Mirando estreitamento de laços com Brasil em meio à instabilidade mundial, chanceler alemão se encontra com Lula em Hannover. Líderes se mostram otimistas com potencial do acordo Mercosul-UE e Lula manda recados a Trump.De olho em estreitar laços econômicos e políticos com o Brasil num momento de turbulência mundial, o governo alemão recebeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um protocolo de "realeza" neste domingo (19/04) após o desembarque do líder brasileiro em Hannover.
Na cidade, Lula foi recebido pelo chanceler federal alemão Friedrich Merz com honras militares no palácio Herrenhausen, antiga residência dos reis de Hannover e conhecido por seus jardins barrocos. Tal protocolo só havia sido estendido pelo governo alemão ao americano Barack Obama, uma década atrás.
Após a cerimônia militar e um encontro com Merz, Lula seguiu com o líder alemão para participar da abertura da Hannover Messe, a maior feira industrial do mundo, e que neste ano tem o Brasil como país parceiro. A última vez em que o país apareceu com tanto destaque no evento foi em 1980.
A programação de Lula na Alemanha vai se estender até terça-feira (21/04), e inclui novos encontros com Merz, uma visita à feira e um fórum com empresários brasileiros e alemães, além de um deslocamento do líder brasileiro para Wolfsburg, sede mundial da montadora Volkswagen.
Na segunda-feira, a viagem também será marcada pela terceira rodada das consultas intergovernamentais de alto nível Alemanha-Brasil, mecanismo diplomático que o governo alemão mantém com poucos parceiros internacionais e que prevê reuniões regulares entre ministros de nações parceiras. Oito ministros alemães se deslocaram de Berlim para Hannover para se encontrar com membros do governo Lula.
"Brasil é mais importante para a Alemanha do que nunca"
A imprensa alemã tem destacado a visita de Lula, que ocorre em um momento de estagnação e ansiedade econômica na Alemanha. O país tem sido afetado por seguidos choques de energia e visto as taxas de crescimento serem rotineiramente revisadas para baixo.
"O país de Lula é agora mais importante para a Alemanha do que nunca", apontou um artigo no jornal alemão Süddeutsche Zeitung publicado neste domingo, que aborda potenciais ganhos que a Alemanha, uma economia bastante voltada para a exportação, pode ter com o acordo de livre-comércio Mercosul-União Europeia e um estreitamento ainda maior com o Brasil.
"Merz tem todas as razoes para estender o tapete vermelho para Lula, completa o artigo, que aponta ainda que o Brasil pode ser encarado como "um porto seguro de estabilidade" pelos exportadores e políticos alemães, em meio a um cenário mundial de tarifas, guerras e declínio do multilateralismo por grandes potências.
Lula e Merz veem acordo Mercosul-UE com otimismo
Negociado por mais de duas décadas, o acordo vai finalmente entrar em vigor de forma provisória no início de maio e tem o potencial de criar uma zona de livre comércio com 715 milhões de pessoas e 20% da produção econômica global.
"Nossas relações se tornarão ainda mais estreitas. O acordo com Mercosul vai fortalecer todas as economias envolvidas", disse o chanceler Merz neste domingo durante a cerimonia de abertura da Feira de Hannover, com Lula observando a fala.
A parceria com o Brasil na Feira de Hannover foi acertada dois anos atrás, num cenário que não poderia ser mais diferente que o atual. À época, Donald Trump ainda não havia voltado à Casa Branca e conflitos como a guerra no Irã não estavam no horizonte.
O peso do cenário externo atual não passou despercebido durante a cerimônia, ainda que tanto Merz quanto Lula apontaram que há razões para mostrar otimismo, sobretudo em relação ao acordo Mercosul-UE, que foi fortemente promovido pelo Brasil e Alemanha nas últimas décadas.
"Estamos reunidos num momento que, por um lado, não poderia ser melhor em termos de relações entre a Europa e a América do Sul", disse Merz, referindo-se ao acordo. "Mas também estamos reunidos num momento de grandes desafios e mudanças."
"Não estou aqui em uma relação ideológica com o primeiro-ministro Merz, mas de Estado", disse, por sua vez, Lula.
Recados a Trump
Em seu discurso na abertura da feira, Lula mandou recados indiretos ao governo do presidente Donald Trump, embora sem mencionar diretamente o líder americano.
"Nós não podemos permitir que o mundo se curve ao comportamento de um presidente que acha que por e-mail ou por Twitter pode taxar produtos, pode punir países, e pode fazer guerra", disse Lula para uma plateia de empresários alemães e brasileiros.
Lula ainda chamou a guerra no Irã, iniciada pelos EUA e Israel, de "maluquice". "O Brasil é um dos países menos afetados pela maluquice da guerra feita com o Irã", disse Lula.
Já Merz evitou fazer julgamentos sobre a guerra no Irã, mas pareceu mandar um recado sobre a política tarifária de Trump ao mencionar que a feira e o acordo Mercosul-EU demonstram a "confiança" que existe entre a Europa e América do Sul, "baseada numa cooperação com o menor número de tarifas possível, e, se possível, sem tarifas algumas".
"A força econômica, e não só a força militar é a base de uma política de segurança", completou Merz.
Ainda na abertura da feira, Lula ainda abordou o estado de paralisia do Conselho de Segurança das Nações Unidas, cuja reforma é uma bandeira tanto do Brasil quanto da Alemanha.
"Não é possível que as pessoas não compreenderam que os cinco membros do conselho permanente da ONU foram criados para que mantivessem a paz, a harmonia e evitassem a repetição da Segunda Guerra Mundial. E hoje o mundo vive a maior quantidade de conflitos de sua história depois da Segunda Guerra", disse Lula.
"É preciso perguntar ao presidente Trump, ao presidente Vladimir Putin, ao presidente Xi Jinping, ao presidente Emmanuel Macron e ao primeiro-ministro do Reino Unido: Para que serve o Conselho de Segurança da ONU? Por que não se reúnem e param com essas guerras?"
Em 2005, Brasil, Alemanha, Japão e Índia formularam em conjunto uma proposta de resolução para ampliar o conselho com seis novos membros permanentes, incluindo os quatro membros do grupo, conhecido como G4, e duas cadeiras para países africanos.
Terceiro encontro entre Lula e Merz
O encontro deste domingo marcou a terceira vez que o chanceler federal e Lula se reuniram. Também foi o primeiro que não ocorre à margem de uma cúpula internacional.
Os dois já haviam se encontrado no ano passado na COP30, em Belém, e na reunião do G20, na África do Sul. À época, os dois encontros foram ofuscados por um comentário desabonador de Merz sobre a cidade de Belém, mas desde então tanto o chanceler federal e quanto Lula minimizaram o incidente.
Depois da cerimônia de abertura da feira, Merz, Lula e a primeira-dama Janja da Silva se dirigiram novamente para o palácio Herrenhausen, onde o chanceler federal ofereceu um jantar privado.
Economia
A Alemanha é a quarta maior parceira comercial do Brasil, mas é a primeira entre países europeus, com corrente de comércio de 20,9 bilhões de dólares em 2025 e estoque de investimentos diretos estimado em 38,5 bilhões de dólares, em 2024.
O Brasil exporta para a Alemanha principalmente produtos primários, enquanto as importações do país europeu são majoritariamente de industrializados. Isso faz com que a balança pese favoravelmente para os alemães, um fato que foi destacado por Lula em entrevista concedida à revista alemã Der Spiegel nesta semana.
"A Alemanha tem um superávit comercial de 7 bilhões de dólares com o Brasil. Queremos continuar comprando da Alemanha, mas precisamos trabalhar para alcançar um equilíbrio. Isso significa que o Brasil deve produzir mais produtos de alta qualidade e vendê-los na Alemanha. Isso depende muito de nós", disse Lula.