Você já ouviu a frase "a gente usa apenas 10% do cérebro"? Na verdade, não há como medir a consciência em termos percentuais — em parte porque o cérebro não tem uma linha de base estática.
Hoje, porém, existe consenso geral entre os neurocientistas de que a maioria dos processos cerebrais é inconsciente. Isso não significa, no entanto, que você não esteja usando a maior parte do seu cérebro — só que há muito mais coisas acontecendo do que você provavelmente imagina.
A neurociência cognitiva moderna nos trouxe de volta à visão psicanalítica de Sigmund Freud sobre a mente inconsciente. Isso se deve, em parte, ao fato de que as teorias antes consideradas não comprováveis estão ganhando espaço científico.
Em 1895, Freud propôs que a mente inconsciente esconde desejos sexuais e agressivos, no livro Estudos sobre a Histeria, escrito em parceria com seu colega Josef Breuer. Eles argumentaram que sintomas de saúde mental, como ansiedade, fobias e compulsões, surgem de pensamentos inconscientes não resolvidos.
O modelo de Freud (consciente, pré-consciente, inconsciente) se alinha à nossa compreensão atual da memória. Ganhador do Prêmio Nobel, o neurocientista e psicanalista Eric Kandell afirma que temos processos de memória declarativos e não declarativos. A recuperação da memória declarativa é consciente, como tentar lembrar a sequência de números do seu cartão de crédito. As memórias não declarativas envolvem uma recuperação inconsciente e automática.
E o modelo estrutural da mente de Freud, mais uma vez, encaixa-se, sem dúvida, em nossa compreensão da cognição.
Freud propôs que o id constituía a parte primitiva da psique e que o superego representa nossa consciência moral. Por fim, o ego atua como mediador entre o id e o superego. Sua ideia do id poderia ser equivalente a processos neurais inconscientes — embora haja argumentos convincentes de que o processamento do prazer no id também seja consciente. O ego também poderia ser representado pela metacognição (consciência dos próprios processos de pensamento), que está ligada ao córtex pré-frontal do cérebro, logo atrás da testa.
O superego poderia se refletir no sistema límbico do cérebro, que regula suas emoções e seu comportamento, e indica se algo é agradável ou não.
O behaviorismo, no entanto, tornou-se dominante na psicologia na década de 1920, com psicólogos como J.B. Watson, em seu "manifesto behaviorista" defendendo a visão de que apenas o comportamento mensurável deveria ser considerado na ciência.
O cérebro inconsciente está de volta
A partir da década de 1980, porém, ficou mais claro que a tomada de decisão e o comportamento das pessoas podiam ser influenciados sem que elas percebessem.
Posteriormente, isso também ficou claro por meio de experimentos neurocientíficos e exames de imagem cerebral, como minha equipe e eu demonstramos em duas meta-análises, que tanto a memória inconsciente quanto a memória consciente desempenham um papel nos processos cerebrais. Por exemplo, neurocientistas podem mostrar aos participantes de um estudo flashes ocultos de rostos "subliminares" felizes ou aterrorizados, e a pessoa não terá nenhuma lembrança consciente desses rostos. Mas a amígdala (a região do cérebro responsável pela excitação) apresentará maior ativação, o que pode influenciar a tomada de decisões das pessoas.
Também ganhador do Nobel, o psicólogo Daniel Kahneman, em seu livro de 2011 Rápido e devagar: Duas formas de pensar, desenvolveu algumas das ideias de Freud sobre os processos primário e secundário. Ele propôs que temos dois modos de pensamento: o sistema 1 é um processo rápido, impulsivo e em grande parte inconsciente, enquanto o sistema 2 é um processo lento que exige esforço. O processo secundário é reservado para quando você precisa prestar atenção a algo novo, perigoso ou incerto.
O que a neurociência pode nos dizer
Funções essenciais, como frequência cardíaca, temperatura corporal e regulação da fome e da sede, estão enraizadas no inconsciente. Da mesma forma, as estratégias de enfrentamento para diminuir sentimentos dolorosos, aprendidas na primeira infância, não são necessariamente conscientes. A amnésia infantil ocorre até cerca dos três anos de idade, mas permanece em nosso cérebro inconsciente por toda a vida. Mas alguns aspectos dos processos inconscientes podem ser trazidos à consciência por meio da terapia conversacional.
Outras teorias sobre como as áreas conscientes e inconscientes do cérebro interagem derivam de duas ideias proeminentes. A Teoria do Espaço de Trabalho Global (GWT) e a Teoria da Informação Integrada (IIT).
A GWT propõe que a mente é como um palco de teatro, onde os agentes inconscientes estão ocupados nos bastidores, garantindo que o "holofote da consciência" no palco esteja no lugar certo.
A IIT sugere que existem gradientes de consciência. O grau e a complexidade da integração entre as regiões cerebrais determinam "quanta" consciência ("phi") um organismo possui. Assim, por exemplo, um ser humano com uma rede complexa de regiões cerebrais possui mais "phi" do que, digamos, uma lesma-do-mar com muito menos conexões. O problema dessa teoria, no entanto, é como validar a "quantidade" de consciência que as diferentes espécies possuem.
Fundador da neuropsicanálise, Mark Solms — juntamente com o neurocientista e psicanalista Karl Friston —, em 2010, foi pioneiro em uma nova teoria que integra a ideia de que a atividade inconsciente é a principal força que influencia nossa tomada de decisões conscientes. Na minha opinião, é o melhor modelo que temos atualmente.
Essa teoria — chamada de Princípio da Energia Livre (FEP) — sugere que o principal papel do cérebro é prever o que vai manter você vivo e se sentindo bem, dentro dos limites previsíveis nos quais evoluímos para sobreviver. Na maioria das vezes, fazemos isso inconscientemente, com um modelo interno do mundo, bem como com páginas de memórias do nosso manual evolutivo.
Mas quando algo incerto ou surpreendente acontece, é como se houvesse energia livre no cérebro que não está vinculada a uma previsão. Isso faz com que nossos cérebros fiquem "ultraconscientes" por um breve período para criar uma nova previsão que organize nossos pensamentos, o que custa muita energia ao cérebro. Como afirmou Kahneman, às vezes precisamos que nosso cérebro consciente nos ajude a tomar decisões mais difíceis, quando há muitas incógnitas.
Mais recentemente, a pesquisa sobre a consciência começou a se afastar completamente dos seres humanos. Solms argumentou que é possível dotar a IA de consciência. Se ele estiver certo, então, de acordo com seu próprio trabalho, os processos inconscientes das entidades de IA serão moldados por suas interações conosco.
Samantha Brooks não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.