Década do Oceano chega à metade com o desafio: aproximar ciência e sociedade

À medida que o Brasil se prepara para sediar a Conferência Global da Década do Oceano, em 2027, pesquisa em Arraial do Cabo mostra que é preciso ampliar o diálogo entre a Ciência do Mar e as comunidades costeiras

27 jul 2026 - 09h54
(atualizado às 09h58)
Esqueleto de um golfinho exposto no Museu Oceanográ de Arraial do Cabo: à medida em que o Brasil se prepara para sediar a Conferência Global da Década do Oceano, em 2027, pesquisa mostra que é preciso ampliar o diálogo entre a Ciência do Mar e as comunidades costeiras.
Esqueleto de um golfinho exposto no Museu Oceanográ de Arraial do Cabo: à medida em que o Brasil se prepara para sediar a Conferência Global da Década do Oceano, em 2027, pesquisa mostra que é preciso ampliar o diálogo entre a Ciência do Mar e as comunidades costeiras.
Foto: Wikimedia, CC BY / The Conversation

"Temos conhecimentos sobre o mar, sobre como coletar, como não destruir, reaproveitamos… é a nossa vida."

A frase é de uma marisqueira e líder comunitária de Arraial do Cabo (RJ), cidade que abriga um dos maiores institutos de pesquisa oceanográfica do Brasil. Para muitos moradores, a ciência feita ali é respeitada, mas parece distante.

Ela exemplifica as perguntas que minha pesquisa de doutorado procurou entender. Como essa comunidade, que vive do mar e convive com saberes tradicionais acumulados por gerações, se relaciona com a Ciência Oceânica? E que lugar a instituição de pesquisa instalada em seu território ocupa no cotidiano e no imaginário de seus moradores?

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Arraial vive do turismo de paisagem, da pesca e mariscagem. Também sedia o Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM), da Marinha do Brasil. Apesar da relevância científica, encontramos um distanciamento claro entre a instituição e parte da população.

Para a marisqueira entrevistada, o caminho para essa aproximação passa por fortalecer os saberes tradicionais. Ela acredita que criar oportunidades de formação em parceria com o instituto tem o potencial de valorizar a comunidade e promover o desenvolvimento do território.

Para me aprofundar nessa questão, entrevistei 23 pessoas, entre moradores, educadores, jovens, lideranças comunitárias e trabalhadores ligados ao mar. A pesquisa teve apoio do CNPq, em parceria entre o IEAPM, a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Uma relação afetiva e social

Os entrevistados reconheciam a importância da ciência e confiavam no instituto local. No entanto, poucos sabiam explicar que pesquisas eram realizadas ali ou associavam a instituição a temas científicos específicos. Ou seja, embora a valorizassem, a ciência permanecia distante do cotidiano.

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Entre os mais próximos do instituto, a relação raramente vinha do conhecimento técnico. Ela surgia de experiências pessoais, memórias familiares, conversas com pesquisadores. Também vinham da participação em atividades públicas ou histórias ligadas ao mar e ao território. Eram os laços afetivos e sociais — mais do que a informação científica — que aproximavam as pessoas da ciência local.

Esse resultado reforça que a cultura oceânica não se constrói só com a produção de conhecimento. Depende de relações significativas entre instituições e comunidades.

Avanços em meados da Década do Oceano

Essa discussão ganha ainda mais relevância agora que a Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável chega à metade do percurso. Recentemente, foi anunciado que o Rio de Janeiro sediará a Terceira Conferência Global da Década do Oceano (ODC27). A oportunidade evidencia o protagonismo brasileiro nessa agenda e nos convida a um balanço.

Houve avanços importantes nesses anos. Vários países passaram a investir em iniciativas de Ocean Literacy, ou Cultura Oceânica, para ampliar a compreensão pública sobre o mar.

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No Brasil, universidades, institutos de pesquisa e órgãos públicos também ampliaram ações de divulgação científica, educação ambiental e engajamento público. Um exemplo é o programa Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que adaptou ao português o material Ocean Literacy for All, da UNESCO, e o levou a escolas e comunidades do país.

Em 2025, o Brasil tornou-se o primeiro país reconhecido pela UNESCO a incorporar a Cultura Oceânica ao currículo escolar nacional, pelo chamado Currículo Azul. A iniciativa resulta de uma articulação entre o Ministério da Educação, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, universidades e a Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO.

O movimento também impulsionou mudanças em políticas públicas. Estados como São Paulo (Lei nº 17.585/2022), Santa Catarina (Lei nº 19.247/2025) e Rio de Janeiro (Lei nº 11.103/2026) aprovaram legislações que incorporam a Cultura Oceânica às estratégias de educação, conscientização ambiental e gestão costeira. Em âmbito nacional, aumentaram as ações de educação e engajamento social, embora ainda falte uma política federal específica sobre o tema.

Os investimentos também cresceram. O BNDES Azul, criado em 2024, financia projetos de conservação marinha, pesquisa, inovação e desenvolvimento sustentável da economia do mar. Em parceria com a Marinha do Brasil, a iniciativa também apoia o Planejamento Espacial Marinho e projetos de conservação da Amazônia Azul.

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Apesar desses avanços, muitas dessas iniciativas ainda seguem fragmentadas. Em geral, se organizam como programas, editais ou ações pontuais. Ainda faltam estratégias permanentes que integrem financiamento, comunicação, educação, participação social e avaliação de resultados nos territórios costeiros.

Próximo desafio

A Década do Oceano propõe o desafio de garantir que o conhecimento científco dialogue com a população litorânea. Estudos sobre percepção pública da ciência mostram que muitas pessoas confiam nos cientistas e reconhecem a importância da pesquisa. Mas isso não significa que a ciência faça parte de seu cotidiano ou que elas se sintam incluídas nas discussões sobre seus territórios.

O problema não é falta de ciência. Ao contrário, o Brasil ampliou sua capacidade de pesquisa sobre o mar, tanto na formação de recursos humanos quanto na infraestrutura. O desafio é transformar esse patrimônio em diálogo permanente com a sociedade. Sem comunicação e participação social, abre-se um vazio entre o que a ciência produz e o que as comunidades conseguem reconhecer, acompanhar e incorporar ao cotidiano.

Foto: The Conversation
O desenvolvimento da Biotecnologia Marinha no Brasil ocorreu de forma assimétrica, com avanços científicos superiores aos investimentos em comunicação pública, participação e apropriação social.Imagem fornecida pela autora.

Nos preparativos para a ODC27, diversos estados estão realizando oficinas participativas, coordenadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO) e MCTI. Elas são uma oportunidade de ampliar a voz das comunidades na atualização do Plano Nacional de Implementação da Década do Oceano. Mas, para que produza efeitos duradouros, o diálogo não pode se encerrar ao final dos encontros. E precisa incluir pescadores, marisqueiras, moradores e outros grupos que historicamente permanecem à margem dos processos de decisão.

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As entrevistas em Arraial do Cabo confirmam que a aproximação se constrói no cotidiano, por meio de relações de confiança entre cientistas e comunidades. Como resumiu a liderança comunitária e marisqueira entrevistada, a população deseja participar das pesquisas e compartilhar os conhecimentos tradicionais sobre o mar. Também é uma preocupação que os jovens permaneçam no território, valorizem esses saberes e os transformem em oportunidades de desenvolvimento local.

Para isso, acredito que seja estratégico investir em estudos de recepção, eles revelam como diferentes públicos interpretam e atribuem sentido ao conhecimento científico. Assim, oferecem subsídios para políticas públicas e estratégias de comunicação mais conectadas às realidades locais.

O país tem 279 municípios costeiros e uma rica diversidade de povos e comunidades tradicionais — como pescadores artesanais, marisqueiras, povos indígenas, caiçaras, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas costeiros. Portanto, aproximar ciência e sociedade é essencial para construir uma cultura capaz de fortalecer a governança costeira e desenvolver soluções compartilhadas para um litoral mais sustentável e socialmente justo.

The Conversation
Foto: The Conversation

Natália Resende de Souza foi apoiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio de bolsa de Doutorado Sanduíche no País.

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Ricardo Coutinho e Valéria de Fátima Raimundo não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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