Geraldo Rufino (Podemos), candidato ao Senado por São Paulo, defende que seja pautado o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), considera sua falta de experiência na política como um diferencial positivo e quer a redução da maioridade penal atrelada ao que chamou de "redução da maioridade profissional". Em entrevista ao Terra, o empresário também falou sobre suas prioridades em um eventual mandato, entre elas a pauta da ampliação das oportunidades de trabalho e falicitações para o empregador.
- Essa reportagem faz parte de uma série de entrevistas do Terra com os candidatos ao Senado por São Paulo. Além de Geraldo Rufino (Podemos), também foram convidados André do Prado (PP),Guilherme Derrite (PP), Marina Silva (Rede), Ricardo Salles (Novo), Simone Tebet (PSB) e Soninha Francine (Cidadania)
Com um discurso de "ser a voz do povo" e sem se posicionar com relação a onde está no espectro político, Rufino deu suas opiniões sobre temas em debate nessa corrida eleitoral.
Confira os principais pontos da entrevista:
Crise no STF
Para Geraldo Rufino, pautar o impeachment de ministros no Supremo Tribunal Federal --que atravessa uma crise sem precedentes-- é algo “que já deveria ter acontecido, até por respeito aos senadores” e vê o movimento como uma forma de retomar o equilíbrio. “O Senado tem essa responsabilidade de criar esse equilíbrio e isso não está acontecendo”, afirma. Se eleito senador, em uma eventual situação do tipo, ele diz que votaria a favor. A declaração foi concedida ao Terra no último dia 14 de setembro, antes do julgamento de Alexandre de Moraes, que terminou sem uma definição sobre uma possível investigação do ministro por elo com Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Em paralelo, o próximo presidente eleito poderá indicar ao menos três ministros por conta da aposentadoria compulsória de 75 anos – o que atinge Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. E há também a cadeira vaga de Luís Roberto Barroso, que se aposentou antecipadamente e que Lula teve sua indicação, de Jorge Messias, rejeitada pelo Senado. Quem deve ocupar essas cadeiras?
Para Rufino, com relação ao fato de que a única mulher no Supremo deixará a Corte, é justo que haja mais mulheres ocupando esses espaços. Para além disso, o que ele defende é que todos os indicados passem a ser necessariamente juízes de carreira como forma de “evitar que a política entre no STF”.
“Eu acho que o STF tinha que ser apolítico, ele não tinha que ser político, ele tinha que ser juiz [de carreira]. Juiz tem que ser imparcial, e quando tem indicação política, acaba a imparcialidade. É por isso que nós estamos assistindo o cenário que está aí hoje” – Geraldo Rufino
Possível primeiro mandato
Rufino não tem experiência política em um cargo eletivo. Empresário, ele se lançou como político na eleição de 2018, como deputado federal por São Paulo, e acabou como suplente. Por que o eleitor paulista deve o escolher para o Senado em meio a uma eleição em que essas cadeiras estão entre as mais disputadas?
Para o candidato, isso é um ponto positivo: “A única coisa que eu não quero é experiência política. É a experiência política é que está fazendo as pessoas trocarem de cadeira, e mais do mesmo [...] Nós precisamos aproximar o Senado do povo. O povo não conhece o Senado e o Senado não conhece o povo, porque eles estão vivendo da experiência política”, explica.
Na política, Rufino foi um dos nomes cotados para ser vice-candidato de Romeu Zema (Novo) na busca pela Presidência da República nesta eleição --e, no fim, o escolhido foi o senador Eduardo Girão. Ele diz que não se arrepende da forma como as coisas se desenrolaram e reafirma seu respeito a Zema.
“Com o Zema, como vice, você não tem muita opção, você fica nos bastidores. E no Senado você tem oportunidade de realmente representar as pessoas e tem oportunidade de fazer mudanças que melhoram a vida das pessoas. [...] Como eu estou indo para servir, eu acredito que eu consiga servir muito melhor no Senado do que em qualquer outra cadeira" --Geraldo Rufino
Direita ou esquerda?
Rufino não respondeu claramente sobre sua posição política --se é mais alinhado à direita, ao centro ou à esquerda. Segundo ele, ele está indo contra a polarização e afirma ser contra a criação de muros que estabeleçam “lado de cá” e “lado de lá”. “Eu estou indo lá para derrubar o muro.”
“Estou alinhado com o povo. Sabe aquela coisa que o pessoal fala, que você tem Deus no coração? Eu não acredito que esse poder que nós temos de ser um filho de Deus deva ser usado nunca para separar ninguém. Nós precisamos de todo mundo. Então eu estou indo lá para poder servir o povo, para servir o brasileiro, e não lado A ou lado B”, complementa.
Feminicídio
São Paulo bateu recorde de feminicídios em 2025. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), de janeiro a dezembro foram 270 ocorrências --o equivalente a uma mulher assassinada a cada 32 horas no Estado. O que fazer para mudar isso? O caminho, para Rufino, é primeiramente fazer com que as leis “cheguem na ponta” --como com relação ao funcionamento de delegacias com atendimento 24 horas voltados ao acolhimento de mulheres.
“O Senado tem condição de trazer recursos para que o Estado consiga fazer isso funcionar. E fiscalizar, porque não adianta só mandar o recurso. Precisa fiscalizar para que isso aconteça e a lei já existe. Se nós fossemos fazer uma lei nova, até que essa lei acontecer, muitas pessoas seriam agredidas e perderiam a vida. Então, nós não podemos nos dar o luxo de fazer leis novas. Precisa fazer funcionar a que está aí” - Geraldo Rufino
Para ele, o que falta é potencializar as garantias de oportunidade de trabalho e renda a mulheres vítimas de violência, pensando em liberdade financeira.
Maioridade penal e trabalho
O Congresso tem discutido sobre a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, e o assunto também se faz presente nas campanhas eleitorais deste ano. Rufino se declara a favor da redução, mas muda o foco da questão para a necessidade daquilo que chama de uma “redução da maioridade profissional”.
“Eu comecei a trabalhar com 13. A maioria da minha família começou com 14 e teve carteira registrada com 14. E com 15 a gente já tinha independência financeira. Como hoje a lei se alterou e isso só pode como menor aprendiz, e como esse sistema não tem oportunidade para todos, as crianças ficam vulneráveis de 14 a 15 anos quando poderiam ajudar a família. Eles [crianças e adolescentes] são brilhantes, sabem lidar com tecnologia, eles podiam trabalhar home office... A única exigência é estar estudando. Eu acho que esse sistema de menor aprendiz tinha que ser estendido, mas ele tinha que ter a liberdade do empregador contratar o jovem diretamente”, explica.
Nisso, ele complementa que chegando aos 16 anos, abaixando a maioridade penal, a pessoa poderia começar a responder por um crime. “Nós vamos diminuir a violência com certeza, porque ele [o jovem de 14 anos que começa a trabalhar] já achou um caminho muito antes.”
"A melhor maneira de você firmar a maioridade penal é se, antes, você der a oportunidade para o jovem, para ele nem ter essa opção [do crime] de escolha" – Geraldo Rufino
A Constituição Federal do Brasil proíbe que qualquer pessoa com menos de 16 anos trabalhe, salvo a condição de aprendiz a partir dos 14 anos. Além disso, em paralelo, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) reforça a proteção ao direito à aprendizagem e à proibição da exploração do trabalho infantil. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) também reforça as questões em seu texto.
Questionado sobre as legislações brasileiras em torno da questão, Rufino argumenta que “nessa hora, o Senado precisa se aproximar do povo” e defende que o empregador tenha liberdade para poder empregar pessoas menores de idade.
“Você acha que essa criança com 14, 15 anos, a mãe é diarista, ele tá na favela, você acha que ele vai fazer o quê? Ele quer viver, ele quer comprar um calçado, ele precisa ter oportunidade de produzir legalmente antes de ser recrutado pelo crime. O crime recruta essas crianças de 14, 15 anos nas comunidades porque nós, sociedade, não damos oportunidade dele produzir. Está invertida a ordem. Então, não adianta ficar com teoria. Vai lá e ouça as pessoas na comunidade. Você vai ver que é a vontade deles na prática.” Na mesma linha, para ele, falar em Segurança Pública é falar em prevenção.
Aborto
Em relação ao aborto, Rufino defende a manutenção da legislação atual e alega que “ninguém deve ter o direito de tirar a vida de quem teve um filho de uma forma convencional”, se mantendo contrário a eventuais flexibilizações com relação à descriminalização do ato.
“Eu seria a favor da manutenção da legislação atual. Preserve a vida. Agora, não dá para obrigar uma pessoa que foi estuprada a ter o filho. Essa liberdade, ela precisa ter, mas para isso já tem a lei, né?”, argumenta.
- Atualmente, a legislação brasileira permite a interrupção da gravidez em três situações: quando há risco de vida para a gestante, quando a gravidez é fruto de violência sexual ou estupro de vulnerável e em casos de anencefalia fetal, conforme decisão do STF. Nessas hipóteses, o atendimento deve ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sem necessidade de autorização judicial ou de boletim de ocorrência. Fora dessas exceções, a interrupção voluntária da gestação é considerada crime pelo Código Penal.
Castração química
Rufino considera a discussão em torno da castração química para homens que cometem estupros como algo positivo. “Eu acho que essa é uma boa opção, porque isso para mim é uma doença. O cara que faz um negócio desse, além de ser violento e um criminoso, também é doente. Então você corta o mal pela raiz.”
Para ele, no geral, é preciso endurecer as leis com relação à punição de agressores.
Questão ambiental
“Eu comecei a trabalhar no lixão. Quando se fala em meio ambiente, em vez de ficar só olhando se plantou, se derrubou árvore, se pôs fogo, se nós olharmos a área de reciclagem e falarmos de meio ambiente, a sustentabilidade depende da reciclagem”, afirma Rufino com relação à pauta ambiental.
Se eleito, o candidato diz que irá buscar pela formalização do trabalho de profissionais que atuam com reciclagem e defende que essa questão refletirá diretamente no impacto ambiental do estado de São Paulo.
Questionado sobre outros pontos que São Paulo enfrenta, como crise hídrica, queimadas e enchentes, Rufino diz que, na realidade, o que é preciso é “fazer valer a lei”.
“Existe lei para o meio ambiente, mas as pessoas não têm fiscalização. Por isso que eu falo, o que você vai fazer nos primeiros 100 dias? Gente, tem tanta lei boa que não está sendo praticada, porque todo mundo alega algum motivo, ou não fiscaliza, ou finge de morto, e as coisas continuam acontecendo. As leis, se elas forem aplicadas, nós vamos saber até onde precisa-se fazer novas leis ou não”, coloca, sem se aprofundar na questão.
Inteligência artificial
Rufino é a favor de que haja uma regulamentação específica para a Inteligência Artificial. “A inteligência artificial é uma ferramenta muito útil. Mas se não tiver regulamentação, como é que estão usando isso? Já estão extrapolando. Já tem gente que pega o seu rosto e monta situações, que é um absurdo. É impressionante a maldade que vem junto com a tecnologia”, afirma.
Além disso, ele entende que o assunto deve ser tratado com prioridade no Senado para conter abusos. “A tecnologia caminha a uma velocidade da luz. Se nós deixarmos isso em segundo plano, ela vai nos atropelar.”
Dívida pública
A Dívida Bruta do Governo Geral do Brasil já ultrapassa 80% do Produto Interno Bruto (PIB) e é uma das grandes problemáticas do país, conforme apontam especialistas. Questionado sobre como pretende contribuir para o equilíbrio fiscal e como sua atuação pode dar retorno para o estado de São Paulo, sem apresentar dados, Rufino aponta como justificativa o fato de que “empresas estão deixando o país em centenas” e que isso está afetando os empregos e a economia como um todo.
“Cada empresa que vai é milhares de empregos diretos e milhares de empregos indiretos que saem. Então, se você quer melhorar a economia, não é só arrecadando mais, aumentando o imposto. Ao contrário, é produzindo mais. Para produzir mais, nós precisamos primeiro simplificar a geração de emprego, que é facilitar a vida do empregador, que é simplificar o cara que quer investir”, afirma.
O Brasil registra sua menor taxa de desemprego histórica --com o último semestre encerrado em 5,4%, de acordo com dados da PNAD Contínua divulgados pelo IBGE, menor resultado para o período desde 2012. Apesar do dado, Rufino diz que isso é “nada perto do potencial que o Brasil tem” e diz, sem provas, que “são números enganosos”.
Como especialistas já apontaram ao Terra, o problema fiscal no Brasil é principalmente voltado à crise das contas públicas do governo federal --quando se gasta mais do que arrecada, a grosso modo.
Atuação no governo
Como candidato ao Senado por São Paulo, Rufino diz que suas principais pautas são emprego e renda. “Oportunidade é só o que o nosso povo precisa. Se você conseguir isso, nós vamos melhorar a educação, nós vamos melhorar a saúde, nós vamos melhorar a segurança. São Paulo é um dos lugares que mais produz, precisa deixar a roda girar. Uma das prioridades é fazer parte do recurso que vai pra federação voltar pra cidade e deixar esse dinheiro virar trabalho”, afirma.
“Para poder ter trabalho e renda, nós precisamos facilitar a vida de quem emprega e não cada dia mais pôr a corda no pescoço dele achando que ‘ah, o empregador é mala’. O empregador ele é tratado como oportunista, ele é tratado até como malandro, quando na realidade é isso que faz a grandeza de um país, é isso que faz o país crescer”, complementa.