Checamos a entrevista de Flávio Bolsonaro para a TV Globo; veja o resultado

Candidato à Presidência do PL errou sobre Master, 8 de Janeiro e mudanças climáticas; assessoria do senador foi contatada, mas não respondeu

29 ago 2026 - 07h33
(atualizado às 07h35)
Flávio Bolsonaro em sabatina da Globo
Flávio Bolsonaro em sabatina da Globo
Foto: Reprodução/Globo

O candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, foi entrevistado na noite desta sexta-feira, 28, na TV Globo. O Estadão Verifica, núcleo de checagem de fatos do Estadão, analisou a veracidade das alegações feitas pelo senador ao longo da entrevista.

Foram consideradas apenas afirmações factuais, como números, datas, comparações de grandeza e outras. A depender da apuração, podemos atribuir as etiquetas “falso”, “enganoso”, “exagerado”, “subestimado”, “impreciso”, “falta contexto” e “verdadeiro”.

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A assessoria do senador foi contatada para comentar a checagem e o texto será atualizado se houver resposta.

Veja o resultado abaixo.

Dark Horse

O que disse Flávio: que uma perícia concluiu que não tem um centavo de dinheiro público no filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: falta contexto. Flávio foi questionado sobre a falta de prestação de contas sobre os recursos repassados pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e não sobre a existência de dinheiro público no financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. O candidato omitiu que o laudo contratado pela GoUp Entertainment, produtora responsável pelo filme, não rastreou a origem dos recursos repassados pelo fundo Havengate Development, dos Estados Unidos, para financiar o longa-metragem. A análise é considerada vital pela Polícia Federal para esclarecer se houve desvio no projeto articulado entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro.

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O Havengate recebeu cerca de US$ 10,6 milhões (aproximadamente R$ 61 milhões) de aportes de Vorcaro solicitados pelo senador e candidato à Presidência.

O responsável pela avaliação técnica da empresa disse, ao jornal O Globo, que não teve autorização para auditar o fundo e que tratou apenas sobre os recursos desembolsados pela GoUp. O documento produzido aponta que os recursos são privados e que não foi identificada vinculação com verba pública.

CPMI do Banco Master

O que Flávio disse: que quis a CPMI do Banco Master e assinou requerimento para sua abertura.

O O Estadão Verifica checou e concluiu que: falta contexto. O Estadão mostrou, em maio deste ano, que o senador não assinou três dos cinco requerimentos de criação de comissão parlamentar de inquérito para investigar o Banco Master.

O candidato assinou os requerimentos de CPI Mista de autoria do deputado Carlos Jordy (PL-RJ) e de CPI no Senado, de Carlos Viana (PSD-MG). Mas deixou de apoiar requerimentos de uma CPI de autoria do senador Eduardo Girão (Novo-CE), uma do senador Rogério Carvalho (PT-SE) e uma comissão mista, das deputadas Heloísa Helena (Rede-RJ) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS).

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Patrocínio do Master

O que Flávio disse: que Daniel Vorcaro pagou patrocínio de R$ 160 milhões para o programa de Luciano Huck e fez um investimento de R$ 50 milhões em uma palestra do Valor Econômico, do Grupo Globo, em Nova York.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: não há evidências. Em dezembro de 2025, o site GGN informou que o Will Bank, que integrava o conglomerado do Banco Master, era um dos patrocinadores do Domingão, programa apresentado por Luciano Huck. O site calculou, com base em estimativas do mercado, que o Master pode ter pagado entre R$ 120 milhões e R$ 160 milhões pelo patrocínio se o quadro rodou de 6 a 8 domingos. Trata-se de uma estimativa. Não foi informado o valor exato do patrocínio e nem foi apresentada comprovação do pagamento. Em março de 2026, o site Poder360 noticiou que o Banco Master apresentou o 1º Summit Valor Econômico Brazil-USA em 15 de maio de 2024, em Nova York. Daniel Vorcaro, dono do banco, fez a exposição de abertura do seminário. O Valor Econômico, do Grupo Globo, era o realizador do evento. A notícia não menciona recebimento de R$ 50 milhões. A página do evento lista o Master como apresentador, mas não entre os patrocinadores.

Lula e Vorcaro

O que Flávio disse: que o presidente da República (Lula) recebeu um banqueiro (Vorcaro) em uma reunião secreta, prometendo ajudar com os problemas do banco. Lula teria dito para Vorcaro “esperar um pouco” porque ele trocaria o presidente do Banco Central para que o indicado por ele “resolvesse o Banco Master”.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. Em dezembro de 2024, Lula teve um encontro fora da agenda com Daniel Vorcaro. Conforme o Estadão, o banqueiro reclamou de uma “perseguição” articulada por grandes bancos. Lula teria respondido que cabia ao Banco Central averiguar isso e que o caso deveria ser tratado de maneira “isenta e técnica” pela autarquia. O mesmo foi noticiado por outros veículos de imprensa. Não há registro, nas reportagens sobre o tema, de que o presidente tenha prometido ajudar a solucionar os problemas do Banco Master.

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O Poder360 publicou detalhes da reunião com base em informações de bastidores. A reunião, disse o site, serviu para o banqueiro pedir um conselho ao presidente sobre vender ou não o Master ao BTG. Lula teria reclamado do então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, cujo mandato terminaria dias depois, e aconselhado Vorcaro a seguir com o Master. Ele teria lembrado a Vorcaro, também, que em breve a autarquia teria um novo presidente.

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Na reunião, estava presente Gabriel Galípolo, que em janeiro de 2025 passou a presidir o Banco Central. Ainda conforme o Poder360, Vorcaro entendeu a presença de Galípolo e as críticas a Campos Neto como um incentivo para seguir com o Master.

Segundo a Folha de S.Paulo, os relatórios do Banco Central sobre o caso deixam claro que o órgão só identificou problemas nas transações de carteiras de crédito feitas entre Master e BRB nos primeiros meses de 2025, após a reunião com Lula no Palácio do Planalto.

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De acordo com o Poder360, em 2025, Lula novamente encontrou Vorcaro em Minas Gerais, quando as suspeitas sobre o banco já existiam no mercado. O site afirmou que o presidente incentivou mais uma vez o banqueiro a não vender o Master para o BTG. As informações também são de bastidores.

Após a reunião de 2024 vir à tona, Galípolo disse que Lula foi objetivo ao dizer a Vorcaro que ele seria tratado pelo BC de forma técnica. Lula declarou o mesmo.

8 de Janeiro

O que Flávio disse: que não houve formação de organização criminosa armada nos ataques do 8 de Janeiro. O candidato acrescentou que as pessoas presentes não se conheciam e que nenhuma arma foi encontrada.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é falso. Após a depredação das sedes dos Três Poderes, o Estadão analisou horas de transmissões ao vivo, listas de passageiros de ônibus, postagens em redes sociais e imagens que comprovam que os atos foram premeditados e organizados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

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A afirmação do candidato sobre a ausência de armas já foi feita por Jair Bolsonaro em abril de 2025. O Verifica mostrou que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino relatou que houve apreensão de armas brancas e de armas improvisadas nos atos antidemocráticos. O magistrado destacou que vários dos acusados de tentativa de golpe de Estado são militares, que costumam andar armados.

O candidato também desconsiderou que imagens do circuito de segurança do Palácio do Planalto mostraram envolvidos no ataque roubando armas não letais do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Em operações posteriores ao 8 de Janeiro, a Polícia Federal apreendeu armas de fogo com suspeitos de financiar o movimento golpista.

Anistia a crimes contra o Estado Democrático de Direito

O que Flávio disse: que Lula, FHC e outros “medalhões da política brasileira” teriam votado a favor de um destaque que retirou os crimes contra o Estado Democrático de Direito dos crimes que não são suscetíveis a anistia.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. O Diário da Assembleia Nacional Constituinte de 23 de fevereiro de 1988 mostra que o deputado constituinte Carlos Alberto Caó (PDT-RJ) propôs uma emenda que definia que “a ação de grupos armados, civis e militares, contra a ordem constitucional e o estado democrático” fosse um “crime inafiançável e imprescritível”. Caó apresentou um destaque para retirar da emenda a definição de que essa ação também seria “insuscetível do benefício da anistia”. No Diário, consta apenas a votação nominal na emenda, e não no destaque. Neste caso, Lula e FHC votaram a favor da emenda, que foi votada sem a expressão “insuscetível do benefício da anistia”.

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No mesmo documento, consta que a liderança da bancada do PT foi a favor do destaque que tirava a insuscetibilidade do benefício da anistia. Virgílio Guimarães e Eduardo Jorge afirmaram, em declaração conjunta, que consideravam “equivocada a classificação como ‘crime inafiançável e imprescritível’ a ação de grupos armados contra ‘a ”ordem constitucional’ e o ‘Estado Democrático’”. Para os constituintes petistas, deveria haver uma diferenciação entre a “a ação golpista de grupilhos militares a serviço da burguesia e do imperalismo” da “ação de amplas massas populares, ainda que também se utilizando de armas, contra a opressão e a exploração que sofrem desse mesmo sistema”.

Em resumo, houve manifestação favorável da liderança do PT ao destaque que retirou a impossibilidade de anistia, mas não de FHC, citado por Flávio na entrevista.

Mauro Cid

O que disse Flávio: que foi desconsiderado um depoimento em que Mauro Cid disse que nunca houve discussão sobre golpe dentro do governo.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. Como informado pelo Estadão, em depoimento ao STF, Mauro Cid afirmou que Jair Bolsonaro recebeu, leu e pediu alterações em um esboço de decreto que ficou conhecido como “minuta golpista”.

O Estadão Verifica demonstrou que, em áudio registrado em setembro de 2024, divulgado pela Veja, Cid afirmou: “eu não falei uma vez a palavra golpe”, referindo-se a depoimentos prestados à Polícia Federal. Mas o termo está presente nos relatos do ex-ajudante de ordens à PF.

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Vídeos da delação premiada mostram Cid usando a palavra “golpe” em diferentes momentos do depoimento. O primeiro anexo da delação premiada de Cid foi em agosto de 2023, cerca de um ano antes da gravação do áudio compartilhado nas redes sociais. Na ocasião, Cid mencionou a palavra “golpe” em diferentes momentos. Em outros, embora não fale especificamente a palavra, Cid faz menção a movimentações golpistas.

Durante o julgamento que condenou Jair Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, reiterou a validade da delação premiada, cuja nulidade havia sido solicitada pela defesa do ex-presidente. O ministro afirmou que a própria defesa de Cid pontuou a voluntariedade dele para a colaboração.

Smartmatic

O que disse Flávio: que, tirando a declaração equivocada de que a Smartmatic fez urnas eletrônicas brasileiras, ele nunca questionou o processo eleitoral.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é falso. Há registros de declarações do candidato questionando o sistema eletrônico de votação. Em 2018, quando ainda era deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Flávio publicou em suas redes sociais que “é impossível garantir a lisura das urnas sem o voto impresso”. No mesmo ano, dias antes do primeiro turno das eleições, ele também declarou que “nós temos o direito de desconfiar da urna eletrônica”, em entrevista ao jornal O Globo. Como admitiu Flávio, não é verdadeiro que a Smartmatic tenha participação no desenvolvimento dos equipamentos de votação.

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Impostos sobre empresas

O que Flávio disse: que as empresas brasileiras são as mais “tarifadas” do mundo pelo governo Lula.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é falso. De acordo com levantamento de 2025 da organização Tax Foundation, os países com maiores impostos sobre empresas são Comores, Porto Rico, França e Suriname. O Brasil ficou em 13º lugar no ranking entre 226 países.

Abstenção em 2022

O que disse Flávio: que mais de 32 milhões de pessoas não foram votar em 2022 e que a eleição foi decidida por menos de 2 milhões de votos.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é verdadeiro, mas com uma imprecisão. O presidente Lula teve 2,1 milhões de votos a mais que Jair Bolsonaro na disputa presidencial de 2022. O número de abstenções superou os 32 milhões, correspondendo a 20,9% do eleitorado.

Taxa de juros

O que Flávio disse: que o Brasil tem o maior juro real do mundo, de 14%.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: falta contexto. Dependendo da classificação, o Brasil é apresentado como primeiro ou segundo lugar do ranking entre países. Mas a taxa de juros real é de 9,3%. A taxa citada por Flávio, de 14%, é a de juros nominais.

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Pix

O que disse Flávio: que o Pix foi feito na gestão de Bolsonaro e que não tem taxa porque o ex-presidente exigiu que não tivesse.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: falta contexto. Embora tenha sido lançado em novembro de 2020, durante a gestão de Bolsonaro, o conceito do Pix surgiu em 2016. O sistema de pagamento instantâneo começou a ser desenvolvido pela área técnica do Banco Central em 2018, ainda durante a gestão do ex-presidente Michel Temer.

Como mostrou o Projeto Comprova, quando o Pix começou a funcionar, Jair Bolsonaro foi parabenizado por um simpatizante e demonstrou nem saber o que era, ao confundir o sistema com algo relacionado à aviação civil. “Não tomei conhecimento”, admitiu.

O ex-ministro da Economia Paulo Guedes defendeu, em 2020, a taxação de transações digitais. Em entrevista à Veja, no ano passado, Bolsonaro disse que, em seu governo, havia “uns espíritos de porco que queriam taxar o Pix”, mas que ele não autorizou.

Mudanças climáticas

O que Flávio disse: que existem “épocas cíclicas” em que faz mais calor, mais frio ou chove mais, mas que isso não tem a ver só com a influência do ser humano.

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O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. O candidato desconsiderou que existe um consenso científico de que a ação humana causa mudanças climáticas.

O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), por exemplo, considera que “as atividades humanas, principalmente por meio das emissões de gases de efeito estufa, causaram inequivocamente o aquecimento global”. Já a Agência Aeroespacial dos Estados Unidos (Nasa, na sigla em inglês) reitera que as evidências científicas mostram que as atividades humanas aqueceram a superfície da Terra e as bacias oceânicas.

Vale destacar que, em 2020, a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que os eventos climáticos e meteorológicos extremos aumentaram em frequência, intensidade e gravidade como consequência das mudanças climáticas.

Fonte: Portal Terra
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