Oferecimento

Da 'escola dos pesadelos' à melhor do mundo: unidade de Cubatão inspira modelo para 100 colégios estaduais

Após superar violência e abandono, a Escola Estadual Parque dos Sonhos se torna referência internacional

25 mar 2026 - 03h57
Escola Parque dos Sonhos era apelidada de "Parque dos Pesadelos"
Escola Parque dos Sonhos era apelidada de "Parque dos Pesadelos"
Foto: Divulgação/Seduc-SP

"Eu estudo na melhor escola do mundo". A frase, dita com orgulho por alunos da Escola Estadual Parque dos Sonhos, em Cubatão, resume uma transformação que parecia improvável há menos de uma década. De um ambiente marcado por violência e abandono, a unidade se tornou referência internacional em educação e, agora, inspira um modelo que será replicado na rede estadual paulista.

Inaugurada em 2014 no Jardim Real, região conhecida como o antigo Bolsão 9, a escola surgiu para atender famílias reassentadas da Serra do Mar. O entorno ainda carecia de infraestrutura: havia mata, um rio e poucas casas. Isolada, a escola passou a ser alvo frequente de invasões e uso indevido do espaço.

Publicidade

Quando o professor de História Régis Marques chegou à direção, em 2016, encontrou um cenário crítico. Das paredes ao moral, a escola estava quebrada.

"Quando cheguei lá, em 2016, os alunos eram reativos. Eles não conversavam, não abraçavam. Se você se aproximava, eles se afastavam. Não havia essa coisa de proximidade. A autoestima deles também era muito baixa. Eles não acreditavam no próprio potencial, e nem em que poderiam transformar a vida", afirma ao Terra.

Segundo ele, o desânimo também atingia os profissionais da escola. "Os professores também tinham a autoestima muito baixa. A escola começou com 630 alunos, caiu para 240 e depois para 116 em dois anos. Era uma escola fadada a fechar. Ninguém acreditava mais no projeto nem nas pessoas".

"Era briga diária. Eu precisava separar alunos. Já teve mãe com barra de ferro para bater em estudante. Era uma situação muito difícil", relembra. Ainda assim, havia uma aposta na transformação: "A gente acreditou na proposta de mudar essa realidade, de acreditar na educação".

Publicidade

A violência refletia a própria formação do bairro, explicou o professor. "O Bolsão foi construído para atender comunidades muito vulneráveis de Cubatão. Eram pessoas que vieram da Serra do Mar e de áreas de palafitas. Muitas vezes, eram grupos que não conviviam bem entre si". A localização da escola também agravava o problema. "Ela fica no fundo do bairro. Vendiam droga dentro da escola. Usavam o espaço para festas. Quando chegávamos de manhã, havia pinos de cocaína. Era um contexto de muita vulnerabilidade".

O convite para assumir a direção veio de forma inesperada, por telefone, com só um dia para pensar sobre. Régis decidiu conhecer a escola antes de aceitar e, durante uma pesquisa rápida, foi bombardeado com as manchetes: furto, tráfico de drogas, insegurança.

"Mas também vi uma imagem de alunos fazendo grafite. Fazendo marca da mão com tinta. Quando cheguei, tive a sensação de que era ali que eu tinha que estar".

Os primeiros dias foram de teste. "No dia 22, os vidros da minha sala tinham sido apedrejados. Depois quebraram blocos da escola. No primeiro dia de aula, quebraram um ventilador. Foi assim que cheguei".

A virada começou com uma mudança de abordagem. Inspirado por sua trajetória, Régis implantou uma metodologia baseada na cultura de paz e da não violência ativa. O primeiro passo foi definir a função social do espaço. "Ser um ponto de irradiação de paz e não violência".

Publicidade

Os professores, no primeiro momento, tinham dificuldade de acreditar no projeto, mas logo embarcaram. Era necessário definir uma meta, e ela foi ambiciosa. "Eu dizia que o Parque dos Sonhos seria a melhor escola do Estado em cinco anos. Todo mundo ria, achava impossível".

Uma nova realidade

Na prática, a virada de chave foi simples: ouvir a comunidade. "A gente começou a ouvir de verdade os alunos, os professores, a comunidade. Eu sentava com os estudantes no refeitório e perguntava: o que posso fazer para melhorar a escola para vocês?"

Além da mudança de cultura, houve um esforço concreto para reconstruir a escola. Sem recursos suficientes, a equipe enviou centenas de ofícios a empresas privadas e conseguiu arrecadar cerca de R$ 100 mil para melhorias básicas, como muros, pisos e mobiliário.

A aproximação com o território também foi decisiva. A escola passou a abrir aos finais de semana, oferecendo cursinhos e atividades para a comunidade. Hoje, o modelo inclui mais de 20 projetos extracurriculares, que vão da culinária a esportes como badminton, canoagem e patinação artística. As próprias filhas do diretor estudam no local. Segundo Régis, uma se encontrou na patinação. A outra se interessou por artes marciais.

Publicidade

"Entendo que a escola precisa ser um espaço de experimentação. Quando os alunos experimentam, eles se sentem pertencentes, empoderados. Se a escola não empoderar, o tráfico empodera", afirma o diretor.

Outro projeto que Régis implantou é o "A escola vai à sua casa", que leva educadores até as famílias de alunos com problemas de frequência ou comportamento, ampliando o olhar sobre suas realidades. A transformação levou a escola a zerar os registros de ocorrência por invasão e a mudar sua própria reputação, de "Parque dos Pesadelos" para Parque dos Sonhos.

Em 2025, a unidade conquistou o prêmio de Melhor Escola do Mundo, na categoria Superação de Adversidades, concedido pela T4 Education, em cerimônia realizada em Abu Dhabi.

"Para os alunos, significou muito mais do que para mim. Mudou minha vida, mas para eles, é uma questão de autoestima. Eles dizem com orgulho: 'Estudo na melhor escola do mundo'", conta Régis.

Escola venceu categoria de superação de adversidades
Foto: Divulgação/Seduc-SP

Escola modelo

O impacto da experiência ultrapassou os muros da escola. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo decidiu transformar o projeto em política pública, criando a Rede Escola dos Sonhos, que deve ser implementada em cerca de 100 unidades.

Publicidade

Segundo a pasta, a implantação ocorrerá em escolas indicadas por 30 Unidades Regionais de Ensino (UREs), distribuídas entre a capital, a Região Metropolitana de São Paulo, São José do Rio Preto e São Vicente. A proposta é reunir unidades com realidades diversas para testar, acompanhar e aperfeiçoar práticas com potencial de expansão para toda a rede.

A seleção considerou critérios técnicos, como diversidade territorial, porte das escolas e contexto educacional, além da viabilidade de acompanhamento próximo ao longo do projeto. Entre as ações previstas estão diagnósticos iniciais, escuta da comunidade escolar, apoio à elaboração de planos de melhoria e incentivo a práticas de acolhimento e participação.

O modelo será implementado como uma jornada contínua, com etapas de diagnóstico, planejamento, execução e monitoramento. Questionada pela reportagem, a secretaria afirmou que prevê encontros quinzenais de alinhamento e formação, além do acompanhamento das equipes regionais e análise de indicadores ligados ao engajamento escolar.

Ainda de acordo com a Seduc-SP, não haverá repasse financeiro direto às unidades. O investimento será concentrado na mobilização técnica e pedagógica, com oferta de metodologias, instrumentos de escuta e formação continuada. Ao fim da primeira etapa, prevista para o final do ano, será feito um balanço com base em indicadores quantitativos e evidências qualitativas, para avaliar o avanço das ações e identificar práticas que possam orientar a expansão do programa.

Publicidade

Régis participou diretamente da construção da proposta e defende que o foco vá além de atividades complementares. "Eu disse: não adianta ter crianças fazendo esporte se elas ainda vão se matar. A gente precisa de uma escola que use a paz e a não violência como metodologia".

Para ele, o sucesso da expansão depende, principalmente, da escuta das realidades locais. "O essencial é a Seduc ouvir as escolas também, entender o que cada uma precisa".

Fonte: Portal Terra
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se