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Por que ler 'Moby Dick'? Especialistas analisam livro que foi de fracasso a grande clássico mundial

Nos 175 anos da primeira publicação do romance, estudiosos da obra de Herman Melville explicam grandiosidade do livro, além de oferecerem dicas para quem quer se aventurar na leitura

21 out 2026 - 06h05
(atualizado às 07h58)
Resumo
Lançado em 1851 sob fracasso de público e crítica, Moby Dick, de Herman Melville, foi resgatado no século 20 como um dos maiores clássicos da literatura mundial. Especialistas destacam que a obra superou o rótulo de narrativa de aventura ao antecipar a estética modernista com sua estrutura híbrida, fragmentada e polifônica. A caçada obsessiva à baleia branca tornou-se uma alegoria complexa sobre a condição humana, o imperialismo e os limites da civilização frente à natureza.

Poucos livros representam o "grande romance americano" como o monumental Moby Dick, ou, A baleia, livro de Herman Melville (1819-1891) que em 2026 completa 175 anos. Apesar de considerado um dos maiores clássicos da literatura mundial, a obra foi um fracasso de críticas e vendas quando publicado em 1851.

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Foi necessário praticamente um século para que a obra fosse vista por sua grandeza, como é hoje. Talvez Melville, um ex-marinheiro cuja vivência no mar inspirou boa parte de sua produção literária, estivesse à frente de seu tempo. Ele tinha atingido certo sucesso com seus livros, mas Moby Dick foi considerado um livro estranho e fragmentado, características que passariam a ser admiradas anos depois pelo movimento modernista.

De forma simplificada, a obra acompanha o marinheiro Ismael, que embarca no baleeiro Pequod, comandado pelo capitão Ahab. Marcado pela perda de uma perna em um confronto com a gigantesca baleia branca Moby Dick, o capitão transforma a viagem em uma obsessiva busca por vingança cheia de entraves arriscados.

Por que e como o livro foi "resgatado" anos depois?

Rita Isadora Pessoa: Foi somente depois da Primeira Guerra Mundial que estudantes de literatura norte-americana descobriram o romance. Não foi até meados do século 20 que o romance se tornou realmente reconhecido como um dos romances mais importantes da literatura americana. O romance consiste em 135 capítulos, em que partes narrativas e ensaísticas se misturam, bem como um epílogo e matéria de frente. Alguns estudiosos de Melville consideram Moby Dick uma obra que toca nas principais questões de seu tempo, tais como liberdade, imperialismo e individualismo norte-americanos. Há uma polifonia discursiva da obra que entretém um diálogo com movimentos importantes do período de sua escrita e publicação, como o Transcendentalismo, de Ralph Waldo Emerson; com forte influência do romantismo europeu.

Ligia Gonçalves Diniz: Em parte, pelos menos motivos por que causou uma impressão estranha ao ser lançado lá nos anos 1850. O que eu chamei (e podemos mesmo chamar!) de desconjuntado, passa a ser chamado, nos anos do modernismo, de fragmentário, e isso é visto agora positivamente. Afinal, o que muitos dos escritores e críticos mais importantes passam a questionar no início do século 20 é precisamente se um romance pode dar conta da experiência humana nos moldes do realismo convencional do século anterior. E a resposta é não, não pode. E, se o faz, há algo de desonesto nisso. Moby Dick faz o oposto: traz para a própria forma — em sua desarmonia, em sua linguagem múltipla e exuberante, até em sua deselegância — a bagunça que é a vida. Neste caso, especificamente, as vidas desses muitos sujeitos envolvidos na caça às baleias.

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Bruno Gambarotto: O resgate de Moby Dick ocorre após a morte de Melville, com a republicação em 1892 do romance e o ensaio The Best Sea Story Ever Written, do canadense Archibald MacMechan, professor da Universidade Dalhousie, de 1899. Outro marco — este mais importante para a fixação de Melville como autor central do cânone norte-americano foi o ensaio escrito por D. H Lawrence publicado em Estudos Sobre Literatura Clássica Americana, de 1923. Lawrence tem acesso à edição britânica do romance, de 1851 — de onde alguns comentários irônicos sobre o narrador post-mortem de Moby Dick.

No entanto, a apreciação estética do romance, o interesse pela linguagem viva da caçada, pelo sabor da ironia de Ismael e o peso da catástrofe que acomete o Pequod são decisivos para que o romance entre no centro dos interesses das áreas de literatura norte-americana que começavam a surgir nas universidades dos EUA naquele período. Durante duas décadas, o romance será analisado sob perspectivas teológicas (a partir do diálogos ostensivo que Melville produz com a Bíblia) e filosóficas; porém, é em 1940, com a publicação de American Renaissance, de F. O. Matthiessen, que a leitura do romance ganha o próprio centro do cânone literário norte-americano.

Sob um viés bastante influenciado pelos totalitarismos da primeira metade do século 20 e pela Segunda Guerra Mundial, o crítico norte-americano observa no protagonista do romance, Ahab, a quintessência do autoritarismo, sendo a catástrofe do Pequod a própria manifestação da tragédia antidemocrática rememorada por um sobrevivente, Ismael, cujos modos por sua vez se apresentam como antídoto as arbitrariedades do falecido capitão. Essa é uma leitura bastante influente que permanece forte após a guerra. Seu apelo político por décadas recobre inconsistências, sobretudo relacionadas ao falso antagonismo entre narrador e protagonista.

Por que ler Moby Dick? O que o leitor vai encontrar lá?

Rita Isadora Pessoa: Em Moby Dick, encontramos sim uma narrativa de aventura. Uma jornada de caça implacável a uma baleia branca quase mítica. Mas também encontraremos capítulos ensaísticos, enciclopédicos; teremos embutidos um compêndio de cetologia, um manual técnico de como tratar e esquartejar o corpo da baleia caçada, retirar o espermacete e outras partes para aproveitamento variado. Temos também belos ensaios sobre a representação da baleia na história da arte, capítulos escritos com recursos dramatúrgicos como se fossem peças de teatro. Em suma, estamos diante de um livro que é híbrido, que é múltiplo, o que levou muitos dos pesquisadores e estudiosos de Herman Melville a considerar Moby Dick mais de um livro ou um livro dentro de outro livro.

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Ligia Gonçalves Diniz: Em primeiro lugar, o narrador, Ismael, é um dos mais carismáticos da história da literatura ocidental. É um narrador meio problemático, do ponto de vista formal da voz narrativa: sendo personagem, às vezes diz coisas que não teria como saber. Mas isso é absolutamente perdoável, eu diria até irrelevante (ou mesmo interessante!), considerando o livro como um todo.

Eu gosto muito de um texto do DH Lawrence sobre o livro, em que ele chama o Melville de moralizante, afetado, maçante, cafona, ensimesmado... A lista vai longe. Aí de repente, ele manda isto aqui: "Quando se esquece de todo e qualquer público e nos oferece sua percepção pura e direta do mundo, então ele é extraordinário; seu livro impõe à alma uma quietude, um assombro". E é isso; eu só mudaria algo: ele produz esse assombro justamente em contraste com a afetação e o ensimesmamento. É como se Moby Dick fosse te hipnotizando e de repente tirasse seu chão e te lançasse no meio do Pacífico. (Só para deixar claro: o texto do Lawrence é bastante elogioso: ele diz que Moby Dick é o maior livro sobre o mar jamais escrito e que Melville é um "mestre na representação do movimento físico, violento e caótico". Corretíssimo.)

Bruno Gambarotto: Moby Dick é um dos romances que constituem aquele grupo seleto de obras que abordam o mito da modernidade, como Quixote, Frankenstein ou (em menor medida) Drácula. Dentre elas, penso que Moby Dick é a mais completa, uma vez que tematiza aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos do mundo que surgem a partir da ciência moderna, do imperialismo e das grandes revoluções sociais que reorganizam a sociedade ocidental a partir do século 18. Sua atualidade reside na crítica que faz ao próprio conceito de civilização, uma vez que a catástrofe do Pequod diz respeito à própria condição do humano tal como a temos debatido, nas últimas décadas, a partir de conceitos como antropoceno/capitaloceno/chthuluceno, a depender dos teóricos consultados.

Ahab carrega consigo a impossibilidade de conceber a alteridade — seja esta vista como natureza em oposição ao humano que a reduz a recursos a serem infinitamente explorados com vistas a produção de riqueza, seja ela vista como o outro a ser dominado pela ciência filosoficamente chamada esclarecida, em outras palavras, pelo homem concebido pelo esclarecimento. No capitão do Pequod, veremos a política reduzida ao maquiavelismo autoritário, a civilização exposta em sua barbárie, a ciência convertida em destruição.

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É digno de nota, nesse sentido, que a atividade baleeira, que entre as décadas de 1820 e 1840 conheceu o seu auge (com os Estados Unidos em sua liderança), tenha conhecido sua decadência com o início da exploração do petróleo em terras norte-americanas.

Ilustração de 'Moby Dick', a temida baleia branca do livro de Herman Melville, realizada por Letícia Lopes para a edição do livro da Antofágica.
Ilustração de 'Moby Dick', a temida baleia branca do livro de Herman Melville, realizada por Letícia Lopes para a edição do livro da Antofágica.
Foto: Letícia Lopes/Antofágica/Divulgação / Estadão
Por que Moby Dick é considerado um dos grandes clássicos da literatura mundial?

Rita Isadora Pessoa: A tarefa de escrever o grande romance americano - a missão literária de Melville - está em interlocução direta com seus precursores (de língua inglesa, mas não apenas, em diálogo com o cânone ocidental), e produz um monstro - um leviatã dos sete mares.

Herman Melville marca, assim, seu lugar na história da literatura como um pioneiro na literatura norte-americana. Sua incursão na linguagem - um dialeto próprio, híbrido, criado especialmente para seus marinheiros, nativos e quacres (com métrica elisabetana) faz de Moby Dick um livro desigual, difícil, fragmentado, mas sem precedentes no cânone literário de língua inglesa. A costura dos inúmeros elementos míticos e científicos, bem como as referências religiosas, literárias e filosóficas, fazem do trabalho de Melville sui generis e denota uma ambição literária de grande porte, assim como a de seu herói trágico, Ahab.

A baleia em si é talvez o símbolo mais marcante em Moby Dick, e as interpretações de seu significado vão desde o Deus judaico-cristão até o ateísmo e tudo mais. A capacidade do romance de produzir inúmeras interpretações é, talvez, a principal razão pela qual é considerado um dos maiores romances americanos.

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Há uma série de alegorias possíveis para o que a baleia pode representar: a temática sobre a relação destrutiva entre o homem e a natureza, com a dimensão do sublime aparecendo na medida em que é impossível abarcar tudo o que a baleia branca representa. Também temos a baleia branca como representação do surgimento e hegemonia do capitalismo industrial; a baleia branca ilustrando a relação psicanalítica entre aquilo que é estranho e familiar ao mesmo tempo e que emerge das profundezas do oceano e da nossa psique.

Ligia Gonçalves Diniz: Acho que outros pesquisadores responderão isso melhor do que eu, mas, em termos gerais é um desses "great american novels", que abrem uma janela ampla sobre a sociedade, a economia e as ideologias norte-americanas do começo do século 19, ou seja, de um país que está se constituindo, se inventando.

Só que é também muito mais que isso, claro. É uma tragédia sobre questões humanas mais amplas, sobre a relação do ser humano, e mais especificamente do ser humano masculino, com a natureza e com o desconhecido. É um desses romances que podem ser abordados por inúmeros ângulos — metafísico, moral, existencial, racial, colonial, sexual, queer etc. etc. etc. — sem que pareça se esgotar e sem que uma interpretação necessariamente inviabilize outra.

Bruno Gambarotto: Está englobado na questão anterior e na próxima.

O que há de único na linguagem e enredo do livro?

Rita Isadora Pessoa: Temos um romance volumoso, multifacetado e escrito sob uma forma híbrida: uma narrativa fraturada, fragmentária. O desafio que a linguagem de Moby Dick representa está no fato de que a obra navega entre gêneros, entre discursos montando um organismo híbrido, instalado entre mar e terra firme. Há um dialeto próprio, híbrido, criado especialmente para seus marinheiros, nativos e quacres (com métrica elisabetana) e um embate filosófico, filológico, teológico e profundamente humano, embate este a que Melville se viu obrigado a dar corpo em Moby Dick.

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Ligia Gonçalves Diniz: A espinha do enredo é simples: o capitão Ahab persegue obsessivamente um cachalote que lhe custou uma perna num embate anterior. Mas, na minha leitura, dizer que esse é o enredo é desconsiderar a força de Ismael, que ultrapassa a importância de Ahab como protagonista. E a absoluta festança que Melville faz com a linguagem, com os diferentes gêneros, com o passeio (como eu já disse, tecnicamente impossível) que a voz narrativa faz. Melville vai rompendo com convenções narrativas a cada página. E pouco importa se é por intenção e mérito, se é por inabilidade, se é por pura empolgação. Funciona.

Bruno Gambarotto: O que é interessante sobre a linguagem Moby Dick é o caráter simbólico-alegórico da narrativa como um elemento de resistência ética e política aos problemas inerentes à catástrofe. Em um certo sentido, o que Ismael apresenta (um narrador que não se apresenta por nome próprio, mas mediante o recurso a uma personagem bíblica — o filho abandonado de Abraão, aquele que era de mão contra tudo e contra todos, segundo lemos no Gênesis) não é o que acontece, no sentido do testemunho de um sobrevivente, mas sim a necessidade de interpretação dos acontecimentos.

Essa necessidade tem relação direta com o que a própria Bíblia conserva dessa personagem: o punho erguido contra tudo e contra todos corresponde à alegorização ativa dos acontecimentos, como se cada incidente relacionado - seja a viagem do Pequod, seja a atividade baleia - encontrasse uma correspondência crítica (mediada pela imaginação, por esse trabalho interpretativo) em uma "catástrofe" mais ampla, que é da própria civilização, do próprio projeto imperialista norte-americano (que se afirma na mesma época com a guerra contra o México, 1846-1848).

Sob essa perspectiva, o romance fere as convenções do realismo narrativo para dar resposta crítica a todo um estado de coisas político e social que mobiliza o narrador como ser social. Seguindo esse percurso de raciocínio, nós também precisamos observar o comportamento de Ismael como narrador — sua performance narrativa, que o alinha a uma ideia de narração tradicional (em contraposição à estruturação narrativa da forma romance). Moby Dick é uma grande história de pescador — de um pescador que afirma sua humanidade no ato de narrar contra a destruição de um modelo de vida comunitário, integrada na natureza, não orientado ao acúmulo de uma riqueza abstrata, que converte homens e animais em peças de um mecanismo de destruição da vida.

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Resumindo: a história da catástrofe do Pequod se multiplica em cada analogia, em cada símile, metáfora e alegoria que o narrador constrói a medida que recupera aqueles acontecimentos. Esse processo simbólico é deliberado, produto de uma razão crítica, que busca o enfrentamento de um projeto de civilização. Nisso também reside a importância do livro como um clássico.

Edição da editora Zahar de 'Moby Dick', clássico de Herman Melville.
Foto: Zahar/Divulgação / Estadão
Tem idade certa para ler Moby Dick? Quais considerações precisam ser feitas antes da leitura?

Rita Isadora Pessoa: Não, Moby Dick atrai leitores de diversas faixas etárias, desde a infância até a maturidade. Um clássico para ser lido e revisitado sempre que possível.

Ligia Gonçalves Diniz: Pergunta polêmica, né? Eu não indicaria Moby Dick para adolescentes, apenas para quem já tem um bom hábito de leitura. É um risco indicar para quem gosta de romances de aventura, por exemplo, mas pode funcionar. Enfim, não tem resposta. É uma escolha a ser feita caso a caso. O que eu posso dizer é que, NA MINHA OPINIÃO (risos), passar Moby Dick para uma turma de Ensino Médio é arriscar criar aversão ao romance em 30 adolescentes e conquistar, talvez, um.

Bruno Gambarotto: Não há uma idade certa para leitura de Moby Dick. Esse é um livro de muitas camadas — uma obra aberta, como poderíamos descrever em seu sentido mais categórico a partir de Umberto Eco. Eu diria que é um romance que se transforma ao longo da formação intelectual de um leitor, cujo repertório pode inicialmente permanecer focado na aventura e, em outros momentos, em aspectos éticos, políticos, filosóficos, sem nunca se fechar inteiramente. Melville apenas indica alternativas ao desastre. Essas alternativas podem ser encontradas na relação entre o narrador e seu companheiro polinésio Queequeg, uma relação marcada pelo respeito à diferença, e do mesmo modo nos longos capítulos dedicados à cetologia, nos quais a perplexidade do narrador é idêntica a impossibilidade de redução da baleia a qualquer perspectiva conceitual aplicada, tornando-se antes o ponto de partida para o exercício da liberdade intelectual e da imaginação.

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Que dicas daria para quem quer se aventurar no romance?

Rita Isadora Pessoa: Não esperar um livro simples de aventura. É importante entender que Moby Dick é um romance composto por vários livros, quase como uma boneca russa. Temos capítulos narrativos e capítulos ensaísticos. É preciso entender que Herman Melville tinha uma proposta muito grandiosa a cumprir em termos de forma literária, em termos de linguagem e mesmo enquanto narrativa. Não espere um livro tão simples e, ao mesmo tempo, esteja preparado para desbloquear a sua própria obsessão e fascínio pela baleia branca.

Ligia Gonçalves Diniz: Não é para achar que é um romance de aventura convencional. Não é pular capítulos que parece que não tem nada a ver com a história. Eles têm - e não só tematicamente. Fazem parte da experiência como um todo. E a experiência é a do narrador, de Ismael, dos personagens secundários, mas também a da linguagem, a da escrita, a do romance como uma perseguição a ele próprio, e não só (ou quase nunca) a de Ahab em busca do cachalote. Tem que se deixar hipnotizar, se deixar assombrar, se deixar gargalhar nas muitas vezes em que é engraçado. Ismael tem o dom da perplexidade, e é um dom que precisamos reaprender.

Bruno Gambarotto: Ter calma e a consciência de que nenhuma leitura esgotará as possibilidades de interpretação e entendimento da obra. Moby Dick está entre aqueles livros que podemos levar conosco por toda uma vida, sempre revisitados.

Como você definiria o livro em uma frase?

Rita Isadora Pessoa: Eu diria que Moby Dick representa uma estética fragmentária e híbrida que prenuncia aquilo que o romance moderno trouxe para a história da literatura.

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Ligia Gonçalves Diniz: Moby Dick é um romance monstruoso, uma máquina de produzir perplexidades.

Bruno Gambarotto: Não me arriscaria a formular qualquer frase que definisse esse romance.

O que ler, de Herman Melville, depois de Moby Dick?

Rita Isadora Pessoa: O Escrivão Bartleby, de Herman Melville, e A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne (autor profundamente admirado por Melville e a quem dedicou Moby Dick).

Ligia Gonçalves Diniz: Primeiro, a novela Billy Budd (publicado só em 1924), outra aventura marinha: também traz conflitos que são morais, mas também existenciais; e também tem um subtexto queer bem bonito e doloroso. Depois, Benito Cereno (1855), outra novela marítima, mas agora ambientada num navio negreiro.

Bruno Gambarotto: Moby Dick é uma síntese das preocupações intelectuais e estéticas de Melville; daí que outras leituras do autor funcionam muito mais como a aprofundamentos de questões presentes no romance. Geralmente os leitores de Melville já começam pelas obras mais curtas, como Bartleby, Benito Cereno e Billy Budd; eu sugeriria que após a leitura de Moby Dick, um leitor já versado nessas obras retornasse a essas narrativas curtas para observar como determinados elementos podem ganhar configurações distintas. O que é o advogado de Bartleby (muitas vezes me pego pensando nesses termos) se não uma espécie de Ahab cômico? Quanto a Benito Cereno, é possível vê-lo como mais uma manifestação dessa consciência comprometida por uma visão de mundo marcada pelo pressuposto da dominação, nesse caso racial? Além da prosa curta, sugeriria o romance de estreia de Melville, Taipi, baseado nas viagens de Melville pela Polinésia, no qual questões de alteridade ocupam o centro da narrativa.

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