Cobiça de Trump pela Groenlândia é parte de uma nova corrida espacial, e riscos estão crescendo

A Groenlândia é fundamental para as estratégias de domínio orbital da Força Espacial dos EUA em um contexto que as leis e tratados destinados a manter a paz no espaço estão desatualizados.

23 jan 2026 - 13h19
Base Espacial Pituffik, anteriormente Base Aérea de Thule, no norte da Groenlândia: locais de alta latitude como a ilha no Ártico são ideais para lançar cargas em órbitas polares e heliossíncronas e para monitorar o que acontece na órbita da Terra Thomas Traasdahl/Ritzau Scanpix/AFP via Getty Images
Base Espacial Pituffik, anteriormente Base Aérea de Thule, no norte da Groenlândia: locais de alta latitude como a ilha no Ártico são ideais para lançar cargas em órbitas polares e heliossíncronas e para monitorar o que acontece na órbita da Terra Thomas Traasdahl/Ritzau Scanpix/AFP via Getty Images
Foto: The Conversation

A posição do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a Groenlândia tem mudado quase diariamente, passando de ameaças de tomá-la à força para garantias de que não o fará. Mas uma coisa permanece consistente: sua insistência de que a ilha no Ártico é estrategicamente vital para os Estados Unidos.

Poucas horas após o discurso do presidente americano na cúpula de Davos desta semana, começaram a circular boatos de que Washington e Copenhague haviam discutido discretamente a possibilidade de a Dinamarca ceder aos EUA pequenas áreas remotas da Groenlândia para a construção de novas instalações militares. Nada foi confirmado, tudo era especulação, mas a rapidez com que os rumores se espalharam dizia muito.

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Mas o que antes parecia um teatro trumpiano de repente começa a parecer uma jogada geopolítica real. E também uma dica de que as disputas de poder em torno do Ártico estão se espalhando para a política espacial.

Tudo aconteceu muito rápido. A ideia de que os EUA poderiam comprar a Groenlândia da Dinamarca (que ressurgiu em 2019) foi inicialmente tratada como uma esquete cômico.

Mas por trás das piadas havia uma crescente inquietação de que a fixação do governo Trump pela Groenlândia fosse parte de uma ambição geoestratégica mais ampla no "Hemisfério Ocidental" — e além.

Isso porque a Groenlândia fica na encruzilhada de duas fronteiras em rápida mudança: o aquecimento do Ártico está mudando as rotas marítimas e o espaço sideral está cada vez mais militarizado.

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À medida que as tensões globais aumentam, a ilha se tornou um medidor de pressão geopolítica, revelando como a antiga ordem jurídica internacional está se desgastando.

No centro de tudo isso está a Base Espacial de Pituffik, anteriormente conhecida como Base Aérea de Thule. Outrora um posto avançado da Guerra Fria, agora é um centro fundamental da Força Espacial das Forças Armadas dos EUA, vital para tudo, desde a detecção de mísseis até o monitoramento do clima.

Em um mundo onde a órbita da Terra é o novo terreno elevado, essa visibilidade é ouro estratégico.

Lei espacial no vácuo

Trump tem se apoiado fortemente nessa lógica. Ele elogiou repetidamente Thule como um dos ativos mais importantes para observar o que acontece acima da Terra e instou os EUA a "considerarem todas as opções" para expandir sua presença.

Seja pela força, pagamento ou negociação, a mensagem central não mudou: a Groenlândia é fundamental para as ambições americanas no Ártico e no espaço.

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Não se trata apenas de vigilância militar. À medida que empresas privadas lançam foguetes a um ritmo recorde, a geografia da Groenlândia oferece algo raro: condições ideais para lançamento.

Locais de alta latitude são ideais para lançar cargas úteis em órbitas polares e heliossíncronas. As grandes extensões vazias e os corredores oceânicos abertos da Groenlândia fazem dela um potencial centro de lançamento no Ártico. Com a capacidade global de lançamento diminuindo devido ao menor número de locais disponíveis e problemas de acesso, a ilha se tornou subitamente um imóvel de luxo.

Mas o interesse americano na Groenlândia está aumentando ao mesmo tempo em que a "ordem internacional baseada em regras" do pós-guerra tem se mostrado cada vez mais ineficaz na manutenção da paz e da segurança.

O direito espacial está especialmente vulnerável agora. O Tratado do Espaço Exterior de 1967 foi criado para um mundo com duas superpotências (os EUA e a União Soviética) e apenas alguns satélites, não para mega constelações de satélites, projetos lunares comerciais ou mineração de asteróides.

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Também nunca se previu que locais na Terra, como Thule/Pituffik, seriam decisivos sobre quem pode monitorar ou dominar a órbita do planeta.

À medida que países disputam pontos estratégicos, os princípios fundamentais do tratado estão sendo levados ao limite. As grandes potências agora tratam os domínios terrestre e orbital menos como bens comuns globais e mais como ativos estratégicos a serem controlados e defendidos.

A Groenlândia como sinal de alerta

A Groenlândia está bem no meio dessa disputa. Se os EUA expandirem seu controle sobre a ilha, eles comandarão uma parcela desproporcional das capacidades globais de vigilância espacial. Esse desequilíbrio levanta questões incômodas.

Como o espaço pode funcionar como um bem comum global quando as ferramentas necessárias para supervisioná-lo estão concentradas em tão poucas mãos? O que acontece quando a competição geopolítica na Terra se espalha diretamente para a órbita do planeta?

E como o direito internacional deve se adaptar quando o território terrestre se torna uma porta de entrada para a influência extraterrestre? Para muitos observadores, o panorama é sombrio. Eles argumentam que o sistema jurídico internacional não está evoluindo, mas se deteriorando.

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O Conselho do Ártico, o principal fórum intergovernamental que promove a cooperação no Ártico, está paralisado por tensões geopolíticas. O Comitê das Nações Unidas para o Uso Pacífico do Espaço Exterior não consegue acompanhar o ritmo das inovações comerciais. E as novas leis espaciais em vários países priorizam cada vez mais os direitos sobre os recursos e a vantagem estratégica em detrimento da governança coletiva.

Nesse contexto, a Groenlândia não é apenas um ativo estratégico, mas também um sinal de alerta.

Para os groenlandeses, os riscos são imediatos. O valor estratégico da ilha lhes dá vantagem, mas também os torna vulneráveis. À medida que o gelo do Ártico derrete e novas rotas marítimas surgem, o peso geopolítico da Groenlândia só tende a crescer.

Seu povo deve navegar pelas ambições das potências globais enquanto busca seu próprio futuro político e econômico, incluindo a possibilidade de independência da Dinamarca.

O que começou como uma curiosidade política agora expõe uma mudança mais profunda: o Ártico está se tornando uma linha de frente da governança espacial, e as leis e tratados destinados a administrar esse vasto território gelado e o espaço acima dele estão lutando para acompanhar o ritmo.

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A antiga Base Aérea de Thule não é mais apenas um posto avançado no norte, é uma porta de entrada estratégica para a órbita e um meio de exercer poder político e militar do alto do espaço.

The Conversation
Foto: The Conversation

Anna Marie Brennan não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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