Viajar para a Baviera foi uma experiência memorável. Antes mesmo de pousar em Freising, a paisagem já me chamava a atenção. Pela janela do avião, as plantações se organizavam como um verdadeiro tetris, com áreas perfeitamente delimitadas que formavam um mosaico de diferentes tons de verde. Diante da paisagem, a motivação de chegar à Alemanha para participar do meu primeiro congresso internacional ganhou um novo significado.
Ver, nas paisagens agrícolas alemãs, a quantidade de canteiros de flores e cercas vivas delimitando onde termina o trigo e começa a cevada, até onde vai o milho sem se misturar com a canola, me deu a certeza de que as ideias sobre o uso desses canteiros de flores e cercas vivas, apresentadas no congresso, também poderiam ser aplicadas no Brasil.
Em sítios e fazendas do nosso país, canteiros de flores e cercas vivas, ou seja, plantações florais, costumam ficar só perto das casas ou, no máximo, no portão de entrada, não delimitando as lavouras. Porém, as plantações florais vão muito além da estética.
Elas são verdadeiros refúgios para polinizadores, onde abelhas, vespas, borboletas, moscas, beija-flores, morcegos e tantos outros animais encontram alimento, abrigo e locais para construir seus ninhos.
Talvez você esteja se perguntando: o que a sobrevivência dos polinizadores tem a ver com as lavouras ou com o meu bem-estar? A resposta é simples: na ausência desses animais, muitas lavouras simplesmente deixariam de produzir. Frutas, legumes e até mesmo o insubstituível chocolate poderiam sumir da sua mesa. Mesmo as lavouras que persistissem, como o café e o morango, gerariam produtos de muito pior qualidade. Isso porque a polinização é um serviço ecossistêmico crucial para a agricultura.
Estima-se que cerca de 75% das culturas agrícolas ao redor do mundo dependam, em algum grau, de animais para produzir os frutos e sementes que consumimos. Apesar de sua importância, os polinizadores estão em declínio ao redor do mundo devido a pressões humanas como, por exemplo, o desmatamento e o sobreuso de agrotóxicos, práticas comuns na agricultura intensiva focada em aumentar a produtividade agrícola.
Daí nasce um dilema: como conciliar conservação e produção? Decidimos investigar como as plantações florais poderiam ser otimizadas não só para conservar os polinizadores, especialmente as abelhas (consideradas os mais importantes polinizadoras agrícolas), mas também impulsionar a polinização das lavouras.
É que, além de atraírem os polinizadores, as plantações florais também são capazes de exportá-los para as lavouras, contribuindo para a polinização. O grande desafio, porém, é que as plantações florais nem sempre atuam como pontes. Em alguns casos, elas podem se tornar muros, concentrando os polinizadores para si, competindo com a lavoura e até mesmo resultando em efeitos neutros ou negativos sobre a polinização.
Foi justamente esses efeitos conflitantes, também conhecidos como hipótese exportadora e concentradora, que nós investigamos mais a fundo, em um artigo recém publicado, sobre o efeito das plantações florais no movimento das abelhas das plantações florais à lavoura.
Em parceria com os professores Isabel Santos e Michael Hrncir, da Universidade de São Paulo, analisamos milhares de estudos realizados ao redor do mundo, em diferentes tipos de lavoura, para entender sob quais condições as plantações florais concentram ou exportam as abelhas.
Como resultado dessa síntese, identificamos que o efeito das plantações florais parece ser moldado por uma interação complexa entre diversos fatores, incluindo a composição de espécies de flores usadas nas plantações florais, o tipo de lavoura, as espécies de abelhas presentes na paisagem agrícola e as condições ambientais.
À luz desses fatores, propusemos uma nova hipótese que reconcilia as evidências conflitantes. Segundo ela, a hipótese exportadora e a hipótese concentradora não seriam mutuamente excludentes, como se aceita atualmente na literatura, mas representariam estágios sequenciais de um mesmo fenômeno.
Pensamos que, inicialmente, as abelhas são atraídas e se concentram nas plantações florais, caracterizando o estágio concentrador. Porém, à medida que as lavouras se tornam mais atrativas (por exemplo, durante a sua floração), as abelhas se movem para elas, configurando o estágio exportador.
A partir dessa hipótese integradora, surge uma nova questão: em que ponto ocorre essa virada? A resposta pode redefinir o manejo de paisagens agrícolas. Ao direcionar novos estudos para desvendar as condições desse ponto de virada, podemos avançar na compreensão dos mecanismos por trás do movimento das abelhas e orientar práticas de manejo mais eficientes.
Em termos concretos, isso pode significar escolher de maneira mais eficiente as espécies usadas nas plantações florais de acordo com o tipo de lavoura, considerando também detalhes da realidade local. Se bem manejadas, as plantações florais podem se tornar uma ferramenta poderosa para conciliar a conservação da biodiversidade com a produção de alimentos.
No fim das contas, é esse tipo de conciliação que pode ajudar a garantir o seu bem-estar no futuro, para que frutos, legumes, café, chocolate e vários outros alimentos continuem chegando à sua mesa.
Infelizmente, quase não usamos plantações florais com essa finalidade no Brasil. Porém, dada a nossa riquíssima biodiversidade de flores e polinizadores nativos, deveríamos testar a viabilidade dessa belíssima solução baseada na natureza.
Cristina A. Kita recebe financiamento da FAPESP e já recebeu da CAPES.
Marco A. R. Mello recebe financiamento da FAPESP, CNPq, DAAD, Alexander von Humboldt-Stiftung e Consulado da França em São Paulo.