Copa 2026: repetição de lances controversos pró-seleção da Argentina gera interpretações políticas

No futebol, como na política internacional, vencer não basta. É preciso que a vitória seja reconhecida como legítima

13 jul 2026 - 12h10

O futebol é um dos maiores recursos de projeção internacional da Argentina. Maradona, Messi, a história dos clubes, a estética do jogo e três títulos mundiais transformaram o país em referência cultural para milhões de pessoas. Essa influência não depende de força militar, riqueza ou pressão diplomática. Ela nasce da capacidade de despertar admiração, identificação e interesse: aquilo que as relações internacionais chamam de soft power (poder brando ou poder de atração).

Mas esse patrimônio simbólico tem um limite importante. A admiração diminui quando uma parcela relevante da opinião pública internacional passa a interpretar as vitórias como resultado não apenas de talento, organização ou mérito esportivo, mas de decisões institucionais percebidas como favoráveis.

Não é necessário demonstrar que houve favorecimento real para compreender o problema: na política internacional, as percepções também produzem efeitos concretos, e a legitimidade de um ator internacional deriva justamente da aceitação e do consentimento dos demais atores, não apenas da legalidade formal de seus atos.

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Uma narrativa amplamente compartilhada pode alterar a reputação de um país, alimentar ressentimentos e reduzir sua capacidade de ser visto como fonte espontânea de simpatia. O poder de atração depende, justamente, de credibilidade e legitimidade percebidas: não basta que um país projete uma narrativa positiva; públicos externos precisam considerá-la convincente e coerente com os fatos.

Acusações de parcialidade

O debate reapareceu com intensidade após a vitória da Argentina sobre o Egito. A partida provocou fortes questionamentos sobre a arbitragem e o uso do árbitro de vídeo, especialmente entre torcedores egípcios e usuários de redes sociais.

A Federação Egípcia criticou decisões do jogo, enquanto a FIFA rejeitou acusações de parcialidade. Não há base para afirmar que a entidade tenha manipulado o resultado. Ainda assim, a controvérsia importa porque revelou a rapidez com que suspeitas esportivas se transformam em uma narrativa global sobre privilégio, influência e tratamento desigual.

Essa narrativa não surgiu do nada. Ela se conecta a uma memória longa de controvérsias em Copas do Mundo. A mais conhecida é a "Mão de Deus", o gol marcado por Diego Maradona contra a Inglaterra em 1986, validado apesar do uso da mão. Na Argentina, o episódio costuma ser lembrado como gesto de audácia e como parte de uma vitória carregada de significados políticos, poucos anos depois da Guerra das Malvinas. Na Inglaterra e em outros públicos, tornou-se símbolo de injustiça esportiva.

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O mesmo lance, portanto, reforçou simultaneamente a mitologia argentina e a desconfiança de seus adversários. Nas oitavas de final de 1998 contra a Inglaterra, David Beckham foi expulso por dar um chute em Diego Simeone após sofrer uma falta. Simeone reconheceu posteriormente que exagerou na reação para provocar a expulsão, enquanto Javier Zanetti considerou o cartão vermelho excessivo. A jogada marcou o restante da partida, embora a Inglaterra tenha resistido com dez jogadores e a Argentina só tenha conseguido vencer por 4 a 3 na disputa de pênaltis.

Em 2010, durante as oitavas de final contra o México, Carlos Tevez abriu o placar em uma posição de impedimento evidente e admitiu depois que estava ciente disso; a Argentina acabou vencendo por 3 a 1. Em 2022, durante a fase de grupos contra a Polônia, o árbitro marcou um pênalti a favor da Argentina após revisar no VAR o contato de Wojciech Szczęsny com Messi, mas o goleiro polonês defendeu o pênalti e a Argentina acabou vencendo por 2 a 0. Nas quartas de final contra a Holanda, Denzel Dumfries derrubou Marcos Acuña dentro da área e Messi converteu o pênalti aos 73 minutos, ampliando a vantagem da Argentina para 0 a 2; A Holanda empatou posteriormente, mas a Argentina se classificou na disputa de pênaltis.

Por fim, nas oitavas de final de 2026 contra o Egito, o VAR anulou o gol que inicialmente teria significado o 0 a 2 devido a uma falta anterior de Marwan Attia sobre Lisandro Martínez. Antes do gol decisivo da Argentina, o Egito também reclamou um pênalti por um contato entre Mohamed Salah e Julián Álvarez. Pierluigi Collina defendeu ambas as decisões: afirmou que Attia havia pisado no pé de Lisandro Martínez durante a fase de posse de bola no ataque e explicou que tanto o árbitro quanto o VAR consideraram a jogada entre Salah e Álvarez um "contato normal no futebol". A Argentina acabou virando o jogo e venceu por 3 a 2.

Sucessão de episódios revelaria uma estrutura invisível de poder?

A repetição de lances controversos cria um repertório disponível para interpretações políticas. Nas redes sociais, partidas separadas por décadas são reunidas em vídeos curtos, montagens e mensagens que apresentam uma suposta sequência de provas de favoritismo à Argentina. A discussão deixa de ser sobre uma decisão concreta e passa a ser sobre uma estrutura invisível de poder.

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Nesse ambiente, a figura de Lionel Messi ocupa lugar central. Poucos atletas contemporâneos possuem reconhecimento global comparável ao do capitão argentino. Para a Argentina, Messi é um ativo extraordinário: associa o país a excelência, disciplina, emoção e sucesso. Porém, justamente por sua projeção, ele também se torna alvo de suspeitas quando decisões arbitrais favorecem sua equipe, mesmo que não exista evidência de influência externa. Para críticos, a FIFA teria interesse comercial em prolongar a trajetória de uma estrela global. Para admiradores, essa leitura ignora o desempenho esportivo argentino e transforma qualquer vitória em conspiração.

O problema para a Argentina não está em ser admirada por seu futebol. Ao contrário: essa é uma das bases de sua presença internacional. O risco aparece quando a admiração é substituída pela ideia de que o êxito depende de privilégios. O poder de atração funciona porque outras sociedades desejam se aproximar de uma imagem, de uma cultura ou de uma história. Quando essa imagem passa a ser associada a injustiça, arrogância ou proteção institucional, ela perde parte de sua força - como mostram as críticas nas redes sociais após decisões de arbitragem.

Geopolítica e identidade no futebol

Há também uma dimensão geopolítica. Torcedores de países com menor influência nas organizações esportivas internacionais podem tendem a interpretar decisões controversas como expressão de uma desigualdade mais ampla. A suspeita de que grandes seleções, mercados relevantes ou ídolos globais recebem tratamento especial dialoga com críticas já presentes em debates sobre comércio, clima, finanças e segurança internacional — a própria geopolítica do futebol é analisada como instrumento de poder e legitimação internacional. O futebol não cria sozinho essa desconfiança, mas oferece cenas simples e emocionais para expressá-la: um gol anulado, um pênalti marcado, uma revisão longa do VAR — cenas que, segundo estudos sobre geopolítica e identidade no futebol, funcionam como metáforas acessíveis de assimetrias globais.

A resposta não é exigir que a Argentina renuncie ao seu prestígio, nem assumir que toda crítica é legítima. É reconhecer que reputação internacional exige transparência.

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A FIFA precisa explicar com clareza decisões sensíveis, divulgar critérios técnicos — como já começou a fazer, ao autorizar a CBF a divulgar decisões sem revisão do VAR — e reduzir zonas de opacidade que alimentam especulações. A Argentina, por sua vez, pode proteger melhor seu poder de atração ao evitar transformar suspeitas alheias em motivo de celebração nacionalista.

No futebol, como na política internacional, vencer não basta. É preciso que a vitória seja reconhecida como legítima.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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