Os candidatos a presidente em 2026 colocaram em seus planos de governo para educação temas como o fim de vestibulares e até a substituição das cotas por 'bolsas de mérito'. O Terra traz, neste texto, um resumo do que propõem cada um dos 13 postulantes à Presidência da República nas eleições deste ano.
Momento da Decisão vai colocar frente a frente os principais candidatos à Presidência no dia 14 de setembro, às 22h, em debate promovido pelo Terra e outros 10 veículos
Entre as propostas em comum, estão estratégias para aprendizagem e alfabetização, escolas em tempo integral como prioridade e foco em educação profissional e tecnológica. Especialistas ouvidos pelo Terra avaliam que, em geral, os planos de governo dos candidatos trazem os desafios da aprendizagem no Brasil com "muita força", no entanto as propostas para melhorar a aprendizagem ainda são frágeis.
Este texto faz parte da série especial do Terra que irá destrinchar os programas de governo dos candidatos a presidente sobre áreas específicas: a próxima matéria, na sexta-feira, 4, será sobre cultura.
A seguir, veja o que diz cada candidato (em ordem alfabética pelo nome de urna) sobre suas propostas para a educação no Brasil.
Clariana Barão (DC)
A candidata afirma que vai promover qualidade pedagógica na educação infantil, apoio ao desenvolvimento e às famílias e transição estruturada para alfabetização. Também propõe alfabetização na idade adequada, recomposição de aprendizagem e avaliação frequente com intervenção pedagógica.
Entre as propostas de Clariana, ainda estão a valorização e o apoio pedagógico ao professor, trazer a escola para o século 21, com tecnologia e inteligência artificial com uso responsável, pensamento crítico, ciência e resolução de problemas e educação financeira, cidadania e competências digitais.
Outros planos da candidata envolvem a expansão de formação técnica conectada às vocações regionais, orientação de carreira e aprendizagem profissional, além de parcerias com setor produtivo e ensino superior.
A campanha não disponibilizou um porta-voz para discutir as propostas.
Edmilson Costa (PCB)
O postulante destaca que vai implantar o ensino 100% público e gratuito, das creches à pós-graduação, com a estatização do sistema privado de ensino. Os institutos federais e as escolas técnicas também serão ampliados para o interior do Brasil, haverá um amplo programa de valorização dos profissionais da educação e cada estudante terá acesso a um computador em todos os níveis.
Edmilson ainda propõe o Piso Salarial Profissional Nacional como vencimento básico do primeiro nível da carreira de professores da educação básica, o fim das escolas cívico-militares, além de acabar com o vestibular nas universidades federais e ampliar as cotas (54% para população negra, 70% ou 80% para alunos das escolas públicas e universalização para a população trans).
Outras propostas são expansão dos programas de bolsas de mestrado e doutorado e de apoio à pesquisa para o atendimento prioritário das demandas da classe trabalhadora, aumento da dotação orçamentária para a promoção do desenvolvimento científico e tecnológico realizado a partir de universidades, instituições públicas e empresas estatais, assim como investimentos no Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec) e uma política de reindustrialização e criação de big techs públicas e nacionais.
A campanha não disponibilizou um porta-voz para discutir as propostas.
Escritor Augusto Cury (Avante)
Em seu programa de governo, Cury planeja ações para proteger a saúde emocional dos estudantes e educadores, um projeto para acolher pessoas neurodivergentes, além de transformar a sala de um aula em um laboratório de ideias, na qual o professor deixa de ocupar o papel de transmissor de informações para ser um formador de mentes ativas, enquanto os alunos deixam de ser espectadores e se tornam protagonistas.
Cury também aposta em tornar a escola de tempo integral em um clube de desenvolvimento humano, com espaços de oratória e debates e práticas de elogio mútuo, por exemplo. Ao lado das disciplinas tradicionais, o currículo vai trazer outros três pilares: Gestão da Emoção, Educação Financeira e Empreendedorismo. Para o ensino médio, além desses itens, ele propõe conteúdos para preparação profissional, como cooperativismo e Inteligência Artificial (IA), e o fortalecimento da integração da escola com o ensino técnico, universidades, empresas, centros de inovação e projetos de empreendedorismo.
Já para as universidades, a proposta é fortalecer a capacidade de pesquisa, ampliando as ações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), tornar os campi em ambientes de inovação, com programas de incentivo à criação de startups, por exemplo, e estimular o registro de patentes.
A campanha não disponibilizou um porta-voz para discutir as propostas.
Flávio Bolsonaro (PL)
O candidato afirma que vai priorizar o método fônico para alfabetização e, para o aluno com dificuldade ao longo do ensino fundamental, criará o Programa Acolher, na qual o estudante com bom desempenho será remunerado para dar reforço aos colegas que precisam, de forma remota ou presencial. Também ressalta que a gestão da escola será baseada em indicadores de resultados e proficiência e o financiamento seguirá o orçamento por resultados, com repasses vinculados a metas de aprendizagem.
Flávio aponta que a educação será "orientada pelo conhecimento e livre de doutrinação político-partidária" e que vai ampliar as escolas cívico-militares. Também vai apoiar a escola em tempo integral, manter as escolas abertas nas férias, levar robótica, computadores, tablets e internet às escolas e incluir no currículo competências para a economia digital. Outras propostas são ampliar a oferta de educação técnica para os alunos do ensino médio e criar a Política Nacional de Formação de Talentos.
No ensino superior, o candidato planeja transferir a governança para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e a CAPES e o CNPq passarão a priorizar o impacto produtivo, a inovação e a transferência de tecnologia. Também pretende aprimorar o financiamento estudantil com o projeto Empréstimo Contingente à Renda, na qual o estudante só começa a pagar quando estiver empregado e ganhando e o valor da parcela será proporcional ao que o estudante recebe.
A campanha não disponibilizou um porta-voz para discutir as propostas.
Hertz Dias (PSTU)
O postulante defende o fim das parcerias público-privadas, das terceirizações e da aquisição de materiais e serviços dessas empresas pelas redes públicas de ensino, além de nenhum verba pública para grandes empresários da educação.
Hertz Dias também propõe a elaboração de novas propostas curriculares por trabalhadores da educação, a não militarização das escolas e a projetos de controle ideológico e a não "plataformização da educação", com uma formação completa, crítica e científica nas escolas públicas.
O candidato ainda aposta na valorização dos profissionais da educação, com "carreira e salários dignos", ampliação de vagas e creches, escolas e universidades públicas, garantia de permanência estudantil, investimento massivo na educação pública e produção de conhecimento voltada às necessidades sociais, e não ao mercado.
A campanha chegou a mencionar um porta-voz para discutir as propostas, mas não retornou mais para agendar a entrevista.
Lula (PT)
O petista afirma que vai continuar o que foi estabelecido no Lula 3, como a educação básica como prioridade, atuando em regime de colaboração federativa para acelerar a superação dos gargalos e insuficiências ainda existentes neste nível de escolaridade, além de investir na expansão do ensino técnico e tecnológico e retomar o fomento ao ensino superior, em especial à rede federal.
Lula fala em cumprir as metas do Plano Nacional de Educação 2026-2036, seguir com ações para chegar à meta de 80% das crianças alfabetizadas na idade certa e fomento à expansão da educação em tempo integral como "absoluta prioridade". Outras propostas são fortalecer políticas de enfrentamento do analfabetismo na população adulta, instituir uma estratégia nacional permanente de recomposição e aceleração das aprendizagens, ampliar o fomento para alcançar as metas na construção de creches e escolas de educação infantil, universalizar a internet nas escolas, dar continuidade e fortalecer o Pé-de-Meia, ampliar o acervo do MEC Livros e incluir novas línguas no MEC Idiomas.
Entre os planos de Lula, também estão manter o Piso Nacional do Magistério e dar continuidade às medidas de apoio à formação docente, de elevação da atratividade das licenciaturas, por meio do Pé-de-Meia Licenciatura, e de fixação de docentes em regiões do país e áreas do conhecimento, por meio do Bolsa Mais Professores. No ensino superior, diz que vai concluir as obras em curso e a implantação da nova unidade do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), no Ceará, e da Universidade Indígena e da Universidade do Esporte.
A campanha não disponibilizou um porta-voz para discutir as propostas.
Pablo Marçal (PRTB)
Ele aposta em implantar educação sobre a vida, trabalho e empreendedorismo. Entre as propostas, estão universalização de creches para famílias vulneráveis, fortalecer ensino de computação e Inteligência Artificial nas escolas, letrar empreendedorismo e educação financeira desde o ensino fundamental e garantir a alfabetização plena até o segundo ano.
No plano de governo, Marçal também defende a valorização dos professores, em salário, segurança e capacitação, bolsa de estudo para engenharia, ciências, matemática e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), um programa de formação para superdotados, além de um projeto que visa estimular o desenvolvimento cognitivo da criança.
O candidato ainda destaca a criação de um programa de bonificação para alunos da rede pública, a criação da Universidade Federal Digital, a Graduação, Virtualização e Empresarização (GVE) e o incentivo à troca de conhecimento e experiências entre empresas e academia.
A campanha não disponibilizou um porta-voz para discutir as propostas.
Renan Santos (Missão)
O candidato diz que vai buscar a adoção universal do sistema fônico de alfabetização e adotar progressão continuada parcial até sua revogação, além de impor um sistema de ranqueamento das escolas mais violentas do País e um código de conduta disciplinar para o estudante com previsões de sanções efetivas.
Também aponta que, em escolas localizadas em regiões com elevada criminalidade ou que atestem graves problemas indisciplinares, vai tentar ampliar a competência da União para ela proceder à adoção do modelo de escolas cívico-militares.
Outra proposta para a área de educação é fazer uma reforma do ensino superior, com realocação de recursos investidos em bacharelados para a área de STEM -- sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática --, substituição do sistema de cotas por um sistema de bolsas de mérito e criação de centro de pesquisa universitários voltados para explorar o potencial de terras raras.
A campanha recebeu por mensagem de texto os questionamentos para discutir as propostas, mas não retornou até a publicação da matéria.
Ronaldo Caiado (PSD)
No plano de governo, o candidato afirma que a aprendizagem será prioridade nacional. Entre as propostas, está apoiar estados e municípios para que todas as crianças leiam, escrevam, compreendam e dominem fundamentos matemáticos até o fim do segundo ano do ensino fundamental. Caiado também aposta em universalizar a pré-escola e ampliar creches e vagas em escolas de tempo integral, priorizando educação infantil, anos finais e ensino médio em territórios vulneráveis.
No ensino médio, planeja coordenar implementação curricular, ampliar carga horária e oferecer "itinerários reais, não apenas formais". Ao Terra, a ex-secretária de Educação do Governo de Goiás, Fátima Gavioli, representando a campanha de Caiado, afirmou que "a proposta é fortalecer os itinerários formativos como estratégia essencial para aprendizagem dos estudantes". "Eles devem ser organizados a partir da Política Nacional do Ensino Médio, como espaço de escuta, considerando os interesses dos jovens, o projeto de vida e as características de cada território", explica. Outra proposta é fazer com que o Enem "reflita, de forma mais coerente, aquilo que o estudante efetivamente aprendeu ao longo do Ensino Médio", mas, ao mesmo tempo, deve "preservar sua função de acesso ao Ensino Superior".
No ensino superior, entre as metas, estão elevar o padrão das licenciaturas, elevar exigências de avaliação, fechar ou reestruturar cursos insuficientes e combater evasão, com uma "política estruturada de permanência estudantil". "Isso envolve fortalecer uma rede de apoio com medidas como moradia estudantil, bolsas de permanência, alimentação, apoio ao transporte, iniciação científica, monitoria, extensão e oportunidades de intercâmbio e formação acadêmica", diz Fátima.
Rui Costa Pimenta (PCO)
O postulante defende mais verbas para a educação, e dinheiro público somente para o ensino público, além de estatização do ensino pago. Ao Terra, o candidato a vice, Antônio Carlos Silva, professor da rede pública, disse que essa é "uma questão fundamental" porque o "Estado deve parar de sustentar o parasitismo e o lucro do ensino privado". "O ensino não pode ser fonte de lucro, é preciso garantir o acesso a toda a população", acrescentou.
O plano de Pimenta também aposta no piso salarial nacional dos professores de, pelo menos, R$ 8,5 mil e jornada de trabalho de, no máximo, 30 horas semanais. Ele planeja ainda escolas e universidades sob o controle da comunidade escolar: eleição dos diretores e de todos os postos de direção nas escolas, e governo tripartite (estudantes, professores e funcionários) nas universidades.
Outras propostas são acabar com a proibição do uso de celulares nas escolas, além do fim dos vestibulares e o livre ingresso nas universidades.
Samara (UP)
Ela propõe educação pública e gratuita para todas as pessoas e em todos os níveis, além de livre acesso à universidade e/ou cursos técnicos profissionalizantes. Samara também defende acabar com o vestibular em qualquer processo seletivo e o fim da privatização do ensino, com suspensão do envio de verbas públicas para o ensino privado e estatização progressiva dos grandes conglomerados educacionais do capital financeiro.
Em seu plano de governo, a candidata diz que vai revogar o novo Ensino Médio e as reformas empresariais e vai restaurar uma matriz curricular humanística, científica e crítica para todas as escolas públicas. Também planeja pelo menos 10% do PIB para a educação pública, recompor os orçamentos das universidades e institutos federais e efetivar programa de erradicação do analfabetismo no País.
Entre as propostas, ainda estão a valorização dos profissionais da educação, ampliação das instituições de pesquisa e integrá-las aos programas de pós-graduação, aumentar o número de bolsas de pesquisa nos cursos de graduação e pós-graduação e investir em ciência e tecnologia.
A campanha não disponibilizou um porta-voz para discutir as propostas.
Veterinário Wilson Grassi (Democrata)
O postulante planeja dar continuidade e endurecimento da política federal de alfabetização na idade certa, com apoio técnico e financeiro vinculado a resultado aferido em avaliação externa, ter aulas de educação física nas escolas com professor com formação específica e material, ampliar a rede federal de educação profissional, com abertura de curso orientada pela demanda produtiva da região, assim como integrar ensino médio, formação técnica e um programa de qualificação profissional financiado pela União e executado com o sistema S e com a rede federal de ensino técnico.
Em entrevista ao Terra, Grassi destacou ainda que propõe a inclusão de quatro matérias nas escolas: o uso de Inteligência Artificial (IA), a cidadania, a educação financeira e o respeito e a guarda responsável de animais. Para o ensino superior, Grassi defende fomento dirigido à pesquisa em sanidade animal, zoonoses e desenvolvimento de imunizantes veterinários, além de financiamento estável e previsível à pesquisa, com regra plurianual. Questionado sobre como vai conseguir blindar esse financiamento contra cortes ou congelamentos orçamentários, ele afirma que "vamos cortar em tantos lugares que vai sobrar dinheiro" e dá como exemplos diminuição de número de ministérios e cortes de cargos.
Entre as propostas, também está enviar ao Congresso a PEC da Pesquisa, que prevê que o pesquisador que cumprir os requisitos deixa de ser bolsista e passa a ser servidor público. "Vai passar no concurso, vai ser um funcionário público pesquisador, vai ter um contrato e vai ter que cumprir durante um grande número de anos. Se nós financiarmos o estudo de um determinado doutor em tecnologia, ele vai ter que devolver para o Brasil nos próximos 10, 15 ou 20 anos o trabalho dele em tecnologia", explica. De acordo com o candidato, muitos pesquisadores se formam no Brasil e vão trabalhar no exterior. "Se ele receber o dinheiro para estudar, ele vai ter que devolver isso em trabalho para o povo brasileiro."
Zema (Novo)
O candidato aposta em ampliar a oferta de vagas em creches e pré-escolas, priorizando parcerias com o setor privado, aprimorar o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), modernizar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ampliar a oferta de ensino integral por meio de financiamento ao Ensino Médio Integral e parcerias com organizações privadas, além de dedicar o MEC apenas à educação básica e formação de professores. Atribuições relacionadas ao ensino superior vão ser transferidas para o Ministério da Ciência e Tecnologia.
Zema ainda planeja aprimorar a formação de professores na graduação, adotar boas práticas de gestão educacional e formação de diretores escolares e avançar na adoção de modelos de valorização docente na qual a progressão na carreira dependa de desenvolvimento profissional, desempenho pedagógico e da atuação em contextos vulneráveis. Outras propostas são ampliar a oferta de cursos técnicos e profissionalizantes, vincular o Pé-de-Meia ao aprendizado do aluno, regulamentar o homeschooling e ampliar as opções de atendimento para estudantes com deficiências e transtorno do espectro autista (TEA).
Para a educação superior, vai adotar critérios técnicos para a escolha de reitores das universidades e institutos federais, premiar as instituições por desempenho acadêmico e empregabilidade dos estudantes e concentrar recursos de pesquisa, ciência e tecnologia nas instituições com histórico comprovado de produção científica relevante, além de reformular critérios de concessão de bolsas, como as da Capes e do CNPq, e ampliar as vagas e o financiamento de bolsas de pesquisa para as áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática.
A campanha não disponibilizou um porta-voz para discutir as propostas.