Mesmo após a aposentadoria, professores continuam em sala de aula motivados pela paixão por ensinar, pelo vínculo com os estudantes e pela busca constante por aprendizado, inclusive diante de novas tecnologias como a inteligência artificial. Embora enfrentem desgaste físico e desvalorização profissional, além da necessidade de renda extra, esses educadores encontram na formação de novas gerações e no reconhecimento de ex-alunos o propósito e o estímulo para adiar o descanso definitivo.
Para alguns professores e professoras, a aposentadoria ainda parece distante - mesmo depois de décadas em sala de aula. Aos 62, 65 ou até 76 anos, eles continuam trabalhando movidos pelo vínculo com os alunos, pela vontade de ensinar e pela sensação de que ainda têm o que aprender.
Ao Estadão, educadores com anos de experiência em sala de aula revelaram os motivos de seguirem trabalhando após a aposentadoria. Não deixaram de citar a importância de ter uma renda adicional e admitem que a rotina de correção de provas e preparação de aulas cobra o seu preço nesta fase da carreira. Mas, enquanto se sentirem aptos, desejam continuar.
O amor por ensinar, a capacidade de ser uma referência aos estudantes e a possibilidade de continuar evoluindo são os principais motivos que apareceram nas conversas. Na era da Inteligência Artificial, a tecnologia não assusta; pelo contrário, é um desafio que os estimula a aprender sobre o novo e o diferente.
"Educar é formar pessoas, inserir neste mundo de forma respeitosa, saber se relacionar com o outro, trocar olho no olho", diz Denise Rampazzo, de 63 anos.
Doutora em Educação, Denise é professora no curso de Pedagogia do Instituto Singularidades (Vila Clementino, zona sul de São Paulo). Embora hoje esteja na graduação, já teve larga experiência com os mais novos também.
"Eu gostava de trabalhar com 6ºs e 7º anos - crianças entre 10 e 12 anos -, que é um segmento que pouca gente gosta", brinca. "Mas são pré-adolescentes que têm encantamento, vivacidade e curiosidade".
Para ela, estar em uma sala de aula é sentir que está contribuindo de forma efetiva para a formação daquelas pessoas. "Eu estou os ajudando a se constituírem como seres melhores, como pessoas que podem fazer escolhas melhores e construir trajetórias melhores", afirma.
O professor de Física do Curso Anglo Ronaldo Carrilho, de 65 anos, também se apega à relação com os estudantes para continuar trabalhando.
Há mais de 40 anos na escola, ele foi contratado como plantonista, em 1983, e hoje é o gerente pedagógico da unidade, que fica na Consolação (centro). Quando deu a primeira aula, sentiu que gostou de estar ali. "Eu estava ansioso, nervoso, mas depois que acabou eu pensei: 'Nossa, que coisa boa, que legal que foi aquilo'", lembra. "É como se eu tivesse sido inoculado por um vírus".
O conteúdo do que ele ensina não costuma fugir da tríade óptica, termofísica e ondulatória. As aulas, diz, até podem parecer as mesmas, mas a vivência com cada classe é sempre única.
"É como uma banda que faz vários shows. O repertório é o mesmo, mas a interação com o público é sempre diferente", compara. "A aula é assim. O lugar, o ser humano do lado e o desafio de ensinar são outros. É isso que me motiva a continuar".
Já para o professor Carlos Alberto De Simone, de 62 anos, uma das motivações vem dos resultados de projetos que ele construiu na carreira. Diferentemente de Carrilho, o amor à profissão não veio exatamente na primeira aula, mas foi sendo construído ao longo do tempo.
Ex-atleta profissional de handebol, De Simone é professor e coordenador da disciplina de Educação Física do Colégio Bandeirantes (Vila Mariana, zona sul). Quando foi contratado, em 1992, recebeu a missão de desenvolver uma cultura esportiva na escola. Mais de 30 anos depois, ele conta orgulhoso os frutos deste trabalho.
"Nós somos hoje em dia a única escola que tem as equipes masculinas e femininas em handebol, basquete, voleibol, futsal, xadrez e tênis de mesa, do 6º ano do Ensino Fundamental II até a 3ª série do Ensino Médio", diz, emendando: "O prazer em ver se concretizando o que a gente construiu lá atrás me faz continuar trabalhando".
Reconhecimento de alunos e ex-alunos
O reconhecimento que os alunos e ex-alunos têm pelo trabalho que os educadores fazem também é revigorante, dizem os professores. Para De Simone, ver uma criança contente por acertar um movimento no esporte e ele ser lembrado por isso é algo que o anima. "Isso é uma coisa que eu vou sentir falta (quando parar de trabalhar)", confessa.
Já Denise gosta de lembrar de ex-alunas que foram estudar Pedagogia ou seguir outras carreiras por influência de suas aulas. "São coisas muito legais, gente que diz que foi para a área de educação porque eu as tinha ajudado a entender melhor o mundo."
Já Carrilho, que leciona para a turma formada apenas por estudantes que pretendem prestar vestibular para Medicina, diz que tem prestígio entre os médicos.
"Muitos médicos que me atenderam na vida, me operaram, que fizeram exames, foram meus alunos", diz. "Às vezes, eu estou em um laboratório, entra o médico e fala: 'Carrilho, você é do Anglo? Ah, então eu tive aula com você.'"
Desenvolvimento e evolução
Os professores afirmam que trabalhar na educação é uma oportunidade de aprender e evoluir. E que reciclar os conhecimentos é uma forma de combater o julgamento de que estão ultrapassados por conta da idade.
"A gente está concorrendo com a internet, com os jogos eletrônicos. Então, eu quero fazer atividades dinâmicas, atividades que os envolvam. Isso que faz a diferença", afirma Regilaine Moraes, de 56 anos. "Eu não vou ficar parada no tempo".
Ela é professora do Ensino Fundamental I do Colégio Ábaco, em São Bernardo do Campo. Começou jovem, aos 16 anos, como auxiliar de classe. Formou-se em Letras e hoje dá aula para alunos de 9 e 10 anos.
Para trabalhar com essa faixa etária, diz a professora, é necessário ter muito bom humor e criatividade, sobretudo por conta das mudanças geracionais que chegaram com o passar dos anos.
Já o professor Ronaldo Carrilho, do Anglo, sente que a sua aula sempre pode ser aperfeiçoada e melhorada. E que essa busca pela "aula perfeita", ou pela "Santo Graal da aula", também o estimula.
"Eu nunca me senti ultrapassado, velho, inadequado. Eu sempre tive a curiosidade do conhecimento", afirma o professor. "A IA assusta? Sim, mas, ao mesmo tempo, me fascina. E eu quero integrar isso na minha profissão".
A professora Monika Kuszka, de 65 anos, também cita o aprendizado constante como um dos benefícios de continuar em sala de aula. "Os recursos, a tecnologia, tudo isso te traz novos desafios, até de comunicação com esses jovens", diz.
A educadora dá aulas de História no colégio Móbile, em São Paulo. Como exemplo de desafio, ela cita o uso da IA e a sua preocupação em entender como "esse bicho" funciona para poder ajudá-la nas aulas.
"Se eu estivesse aposentada, fazendo tricô, talvez eu não estivesse preocupada com a IA. Mas hoje eu estou e quero aprender", diz. "Enquanto eu estiver bem de saúde, eu quero pesquisar, estudar, me movimentar. E eu acho que isso eu ainda tenho no meu trabalho".
Praia, grupo de leitura e chegada do primeiro neto
Apesar do amor à profissão, aos alunos e da vontade de se desenvolver, parte dos professores entrevistados projeta o descanso após tantos anos de trabalho. Monika, por exemplo, diz que tem o plano de ir para Santos, na Baixada Santista, e aproveitar o tempo livre para fazer cursos e participar de rodas de leitura.
Já para Marcos Montagnoli, professor de Alemão do Colégio Rio Branco, em Campinas, se afastar das aulas pode ser a oportunidade de ter mais tempo com o primeiro neto, previsto para nascer em novembro. Mas sua filha, Beatriz, a mãe do bebê, mora em Paris, na França.
"Minha esposa vai para lá para ajudar, mas eu não vou poder justamente porque é final de semestre", diz o professor.
Marcos é aposentado desde os 65 anos. Quando deu entrada na aposentadoria, sentia-se com disposição para continuar dando as aulas e imaginou que pararia aos 70 anos - o que não aconteceu. Hoje, está com 76 e segue na ativa. "Precisa parar uma hora. A idade está pedindo tréguas", admite.
Ele ensina alemão desde a década de 1990. Passou a dar aulas do idioma depois de morar por cinco anos na Alemanha, onde fez um doutorado em Filosofia e Teologia como parte da sua formação para o sacerdócio. Desde criança, tinha o desejo de ser padre.
Durante a estada na Alemanha, porém, a vontade de seguir a carreira religiosa foi perdendo força. Voltou ao Brasil antes de concluir o doutorado e casou-se com Dora, uma amiga de longa data que conheceu quando fazia faculdade de Teologia, no Rio de Janeiro.
Por ser uma escola alemã, o Colégio Rio Branco virou um local de trabalho onde Marcos se sente à vontade e vê o resultado do seu trabalho. Começou dando aulas pontuais nos anos 90 e foi contratado de forma definitiva em 2005.
Nesses mais de 20 anos, tem ajudado a fomentar o estudo da língua alemã na escola, formado alunos e costurado parcerias com institutos que promovem o intercâmbio de estudantes do colégio para a Alemanha. E também fez muitos amigos.
Ao Estadão, diz que além das aulas e do carinho dos alunos, a parceria com os outros professores é algo que vai sentir falta quando "pendurar as canetas e o giz de cera".
"O que tem me segurado é o trabalho com os alunos que é gratificante e a relação com o grupo de professores, sobretudo de Alemão, que é bastante unido e coeso. Mas também com os outros (professores). A gente até tinha a turma de jogar bola", lembra. "Então, tudo isso prende a gente".
Conselhos
Apesar da paixão pela profissão, os professores evitam romantizá-la. Não deixam de citar a desvalorização salarial que atinge a categoria, as dificuldades de se sentirem reconhecidos e o desgaste mental que a carreira também proporciona.
Regilaine Moraes, professora do Ábaco, tem afeição aos seus alunos e diz se sentir querida pelas suas turmas - já ganhou incontáveis paçoquinhas. Mas ela lembra também que há dias que não são fáceis.
"Não é sempre que o professor vai entrar na sala de aula e todos estarão enfileirados, sentadinhos, e todos te obedecerão e aprenderão da mesma forma", diz. "Por isso eu pergunto a quem está começando na carreira: 'Você tem certeza?' Porque você precisa gostar muito e vai encontrar dificuldades".
Ronaldo Carrilho. Ele destaca que, para um professor enfrentar os percalços da profissão, precisa gostar do que faz e, principalmente, com quem faz.
"Médico que não gosta de paciente está em profissão errada. Professor que não gosta de aluno, de jovem, está em profissão errada", diz Carrilho. De Simone, do Bandeirantes, acrescenta: "É uma profissão em que você tem que se envolver, você tem que se entregar 100%".
Denise Rampazzo, do Singularidades, destaca que, em um mundo onde as tecnologias moldam as formas de trabalho e relações pessoais, o papel do professor é ainda mais importante.
"Há, sim, uma desvalorização, mas educar é persistir. Cabe a nós fazer com que as pessoas entendam qual é o nosso papel. Ser professor, hoje, é cada vez mais essencial", diz.