Acordo sobre Ormuz alimenta expectativa de retomada das negociações entre Irã e EUA

O Paquistão afirmou nesta quinta-feira (6) esperar que o acordo firmado entre Irã e Omã sobre o Estreito de Ormuz abra caminho para a retomada das negociações entre Teerã e Washington. Segundo o Ministério das Relações Exteriores paquistanês, que atua como mediador no conflito, o entendimento pode impulsionar os esforços para pôr fim à guerra no Oriente Médio. Na quarta-feira (5), o Irã anunciou ter chegado a um acordo com Omã para uma nova rota de trânsito marítimo na região, mas condicionou a reabertura da passagem ao aval dos Estados Unidos.

6 ago 2026 - 08h32

"Esperamos que o acordo sobre o estreito abra caminho para a continuidade do diálogo e, em especial, para a retomada das discussões técnicas entre o Irã e os Estados Unidos", declarou à imprensa o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, Tahir Andrabi.

Embarcações no Estreito de Ormuz, vistas de Musandam, Omã, em 3 de agosto de 2026.
Embarcações no Estreito de Ormuz, vistas de Musandam, Omã, em 3 de agosto de 2026.
Foto: REUTERS - Stringer / RFI

O Irã informou ter chegado a um entendimento com o sultanato de Omã um novo trajeto para a navegação no Estreito de Ormuz. No entanto, segundo fontes iranianas citadas pela imprensa local, a reabertura dessa estratégica via marítima, atualmente bloqueada por Teerã, dependerá das ações de Washington. Autoridades iranianas afirmam que os Estados Unidos mantêm restrições que afetam os portos do país.

Publicidade

"As coordenadas geográficas da rota planejada pelas duas partes foram aprovadas", afirmou o porta-voz da diplomacia iraniana, Esmaïl Baghaï, citado pela agência estatal Irna. Segundo ele, os detalhes do acordo deverão ser anunciados em uma declaração conjunta que está em fase final de elaboração.

Desde a retomada das hostilidades entre Irã e Estados Unidos, no início de julho, Teerã voltou a restringir o acesso ao Estreito de Ormuz, por onde passava, antes da guerra, cerca de 20% do comércio mundial de petróleo e gás.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou repetidas vezes que Teerã deseja chegar a um acordo com Washington para reabrir o Estreito de Ormuz à navegação. O governo iraniano, porém, rejeitou essa versão e sustentou que sua prioridade era negociar uma solução com Omã, país situado na margem oposta da passagem marítima.

Em entrevista à Fox News na quarta-feira (5), o vice-presidente americano, JD Vance, reconheceu que as negociações com o Irã vêm sendo marcadas por avanços e retrocessos. Vance atribuiu as dificuldades às divisões internas do poder iraniano, afirmando que alguns dirigentes desejam encerrar o conflito, enquanto "radicais" querem sua continuidade.

Publicidade

Ataques a embarcações

Segundo o porta-voz da diplomacia iraniana, as negociações com Omã avançam, mas isso não significa que a travessia se tornará segura, pois "os fatores que tornam o Estreito de Ormuz inseguro continuam existindo do lado dos Estados Unidos". Ele citou o bloqueio naval imposto por Washington em resposta ao fechamento do estreito por Teerã, além de "outras ações agressivas e ameaçadoras contra o Irã e seus interesses".

Por enquanto, o Irã permite a navegação apenas por uma faixa próxima ao seu litoral. O país também avalia impor tarifas de trânsito na região, medida contestada pelos Estados Unidos e por outros países por supostamente violar o direito marítimo internacional.

A criação de uma rota alternativa sob responsabilidade de Omã, em junho, provocou a irritação iraniana e desencadeou uma série de ataques contra embarcações.

A agência marítima britânica United Kingdom Maritime Trade Operations (UKMTO) informou nesta quinta-feira que um petroleiro relatou ter ouvido explosões enquanto atravessava o estreito. O incidente teria ocorrido a cerca de 16 quilômetros a sudeste de Kumzar, em Omã.

Publicidade

Já os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, anunciaram na quarta-feira ataques contra dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho e no Golfo de Áden, como parte do bloqueio que declararam à frota da Arábia Saudita.

Trump nega escassez de armamentos e critica imprensa

Donald Trump afirmou nesta quinta-feira que os Estados Unidos dispõem de estoques "enormes" de armamentos e contestou reportagens segundo as quais a escassez de munições teria levado seu governo a descartar novos ataques contra o Irã nos últimos dias.

"Os Estados Unidos dispõem de quantidades enormes de munições. Além disso, grandes volumes estão sendo produzidos e enviados ao país conforme a necessidade", escreveu o presidente na rede Truth Social.

Classificando as informações como "traiçoeiras", Trump acrescentou, em tom de ameaça, que os responsáveis pelo vazamento "estão sendo procurados" para eventual responsabilização judicial. "Serão solicitadas longas penas de prisão", escreveu.

Publicidade

Diversos veículos de imprensa relataram nos últimos dias dificuldades nos estoques de armamentos americanos após os meses de guerra contra o Irã. Na terça-feira (4), a agência Reuters informou que os Estados Unidos teriam utilizado praticamente todo o seu estoque de mísseis de precisão de longo alcance durante o conflito, levantando preocupações dentro do governo sobre a capacidade do país de responder a novas crises internacionais.

Em seguida, a CNN e o jornal The Washington Post noticiaram a existência de escassez de mísseis guiados de longo alcance e de interceptadores de defesa antiaérea, o que estaria afetando a estratégia americana em relação ao Irã.

Segundo a CNN, as Forças Armadas dos Estados Unidos teriam consumido cerca de 80% do estoque de interceptadores do sistema de defesa THAAD.

Já o Washington Post informou que Trump teria demonstrado forte insatisfação na semana passada com a falta de armamentos e exigido explicações do secretário de Defesa, Pete Hegseth, sobre os motivos pelos quais teria sido, supostamente, mal informado.

A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, e o porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, classificaram essas informações como "fake news" na noite de quarta-feira.

Publicidade

De acordo com o Washington Post, a escassez de equipamentos pode ter contribuído para a mudança de postura anunciada por Trump no sábado (1º), quando afirmou estar suspendendo qualquer ataque a pedido de Teerã, apesar de os Estados Unidos estarem, segundo ele, "prontos para atacar em níveis jamais vistos desde a Segunda Guerra Mundial".

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações