Nos últimos dias, a crueldade na morte de um cão comunitário em Santa Catarina mobilizou moradores, protetores e redes sociais. O caso envolve maus tratos e um animal encontrado ferido, vítima de pauladas. A comoção é esperada, mas não é superficial. Quando a violência atravessa um vínculo tão cotidiano, ela não atinge apenas um corpo. Ela desorganiza um território afetivo inteiro.
Quando um animal faz parte da rotina de um lugar, ele deixa de ser um detalhe e vira presença. É visto, reconhecido, lembrado, cuidado de pequenas formas por pessoas diferentes ao longo do dia. O vínculo, nesse caso, não nasce da posse, nasce da convivência. Aos poucos, aquele animal se torna parte da paisagem emocional do bairro, uma referência silenciosa de familiaridade e pertencimento.
Por isso, quando essa vida é interrompida por violência, a perda não fica restrita a uma casa. Ela se espalha pela vizinhança, pelas conversas, pelo corpo das pessoas. O que aparece não é apenas tristeza, mas também raiva, impotência e uma sensação difícil de nomear. Na psicologia clínica, a gente reconhece isso como luto coletivo. Pessoas que não eram tutoras formais também sofrem, porque havia relação, e vínculo não precisa de documento para existir.
Ao mesmo tempo, existe uma camada que precisa ser olhada com maturidade. Crueldade contra animais raramente acontece no vazio. Do ponto de vista psicológico, ela funciona como um sinal de risco psicossocial. A literatura descreve que maus tratos frequentemente coexistem com outros contextos de violência familiar e social, aparecendo como indicador de falhas de regulação emocional, dessensibilização e padrões mais amplos de agressividade. Não é um evento solto. É um sintoma de que algo no entorno já está fragilizado.
Isso não significa determinismo nem autoriza conclusões simplistas sobre o futuro de alguém. Significa apenas que certos comportamentos funcionam como alertas. Eles pedem leitura cuidadosa, rede de proteção e responsabilidade coletiva, não apenas indignação momentânea. Quando a gente reduz tudo a um fato policial, perde a chance de compreender o que aquele episódio revela sobre o contexto em que ele surgiu.
Talvez seja por isso que notícias assim mexam tanto. Elas expõem a ruptura de um pacto silencioso de cuidado. A sensação de que aquele espaço era, de algum modo, protegido, e de repente já não é. Violência contra animais, nesse sentido, também é uma pauta de saúde mental pública, porque fala de empatia, limites, convivência e do tipo de comunidade que estamos construindo.
No fim, não se trata apenas de um cão. Trata se do que essa violência revela sobre como estamos cuidando, ou falhando em cuidar, das nossas relações. E do quanto uma comunidade inteira sente quando um lugar afetivo é arrancado.
* Por Juliana Sato - psicóloga graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, com pós-graduação em Distúrbios Alimentares pela Unifesp, Juliana Sato é certificada pela renomada Association for Pet Loss and Bereavement, entidade pioneira e referência em luto pet nos Estados Unidos. A especialista vem se destacando desde 2023 em consultoria e atendimento em saúde mental de profissionais do segmento pet vet, além de mentorias para empresas e líderes na construção de culturas organizacionais mais humanas, seguras e sustentáveis. Desde 2024, faz parte da diretoria da Ekôa Vet - Associação Brasil eira em Prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária. Para ajudar pessoas que buscam equilíbrio emocional e crescimento pessoal, criou o canal VibeZenCast, no qual compartilha conteúdos sobre saúde mental, autocuidado e bem-estar. Juliana também é uma das organizadoras do recém-lançado livro "Luto Pet no Contexto da Medicina Veterinária", pela Editora Lucto, onde aborda a complexidade do assunto e debate a saúde mental no universo pet. Saiba mais acessando o site julianasatopsicologa.com.br ou o perfil no Instagram @jusatopsicologa.