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Polarização na sala de aula: como as escolas lidam com o desafio durante as eleições

Divergências políticas, culturais, de gênero e raciais deixaram de ser tópico de debate salutar e passaram a se manifestar como conflito aberto; especialistas apontam que a educação básica enfrenta uma encruzilhada complexa

15 out 2026 - 05h40
Resumo
Com o aumento da polarização política em períodos eleitorais, escolas brasileiras enfrentam conflitos em sala de aula e o receio docente de patrulhamento ideológico. Para evitar hostilidades sem silenciar o debate, gestores adotam projetos preventivos focados em pluralismo de ideias, respeito aos direitos humanos e letramento digital. A estratégia busca transformar divergências em aprendizado crítico por meio de simulações e combate à desinformação, assegurando limites legais inegociáveis.

A poucos dias de um dos pleitos mais aguardados do País, o clima de disputa que dita o tom nas redes sociais e nas discussões familiares transpõe os portões das instituições de ensino. No ambiente escolar, as divergências políticas, culturais, de gênero e raciais deixaram de ser apenas tópicos de debates salutares e passaram a se manifestar em conflitos abertos nos pátios, salas de aula e, de forma mais silenciosa, também nas salas de professores.

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Especialistas apontam que a educação básica enfrenta uma encruzilhada complexa. Diretores e funcionários de algumas das principais escolas de São Paulo dizem que o maior desafio atual não é silenciar os debates, mas encontrar maneiras de transformá-los em ferramentas pedagógicas, evitando que a escola se transforme em uma arena de hostilidades.

Educadores defendem que o papel da escola não é o de neutralidade omissa, mas do pluralismo de ideias pautado pelo respeito aos direitos humanos. Para isso, diversas instituições estão substituindo o modelo reativo de punição a brigas por projetos preventivos.

Maior desafio atual não é silenciar os debates, mas encontrar maneiras de transformá-los em ferramentas pedagógicas.
Maior desafio atual não é silenciar os debates, mas encontrar maneiras de transformá-los em ferramentas pedagógicas.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

"Entendemos que nosso papel é proporcionar uma formação ampla, permitindo que o aluno tenha acesso a diferentes pensamentos e informações e consiga, de forma crítica, construir seu posicionamento diante do mundo", afirmou o diretor do Centro Educacional Pioneiro, Mário Fioranelli. "Trabalhamos com uma postura de pluralidade. Procuramos abordar os conteúdos e as diferentes temáticas de maneira ampla e aprofundada, deixando abertas ao estudante as questões que comportam escolhas e posicionamentos pessoais. Nesse processo, ele também recebe influências da família, de outros agentes sociais e dos diferentes ambientes que frequenta e vai se constituindo como cidadão."

Porém, como ressalva Fioranelli, existem princípios inegociáveis, que são assegurados pela lei. "Questões relacionadas à proteção de minorias, racismo e preconceito, por exemplo, envolvem inclusive condutas criminalizadas pela legislação", disse. "Nesses casos, o Pioneiro se posiciona e adota medidas práticas e efetivas diante de qualquer ocorrência na escola."

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Para o diretor do Colégio Equipe, Luis Marcio Barbosa, não se trata de conciliar diferentes visões políticas, religiosas ou sociais, mas de buscar reconhecer e respeitar as diferenças, trabalhando a capacidade de se colocar na perspectiva dos outros. Barbosa ressalva a importância do letramento digital nessa equação.

"Temos buscado também discutir com estudantes, professores e famílias a dinâmica dos algoritmos nas redes sociais e nos ambientes digitais, que pode contribuir para o acirramento de conflitos, preconceitos e práticas de cancelamento; reconhecer os conflitos e as contradições presentes na história, na sociedade e no desenvolvimento das ciências; e valorizar o estudo como forma de conhecer e se posicionar", afirmou o diretor.

A pressão sobre o corpo docente e a própria direção é um dos pontos mais críticos do cenário atual. Pesquisas recentes indicam que muitos professores lidam com o receio constante de patrulhamento ideológico. Ao abordar o funcionamento do sistema eleitoral, direitos constitucionais ou temas históricos vinculados à justiça social, educadores relatam o medo de serem acusados de "doutrinação" por familiares ou grupos organizados de diferentes espectros políticos.

"Recebemos muitas demandas. Há famílias que dizem que não querem que seus filhos ouçam determinado assunto, tenham acesso a certas informações ou participem de algumas atividades", contou a diretora do Colégio Magno Mágico de Oz, Cláudia Tricate. "A resposta da escola é que o estudante vai participar, porque esses assuntos fazem parte do mundo em que ele vive. Ele precisa conhecer os diferentes caminhos para poder escolher o seu. Os adultos precisam reconhecer e estimular essa capacidade de pensar, questionar e construir caminhos próprios, mesmo quando as escolhas dos jovens são diferentes das suas."

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Segundo Cláudia Tricate, o mesmo princípio orienta o trabalho com professores. "Eles (os professores) também têm suas convicções, mas a gestão pedagógica reforça a importância de apresentar diferentes perspectivas e garantir que os estudantes tenham condições de construir suas próprias escolhas", afirmou.

A dificuldade de abordar temas sensíveis reflete-se na percepção dos próprios alunos. Dados compilados de avaliações nacionais revelam um descompasso claro: enquanto a ampla maioria dos professores afirma abordar temáticas antirracistas e de inclusão social em suas disciplinas, menos da metade dos estudantes percebe esse debate de forma contínua, apontando que o assunto costuma surgir de maneira isolada em datas comemorativas específicas, em vez de perpassar o cotidiano escolar.

No quesito gênero e orientação sexual, o desafio é ainda maior. Levantamentos baseados no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) sinalizam que apenas uma minoria das escolas brasileiras mantém ações institucionais permanentes contra o machismo e a homofobia, deixando o acolhimento à diversidade dependente de iniciativas isoladas dos professores em vez de uma política pedagógica unificada.

Apesar do ambiente tensionado, redes de ensino e colégios particulares têm buscado saídas estruturadas para não silenciar a sala de aula. A principal aposta tem sido a introdução da educação midiática e de itinerários formativos focados na Constituição e na cidadania.

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"É importante, por exemplo, traçarmos uma linha: a escola pode e deve colocar em discussão diferentes ideias e perspectivas, inclusive aquelas que suscitam controvérsias profundas, mas não pode admitir manifestações que violem a dignidade humana ou os direitos das pessoas", explicou Daniel Helene, diretor pedagógico da Escola Vera Cruz.

"Esse tipo de limite tende justamente a garantir que a conversa sobre a nossa diversidade seja possível, e não que transformemos esses assuntos em tabu. A escola não é lugar de tabu; ela é o lugar em que o mundo é posto sobre a mesa para ser estudado, compreendido e indagado. Essa deve ser a posição da escola, que absolutamente não significa um posicionamento alinhado a nenhuma disputa política, religiosa etc."

Rodas de conversa mediadas, simulações do processo de votação e análise crítica de notícias falsas têm sido utilizadas para ensinar crianças e adolescentes a validarem argumentos com base em evidências, separando a convicção pessoal da desinformação.

"Nesse sentido, e para que os diferentes posicionamentos tenham lugar nos espaços de discussão do colégio, a eleição dos representantes de classe é pensada como uma experiência de participação: os estudantes apresentam propostas, organizam campanhas e escolhem seus representantes por meio de votação semelhante à que encontrarão na vida adulta", afirmou o diretor pedagógico do Colégio Miguel de Cervantes, Rudney Soares. "São experiências que permitem compreender, na prática, que participar de uma comunidade também implica ouvir, argumentar, escolher e respeitar escolhas diferentes das nossas."

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