Professor alerta sobre erro comum no Enem: 'Desprezar as questões mais simples'

Perguntas ligadas ao cotidiano são as que registram os maiores índices de acerto, apontam dados divulgados pelo Inep

4 jul 2026 - 05h44

Análise de microdados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2025 revela que a maior diferença de desempenho entre estudantes das redes pública e privada não está nas questões mais difíceis da prova, mas naquelas consideradas mais fáceis. O levantamento foi realizado pela Arco Educação a partir dos dados divulgados pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

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Em Matemática, por exemplo, a questão considerada mais difícil do exame foi acertada por apenas 18,7% dos alunos da rede privada e 14,4% dos estudantes da rede pública. O item exigia conhecimentos mais avançados de raciocínio matemático e modelagem de problemas.

Já uma das questões mais fáceis, relacionada à interpretação de informações do cotidiano e análise de dados, foi resolvida corretamente por 79,9% dos candidatos das escolas privadas e por 55,7% dos alunos da rede pública, uma diferença de 24 pontos porcentuais.

Maior diferença de desempenho entre estudantes das redes pública e privada não está nas questões mais difíceis do Enem.
Maior diferença de desempenho entre estudantes das redes pública e privada não está nas questões mais difíceis do Enem.
Foto: Daniel Teixeira/Estadão / Estadão

O mesmo fenômeno aparece em Linguagens. A questão mais difícil, que exigia maior capacidade de interpretação textual e análise de linguagem, registrou índice de acerto de 38,4% entre estudantes da rede privada e de 26,3% na rede pública. Já a questão mais fácil, ligada à compreensão de textos e situações de comunicação presentes no cotidiano, foi acertada por 94,3% dos candidatos das escolas privadas e por 84,9% dos estudantes das escolas públicas.

Em Ciências da Natureza, a diferença também chama atenção. Enquanto a questão mais difícil, relacionada a conteúdos específicos de Física e Química, teve índice de acerto de 34,5% na rede privada e 31,2% na pública, uma das questões mais fáceis, ligada a temas de saúde e meio ambiente, registrou 81,1% de acertos entre estudantes das escolas particulares e 66,2% entre os da rede pública.

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Na avaliação do diretor de Ensino e Inovações Educacionais da Arco Educação, professor Ademar Celedônio, essa constatação não tem tanto impacto no acesso dos estudantes de escolas públicas ao ensino superior porque no Brasil existe o sistema de cotas. Mas, por outro lado, tende a prejudicar a cidadania e o desempenho desses estudantes no mercado de trabalho, já que são habilidades que fazem parte do cotidiano e que possuem aplicação direta na vida adulta.

"Se eu não consigo acertar questões básicas, eu tenho um conceito de cidadania já corroído. Se um aluno entende porcentagem, ele consegue analisar uma compra parcelada. Quando compreende probabilidade, consegue avaliar riscos em apostas ou investimentos. E se ele sabe interpretar gráficos, consegue entender uma pesquisa eleitoral, indicadores econômicos ou uma campanha de vacinação. É aí que a desigualdade educacional se torna mais visível", afirma.

A análise de microdados do Enem 2025 mostrou também, na avaliação do professor, que o Enem busca formar cidadãos capazes de interpretar informações, tomar decisões conscientes e compreender fenômenos que impactam a sociedade. Isso porque a prova está cada vez menos focada na simples memorização de conteúdos e mais preocupada em avaliar competências necessárias para a vida em sociedade.

As questões ligadas ao cotidiano continuam sendo as que registram os maiores índices de acerto. Já conteúdos mais abstratos e especializados, como química orgânica, eletricidade, genética e logaritmos, seguem entre os principais desafios dos candidatos.

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A lógica por trás da nota

Os microdados também ajudam a explicar a Teoria de Resposta ao Item (TRI), metodologia utilizada para calcular as notas dos candidatos. Diferentemente dos vestibulares tradicionais, o sistema não considera apenas o número de acertos, avaliando também a coerência do padrão de respostas.

"Se uma pessoa consegue pular um muro de cinco metros, pressupõe-se que também consiga pular um muro de um metro, mas não o contrário."

Na prática, isso significa que o sistema espera que um candidato capaz de resolver questões muito difíceis também acerte as consideradas básicas. Quando ocorre o contrário - acerto de itens complexos e erro de questões simples - o algoritmo identifica uma possível inconsistência e reduz parte da pontuação.

Por isso, o professor alerta para um erro comum entre os estudantes. "Muitos valorizam excessivamente as questões difíceis e acabam desprezando as mais simples. Mas, dentro da lógica da TRI, as questões básicas têm enorme importância para a construção da nota."

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