidar dos mananciais, dos assoreamentos, das florestas, dos biomas… senão ele não tem chuva, ele não tem chuva na hora que precisa, ele tem excessos de seca e consequentemente de queimadas e destrói a sua produção”, afirma.

Em paralelo, a candidata diz que a guerra não é entre ambientalistas e produtores --mas, sim, o agro e o meio ambiente contra grileiros, mineradores de terras e de invasões de áreas consideradas da União que protegem biomas brasileiros, especialmente da Amazônia Legal. 

"Não interessa se é por amor ou por dinheiro. Todos estão entendendo que a pauta da sustentabilidade veio para ficar” – Simone Tebet

Inteligência artificial

Tebet é a favor de um marco legal da inteligência artificial no Brasil. “Eu quero essa tecnologia, eu não acho que a tecnologia seja uma coisa ruim. Ela é boa desde que a gente garanta limites e coloque a serviço do homem”, afirma. Sobre ser uma pauta prioritária ou não, ela acredita que isso “vai acontecer”.

“Não tem como não acontecer. O mercado vai cobrar. Ele precisa de segurança jurídica. Então, todo mundo vai pedir. De um lado ou de outro. Eu acho que não tem como fugir dessa pauta.”

Dívida pública

A Dívida Bruta do Governo Geral do Brasil já ultrapassa 80% do Produto Interno Bruto (PIB) e é uma das grandes problemáticas do país, conforme apontam especialistas. Tebet afirma que pretende contribuir para o equilíbrio fiscal por meio do corte de desperdícios, privilégios e corrupção, além de medidas para aumentar a arrecadação. Segundo ela, seria possível gerar superávit sem reduzir a proteção das políticas públicas.

A candidata citou como medidas o combate à sonegação e a revisão de gastos tributários, além da redução de despesas, como supersalários e emendas parlamentares. “Eu consigo fazer superávit e resolver o problema da dívida pública sem tirar nenhuma proteção de políticas públicas no Brasil.”

Segundo Tebet, a combinação dessas medidas poderia gerar quase R$ 300 bilhões em três anos. “Se a gente fizer superávit, a dívida, portanto, pública cai, os juros caem, isso significa que o dólar desvaloriza, a moeda nossa valoriza, eu tenho menos inflação, comida mais barata na mesa do povo brasileiro”, disse.

Atuação do governo

Como candidata ao Senado por São Paulo, Tebet aponta três prioridades: o combate ao crime organizado, especialmente à violência contra a mulher; a regionalização da saúde pública, para evitar que pacientes precisem percorrer longas distâncias em busca de atendimento de alta complexidade; e o combate à corrupção. “Eu não estou aqui para falar o que eu quero, mas aquilo que eu preciso fazer em nome daquele que me eleger.”

Questionada se ainda deseja presidir o Senado, Tebet afirma que seu objetivo é, neste momento, exercer o mandato de senadora. “Eu não preciso ser presidente do Senado para fazer o que eu sei que eu preciso fazer por São Paulo e pelo Brasil.”

Fonte: Portal Terra
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