Debates esvaziados viram armadilha e são um sinal ruim para o jogo democrático, avaliam cientistas políticos após as ausências de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) marcarem o primeiro debate com candidatos à Presidência da República da corrida eleitoral. Ao Terra, especialistas comentam sobre a importância de encontros do tipo e também avaliam estratégias utilizadas pelos candidatos.
Momento da Decisão vai colocar frente a frente os principais candidatos à Presidência no dia 14 de setembro, às 22h, em debate promovido pelo Terra e outros 10 veículos
Do ponto de vista estratégico, é compreensível que determinados candidatos optem por não participar dos debates, especialmente aqueles que lideram as pesquisas. É o que aponta Karla Gobo, cientista política da ESPM. Ela cita como argumentos a falta de incentivos para exposição e o fato de que estar neste lugar de destaque torna o candidato alvo dos adversários. “No entanto, aquilo que pode ser compreensível do ponto de vista da estratégia eleitoral não é necessariamente positivo do ponto de vista democrático”, entende.
Para a especialista, a ausência em debates não chega, por si só, a constituir uma afronta ao jogo democrático: mas é um sinal ruim, que contribui pouco para o fortalecimento de uma cultura democrática.
“É importante que os eleitores possam ver os candidatos ao cargo de maior relevância política do país expostos ao contraditório, confrontados por seus adversários e obrigados a responder a questões nem sempre fáceis ou palatáveis, fora do ambiente mais controlado proporcionado pelo marketing eleitoral”, afirma.
Ela explica que a principal função do debate é justamente criar um espaço público no qual propostas, realizações, contradições e posicionamentos possam ser confrontados diante do eleitorado. E isso tanto para quem concentra a maior parte das intenções de voto, quanto para os demais – que podem utilizar o momento para ganhar visibilidade e se apresentar, principalmente quando se tem pouco tempo de televisão e exposição na mídia.
“Em outras palavras, não parece estratégico ou interessante para esses candidatos deixarem de participar dos debates, mesmo que a ausência dos dois principais nomes da disputa possa esvaziar o evento e diminuir o interesse do eleitor”, analisa.
Dever dos candidatos
Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, frisa que ir ou não ao debate é um direito dos candidatos. Mas, em paralelo, aponta que em uma democracia como a do Brasil, é um dever que os mesmos prestem contas ao eleitor sobre os seus planos, suas propostas e eventuais questões em aberto.
“Do ponto de vista democrático, do ponto de vista de um bom candidato que respeita o jogo democrático, é um dever importante comparecer e prestar contas, sobretudo quando há lacunas no programa de governo, quando há questões a serem respondidas acerca da sua história, acerca dos problemas que eventualmente a imprensa tenha levantado com relação à sua lisura e à lisura daqueles que compõem ou comporão o seu futuro governo”, afirma.
Ele também comenta ser comum que o primeiro candidato nas pesquisas acabe evitando debates justamente pelo seu favoritismo, mas que a situação é curiosa no momento. “Não há um favorito colocado nesse momento, dado que a maioria das pesquisas aponta empate técnico na liderança. E também porque não são só os favoritos que estão declinando, mas também outros candidatos que são considerados nanicos do ponto de vista das pesquisas”, explica.
Consentino caracteriza a situação de esvaziamento como inusitada: “Isso talvez demonstre que, apesar de ser uma ferramenta bastante importante para construção da democracia, para compreensão das propostas por parte dos eleitores, talvez o debate esteja um pouco desgastado nos últimos tempos”.
Debates seguem com impacto?
Para Hilton Fernandes, cientista político e professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP (Escola de Sociologia e Política de São Paulo), os debates eleitorais não possuem o mesmo impacto nas campanhas. “Em eleições com candidatos bem conhecidos, a influência dos debates tende a ser menor, pois há pouca margem para novas informações”, analisa.
Mesmo assim, ele considera que não participar de um debate pode ser visto como uma demonstração de fraqueza ou falta de conteúdo – por mais que possa ser menos desgastante para o candidato. “Há sempre o risco de cair em alguma armadilha, cometer um ato falho ou se atrapalhar com alguma resposta”, elenca.
Com o esvaziamento, o cientista político volta a atenção para a estratégia dos candidatos ‘antissistema’, que adotam uma postura agressiva, muitas vezes irresponsável, e transformam o debate em um palco para si mesmos, como afirma o cientista. Nisso, quem vai fica sujeito a enfrentar um ambiente hostil, em que qualquer um pode ser atacado pelos demais em um evento que tende a gerar pouco interesse sem os principais concorrentes.
“A partir do momento em que candidatos mais extremistas perceberam que os debates são a arena ideal para ganhar visibilidade com base em constrangimentos e agressividade – e, o que é muito pior, ganhar votos com isso –, o espaço de discussão já não é mais democrático nem cívico, pois não há certeza de que haverá respeito às regras e aos participantes. [...] Nesta situação, os debates viram uma armadilha e tendem a se esvaziar”, analisa o Fernandes.