Princesas do Antigo Egito não eram meras figuras decorativas, e suas armas revelam vidas marcadas por habilidade e força

As mulheres desempenharam um papel crucial em todos os aspectos do desenvolvimento e da permanência do Estado no Egito Antigo, incluindo algumas que governaram o país por direito próprio

27 jul 2026 - 10h19
Adaga encontrada no túmulo da princesa Ita, filha de Amenemhat II, da 12ª Dinastia do Egito: restos mortais revelaram um alto nível de aptidão física, com indicações de movimentos habituais e repetitivos consistentes com a prática do arco e flecha e uso de outras armas, como espadas. De Young Museum, San Francisco, CC BY
Adaga encontrada no túmulo da princesa Ita, filha de Amenemhat II, da 12ª Dinastia do Egito: restos mortais revelaram um alto nível de aptidão física, com indicações de movimentos habituais e repetitivos consistentes com a prática do arco e flecha e uso de outras armas, como espadas. De Young Museum, San Francisco, CC BY
Foto: The Conversation

Por séculos, a imagem das princesas do Egito Antigo foi moldada por noções de cerimônia, beleza e privilégios reais. Mas um novo estudo sugere que algumas princesas do Império Médio (2030-1650 a.C.) eram mulheres altamente treinadas e fisicamente aptas, que podem ter dominado o uso de armas como arcos e maças. Sua história desafia a suposição de que as mulheres no mundo antigo eram, em grande parte, meras observadoras do poder, em vez de participantes ativas nele.

Uma nova análise científica publicada na revista Frontiers in Environmental Archaeology lançou luz sobre as atividades dessas mulheres da realeza egípcia. A análise encontrou evidências de um grupo de princesas que eram arqueiras experientes.

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Embora os marcadores esqueléticos possam indicar a prática de outras atividades, a presença específica de equipamentos de arco e flecha sugere fortemente que elas os utilizavam com frequência. As descobertas destacam a necessidade de repensar as noções de papéis de gênero no mundo antigo.

Longe de serem apoiadoras passivas dos homens como líderes do Egito Antigo, as mulheres desempenharam um papel crucial em todos os aspectos do desenvolvimento e da continuidade do Estado. Algumas chegaram até a governar o país por direito próprio.

O estudo se concentrou em seis múmias reais descobertas no final do século XIX no sítio de Dahshur, uma necrópole real na margem oeste do Nilo, cerca de 30 km ao sul do Cairo. Desse grupo, quatro eram filhas do rei Amenemhat II (século XIX AEC). Apenas quatro nomes pertencentes a mulheres foram identificados no túmulo: Ita, Itaweret, Sathathormeryt e Khenmet. O sexto conjunto de restos mortais pertencia ao rei Hor, que reinou por volta de 1750 AEC.

A adaga da princesa Ita com cabo grande.
Foto: The Conversation
A adaga da princesa Ita, encontrada em Dahshur.WikiCommons

Os objetos funerários enterrados com essas mulheres incluíam arcos, flechas, maças e adagas. O estudo examinou se essas armas foram colocadas no túmulo por razões simbólicas ou cerimoniais, como proteção para a vida após a morte ou demonstração de riqueza - ou se elas haviam sido realmente utilizadas em vida.

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Os restos mortais das princesas - embora incompletos - revelaram um alto nível de aptidão física, especialmente na parte superior do corpo. Elas apresentavam inserções musculares robustas, o que indicava movimentos habituais e repetitivos, consistentes com a prática do arco e flecha. O uso de outras armas, como espadas e maças, também foi indicado por marcas nos restos delas.

Embora o contexto dessas atividades ainda não esteja claro (por exemplo, se as mulheres participavam de batalhas ou caçadas), outros danos esqueléticos confirmam que as princesas levavam um estilo de vida muito ativo.

Elas apresentavam lesões compatíveis com quedas ou golpes. Suas lesões estavam bem cicatrizadas; como membros da realeza, elas teriam tido acesso aos melhores cuidados médicos disponíveis então, e acabaram sendo enterradas com suas armas como bens pessoais íntimos. Essas armas simbolizavam seu status e tinham a função de protegê-las na vida após a morte, mas também refletiam o que essas mulheres realmente faziam.

Papéis de gênero no mundo antigo

A história da arqueologia está repleta de suposições sobre o que as mulheres eram capazes de fazer. A interpretação arqueológica é um produto de sua época, um reflexo dos valores de nossa própria sociedade. A arqueologia moderna se esforça para reconhecer essas circunstâncias e reavalia as evidências, a fim de apresentar nossas melhores teorias atuais sem descartar as abordagens anteriores.

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A natureza da arte egípcia antiga pode ser enganosa. A representação das mulheres em tumbas, nas paredes e nos templos sugere que elas estavam menos presentes na estrutura de poder do Egito Antigo. Mas a arte egípcia foi concebida para transmitir conceitos, não a realidade. Estamos diante de um conjunto altamente complexo de ideias, refinado ao longo de séculos, e não podemos, na prática, utilizá-lo isoladamente como evidência da vida na Antiguidade.

As joias e armas da rainha Ahhotep.
Foto: The Conversation
As joias e armas da rainha Ahhotep.Gallica

É claro que certas figuras femininas importantes do Egito Antigo se destacam — poucas pessoas nunca ouviram falar de Hatshepsut, Nefertiti e Cleópatra VII —, mas elas não são exceções. Ao lado de suas realizações estão nomes como Sobekhotep, uma rainha; Ahhotep, mãe de um rei que recebeu honras militares; e Nebet, avó do rei Pepi II e detentora do cargo mais alto do Egito, exceto o do rei.

Embora tais honras geralmente estejam ligadas ao sangue real, elas servem como lembrete de que as princesas de Dahshur não são exceções, mas pessoas ativas e realizadas por mérito próprio.

Recentemente, foi lançado um banco de dados abrangente sobre as mulheres do Egito Antigo, detalhando nomes, títulos, menções textuais e muito mais, mostrando que ainda há muito trabalho a ser feito nessa área. A equipe que estuda as princesas de Dahshur continuará seu trabalho e está otimista de que novas análises científicas revelarão mais detalhes sobre suas vidas.

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O tema das "mulheres guerreiras" vai além do Egito Antigo. Muitas disciplinas enfrentam a mesma questão: quantas vezes interpretamos erroneamente os papéis de gênero no passado? Historicamente, a presença de objetos tradicionalmente "masculinos", como armas e equipamentos de equitação, e de objetos "femininos", como joias e cosméticos, levou a suposições não apenas sobre o sexo da pessoa a quem pertenciam, mas também sobre seus papéis e ocupações na vida.

O túmulo viking Bj em Birka, na Suécia. Hjalmar Stolpe
Foto: The Conversation

Casos recentes incluem a reavaliação da sepultura Bj 581, local de descanso final de um guerreiro do século X em Birka - um antigo entreposto comercial viking na Suécia. Por mais de um século, acreditou-se que se tratasse de um homem devido às armas enterradas junto ao corpo, mas essa hipótese foi posteriormente refutada.

Os túmulos anglo-saxões 90 e 93, em um cemitério pré-cristão em Buckland, Dover, datado dos séculos V a VIII, continham objetos funerários dispostos de maneira "errada"; por exemplo, pertences como contas e broches (tradicionalmente considerados "femininos") estavam associados a um esqueleto masculino, e um esqueleto feminino possuía um escudo decorado.

Ao reduzirmos vidas históricas a papéis "masculinos" e "femininos", corremos o risco de perder as nuances dessas vidas e uma compreensão mais clara das sociedades do passado. As princesas de Dahshur, com seus pertences tradicionalmente "masculinos", são mais uma indicação de que as mulheres da realeza do Egito Antigo frequentemente tinham vidas muito mais plenas e detinham mais poder do que se poderia esperar.

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The Conversation
Foto: The Conversation

Claire Isabella Gilmour não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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