Vacinas contra covid-19 não causam câncer colorretal, ao contrário do que diz post sobre Preta Gil

NÃO EXISTE RELAÇÃO DE CAUSA E EFEITO COMPROVADA ENTRE IMUNIZANTES E QUALQUER TIPO DE TUMOR

22 jul 2025 - 16h02

O que estão compartilhando: que a artista Preta Gil teve "câncer turbo" e morreu por causa da vacina contra a covid-19.

'Câncer turbo', citado nas publicações, não existe.
'Câncer turbo', citado nas publicações, não existe.
Foto: Reprodução/Facebook / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso, porque não há relação entre vacinas contra a covid-19 e câncer. Segundo o Ministério da Saúde, não há evidência que sugira que a imunização possa causar ou acelerar tumores. Os imunizantes continuam sendo monitorados globalmente em programas de farmacovigilância, inclusive no Brasil, e esse evento adverso não foi identificado. No caso de Preta Gil, não foi divulgada suspeita médica nesse sentido. Além disso, não existe o "câncer turbo" mencionado na postagem.

Publicidade

Saiba mais: posts no Instagram, Facebook e X (ex-Twitter) associam a morte de Preta Gil, em 20 de julho, às vacinas contra a covid-19. Há dois anos e meio, a cantora tratava complicações de um câncer no intestino, também chamado de colorretal.

Algumas das publicações chamam a doença de "câncer turbo". O Estadão Verifica mostrou (aqui e aqui) que a existência desse problema de saúde é desmentida por especialistas e por entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e o Ministério da Saúde. Trata-se de uma teoria da conspiração criada por grupos antivacina para espalhar a mentira de que vacinados teriam câncer de rápido crescimento.

O caso de Preta Gil

Preta Gil descobriu a doença em 2023, quando foi diagnosticado um tumor adenocarcinoma na porção final do intestino. Ela foi submetida a cirurgia e sessões de radioterapia. Depois, passou por uma histerectomia total abdominal, removendo o útero, e por uma amputação de reto. Em junho daquele ano, foi liberada para voltar a cantar.

Publicidade

Mais de um ano depois, em agosto de 2024, foi identificada a volta do câncer em quatro lugares. Preta voltou a se tratar com quimioterapia.

De novembro em diante, a cantora teve diversas complicações. Naquele mês, precisou interromper a quimioterapia para uma cirurgia de remoção de cálculos renais. Em dezembro, foi submetida a mais uma cirurgia para remoção de tumores. Antes disso, foi aos Estados Unidos alinhar um novo tratamento no pós-operatório, já que a quimioterapia não surtiu o efeito esperado.

Em 27 de janeiro, Preta colocou uma bolsa de colostomia definitiva e, em 7 de fevereiro, passou por mais um procedimento cirúrgico para corrigir o rompimento de pontos de sutura de uma das cirurgias anteriores.

A cantora teve alta em seguida para continuar a recuperação em casa, mas passou por novas internações em março, abril e maio, quando embarcou para os Estados Unidos para seguir com tratamentos considerados mais adequados à condição, incluindo uso de medicamentos experimentais.

Preta estava desde então na América do Norte. Conforme noticiado pelo Jornal Nacional, ela morreu em uma ambulância após tentar embarcar para o Brasil, para onde decidiu voltar ao receber a notícia de que não havia mais o que ser feito no tratamento.

Publicidade

Em junho de 2022, Preta Gil divulgou no Instagram ter tomado a quarta dose da vacina contra covid-19. Desde a morte da cantora, diversos comentários nesse post desinformam sobre a relação entre as vacinas e o quadro dela.

As causas do câncer colorretal

O câncer que acometeu Preta Gil, que morreu aos 50 anos, é o quarto mais frequente no Brasil e tem acometido cada vez pessoas mais jovens. Como explicado pelo Estadão, a ciência ainda busca respostas definitivas sobre as causas do tumor, mas sabe-se que vários fatores aumentam as chances de desenvolvimento do quadro.

A forma mais frequente dele é o adenocarcinoma - diagnosticado em Preta Gil - que se desenvolve na mucosa do intestino a partir de uma lesão benigna chamada pólipo adenomatoso. Estima-se que a transformação dessa lesão em câncer leve de cinco a dez anos.

Entre os principais fatores de risco estão aspectos ambientais, dietéticos, comportamentais e genéticos. Em relação àqueles que envolvem o estilo de vida, os mais importantes são sedentarismo, obesidade e dietas ricas em carnes vermelhas, processadas ou expostas a calor intenso. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica carnes ultraprocessadas como carcinógenos do grupo 1 para câncer colorretal.

Publicidade

O tabagismo e o consumo excessivo de álcool, principalmente combinados, elevam ainda mais esse risco. São consideradas, também, doenças inflamatórias intestinais, síndromes hereditárias e histórico familiar.

Sobre o crescimento de casos entre jovens, não há resposta definitiva, mas a ciência acredita que o fato está associado ao crescimento do sedentarismo, da obesidade e o consumo frequente de alimentos ultraprocessados entre crianças e adolescentes.

Autor de estudo desmentiu alegações sobre p53

Uma das postagens analisadas pelo Verifica alega que as vacinas "desligam" o gene p53, o que faria com que o câncer se espalhasse rapidamente pelo corpo. Esse gene é um regulador do ciclo celular humano que atua como supressor tumoral.

Afirmações nesse sentido começaram a circular na internet em 2024, quando grupos antivacina tiraram de contexto um estudo publicado naquele ano. Um dos autores da pesquisa, Wafik El-Deiry, reitor associado de Ciências Oncológicas da Faculdade de Medicina Warren Alpert, da Universidade Brown, nos Estados Unidos, desmentiu as alegações em um post no X.

Publicidade

Conforme ele, o estudo "não fornece provas de que as vacinas contra a covid-19 causam câncer", acrescentando que os resultados são preliminares e estudos mais detalhados são necessários.

O cientista explica que foram realizados experimentos básicos que mostram que a proteína spike pode ter um impacto na função da p53, incluindo o aumento da sobrevivência das células tumorais após exposição à quimioterapia.

A proteína spike é a estrutura presente no SARS-CoV-2 responsável por ligar o coronavírus à célula humana. Imunizantes de tecnologia RNA mensageiro ensinam o corpo a produzir essa proteína e, assim, o sistema imunológico cria anticorpos contra ela, conseguindo, posteriormente, identificar e combater o coronavírus caso ele infecte o corpo.

El-Deiry afirma que sequer foi estudada a origem da proteína spike no estudo conduzido por ele: se veio de infecção por covid, de infecção persistente, de infecção repetida ou de doses de imunizantes de RNA mensageiro.

Publicidade

"Qualquer pessoa que conclua que nosso estudo prova que as vacinas podem causar câncer está interpretando excessivamente os dados preliminares e está mal informada", disse.

Vídeo mostra ginasta caindo após sentir o joelho, não por mal súbito causado por vacina

Não, filho de Rita Lee não associou câncer da cantora a vacina de covid

A Lupa checou alegações semelhantes às verificadas aqui.

Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações