Alinhada às diretrizes da BNCC, a formação socioemocional de professores ganha força no Brasil para apoiar a formação integral dos alunos. Diante de salas de aula desafiadoras e pressões da carreira, redes públicas e universidades criam cursos focados em empatia, autocuidado e gestão de conflitos. A meta não é transformar o docente em psicólogo, mas oferecer suporte pedagógico e autorregulação para melhorar o ambiente escolar, embora especialistas alertem que a valorização salarial siga indispensável.
Quando se pensa no trabalho de um professor, a transmissão de conhecimento para os alunos costuma ser a primeira coisa que vem à mente, mas outra parte igualmente importante é a de lidar com as emoções de dezenas de crianças ou adolescentes em uma sala durante cerca de uma hora, várias vezes ao dia, todos os dias da semana. Ensinar sobre as emoções e sentimentos para os alunos passou a ser uma tarefa visada para a "formação integral do ser humano".
A questão não é nova: na antiguidade, os tutores dos filhos de famílias ricas se preocupavam em ensinar-lhes a agir de forma ética e moral, integrada à sociedade. Séculos à frente, a função primordial dos professores passou a ser apenas a de passar os conteúdos e nada mais. Mas é impossível ignorar as questões emocionais dos jovens.
Embora não apareça com este nome na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a questão socioemocional surge em algumas das competências trabalhadas no documento aprovado em lei que norteia a educação brasileira. Por exemplo, a competência geral 8 afirma que devem ser trabalhados o autoconhecimento e o autocuidado; a competência 9, a empatia e cooperação; e a competência 10, a responsabilidade e cidadania.
A ideia é que essas competências sejam trabalhadas de forma transversal em sala para a formação integral dos alunos, tanto como profissionais quanto como cidadãos brasileiros, capazes de agir com autonomia, ética e favorecendo uma boa convivência com as outras pessoas na sociedade. Por isso, projetos de formação que ajudem os professores a trabalhar o socioemocional surgiram, envolvendo aulas, palestras, material didático com cartilhas e livros, cursos online e presenciais, entre outras formas.
E para os professores, se a intenção é trabalhar esses temas, ele próprio precisa entendê-los e, além disso, se autoconhecer e conseguir manter a paciência, apesar dos problemas em sala, da baixa remuneração, da pressão por resultados e de outras frustrações da profissão. É nesse campo que os projetos costumam atuar, com temas como comunicação não violenta, resolução de conflitos, acolhimento aos alunos e autocuidado, e frequentemente têm abertura para que os próprios docentes tragam suas vivências e reorientem as próprias formações pelas quais passaram.
Desde a graduação
Em faculdades de pedagogia ou nas licenciaturas para quem dá aulas de matérias específicas (como biologia ou matemática), a disciplina de psicologia da educação e do desenvolvimento costuma focar nas diferentes fases do crescimento de uma criança e um adolescente e, embora traga temas relacionados, não é propriamente uma formação socioemocional.
Ao Estadão, Viviane Guimarães, professora doutora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feusp) e líder do grupo de pesquisa Laboratório de Educação em Valores e Socioemocional, conta que procura trabalhar o socioemocional dos alunos a partir da discussão de situações reais vistas e vividas por eles nos estágios, além dos contatos com professores mais experientes. Ela ressalta que não se trata de ser psicólogo dos alunos, mas de entendê-los.
"Está implicada a aprendizagem socioemocional dos estudantes, não como uma lista de comportamentos desejáveis, mas para olhar de forma crítica para a sociedade. Os projetos para as escolas podem servir de intervenções de acordo com as necessidades, e ajudar os alunos a ter um olhar compassivo, ético, de mudança social", comenta.
Valéria Arantes, professora titular da Feusp, concorda e ressalta que a graduação pede que os professores consigam lidar com situações adversas que encontrarão nas salas de aula. "O conflito em si não é negativo, ele pode ser pensado como matéria prima, como uma chance de se entender e entender a outra parte. Assim, é preciso pensar o modelo de educação a partir do que se quer: é um sujeito crítico, que sabe atuar em prol dele e dos outros, que tenha engajamento social e tenha compromisso com a sociedade na qual vive?", questiona.
Assim, ter uma formação socioemocional pode ajudar o professor na autorregulação emocional, na conexão com estudantes, pais e a comunidade, na gestão da sala de aula e em como ele lida com o conteúdo, personalização e caracterização de cada turma.
"Os professores se sentem frustrados por não alcançarem tudo que tinham planejado. As competências socioemocionais preparam e apoiam para esse entendimento sobre si, seus medos, inseguranças. Precisa ter um conhecimento para atender e olhar as competências socioemocionais como um suporte pedagógico, e não psicológico. O professor já tem muitas responsabilidades, não pode acrescentar mais essa, de ser psicólogo", reforça Maria Lúcia Voto, gerente de conteúdos educacionais no Instituto Ayrton Senna.
Em São Paulo, a Secretaria Municipal de Educação (SME), em conjunto com o Instituto Vladimir Herzog, criou o projeto-piloto "Acolhimento e Saúde Emocional na Perspectiva da Educação em Direitos Humanos - EDH", para a escuta de professores, funcionários, estudantes e famílias. O trabalho resultou na publicação do caderno "Saúde Emocional", que integra a coleção Respeitar é Preciso!, material que será implementado na rede "em breve" por meio de processos formativos direcionados aos educadores da rede.
Segundo a SME paulistana, o ponto de partida foi a identificação de situações de sofrimento vivenciadas por estudantes e do sentimento de impotência dos educadores diante desses episódios, e que a discussão na formação continuada dos professores considera aspectos como acolhimento, escuta, convivência democrática, prevenção das violências, participação e construção de relações respeitosas no ambiente escolar.
Em Paty dos Alferes, a ideia foi mais curta: uma série de palestras, em quatro dias de uma semana. No primeiro dia, a conversa foi sobre o que faz feliz e anima os professores; no segundo, sobre o entendimento dos alunos, incluindo o que estão na educação especial; no terceiro, sobre as dificuldades da vida e empatia; por fim, no quarto, sobre "quem cuida de quem cuida?", para ajudar os professores a reencontrar meios de manter a mente e o corpo sãos.
"Esse percurso é para entender o que resgata a sanidade. Se a gente não está bem emocionalmente, não consegue desempenhar papel nenhum, que dirá o de professor", resume Dyone Andrade, consultora pedagógica que realizou o projeto em Paty dos Alferes e gerente de formação dos anos finais da SME do Rio de Janeiro, além de fazer parte da comunidade Conectando Saberes, da associação Nova Escola. Mas, Dyone ressalta, nada disso substitui a valorização da profissão através dos salários e fornecimento de recursos para boas aulas.
Valéria Arantes conta ter participado de algumas iniciativas para formação socioemocional, como a publicação de uma série de livros didáticos, que contam com vídeos comercializados pela editora responsável. Em outro projeto, ela foi coordenadora de cursos de extensão oferecidos pela Feusp, em parceria com o Instituto Iungo, que financiou todos os cursos. "Produzimos vários vídeos (entre eles sobre educação sócio emocional, projeto de vida e metodologias ativas de aprendizagem), que estão abertos na internet, fazendo jus ao princípio de produção de conhecimento como patrimônio público. Nesses cursos, formamos mais de 5.000 professores de todas as regiões brasileiras", relata a professora de professores.
No dia a dia
Catarine Vasconcelos, professora de um colégio particular na zona leste de São Paulo onde dá aulas no ensino infantil e de história e ética nos anos finais do ensino fundamental, comenta que teve uma semana de preparação com a diretora e a coordenadora antes de começar a dar aulas na escola em que trabalha atualmente. Embora diga que não busca ser amiga dos alunos, já que não deixa de ser uma autoridade em sala, mas também diz que gosta de ser vista como acolhedora. "Acredito muito na troca, na afetividade, não consigo dar aula sem o afeto", diz.
Como Catarine dá aulas de ética, temas que podem ser espinhosos podem surgir, e conversas com os pais são feitas antes das aulas serem iniciadas, para garantir que não terão problemas. Essa foi uma das indicações feitas por todas as pessoas ouvidas pelo Estadão: tentar conversar com os pais, para que ao menos não remem em sentido contrário. Outra foi a busca de apoio na coordenação e nos outros docentes.
Ainda assim, Viviane Guimarães, da USP, relata que mesmo os estudantes que escolhem ser professores demonstram uma certa desesperança pelo futuro da profissão. "Como educadora, sempre entendi que a esperança era a base do fazer docente, nutrir a esperança pelas novas gerações para que tenhamos expectativas delas transformarem o mundo e não só repetirem o que a gente vive. Mas tenho visto um olhar desesperançoso, triste", comenta.
Elson, da UFG, é mais otimista. "Para deixar um mundo mais acolhedor, que não paremos de sonhar. Há caminhos para isso, existem ferramentas ao dispor para uma construção coletiva a partir do que somos sem ignorar onde estamos e porque estamos", projeta.