Um dos guias mais tradicionais do manejo da fertilidade do solo para a produção agrícola brasileira passa por destacada transformação. O Boletim 100, desenvolvido pelo Instituto Agronômico (IAC), deixará de ser uma publicação técnica impressa, atualizada a cada década para se tornar uma plataforma digital interativa, com recomendações com base em dados e apoiadas por inteligência artificial generativa.
A mudança ocorre em um contexto de crescente pressão ambiental para a produção sustentável. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, o Brasil perde cerca de 600 milhões de toneladas de solo devido à erosão. Os prejuízos ultrapassam US$ 16 bilhões/ano, de acordo com a Embrapa. Além do impacto econômico, isso compromete diretamente a produção de alimentos, a qualidade da água e o equilíbrio ambiental.
O alerta não é exclusivo ao Brasil. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) estima que 30% dos solos do mundo já apresentam algum grau de degradação. Se nada for feito, o quadro pode se alastrar para mais de 90% dos solos do planeta até 2050, segundo a FAO.
O problema começa no manejo e se agrava com o clima
Essa degradação resulta, em grande parte, de práticas de manejo inadequadas no campo. O plantio em áreas inclinadas sem conservação, a falta de diversificação de culturas, o desmatamento e o uso excessivo de insumos químicos enfraquecem a estrutura e fertilidade do solo e o tornam mais suscetível à erosão e perda da capacidade produtiva.
Esses processos são intensificados pelas mudanças adversas do climáticas. Eventos extremos, como secas prolongadas e chuvas intensas, tendem a acelerar a perda de solo e dificultar sua recuperação. Dentro dessa dinâmica, não basta expandir sobre novas áreas para ampliar a produção, é preciso aumentar a eficiência no uso das áreas já cultivadas.
Entre as estratégias disponíveis, estão práticas de manejo conservacionista, como o plantio direto, a manutenção de cobertura vegetal, a rotação de culturas e a integração indústria-lavoura-floresta-pecuária. Elas contribuem para preservar a matéria orgânica, melhorar a estrutura do solo, a microbiota e reduzir impactos ambientais adversos. Mas, apesar de sua eficácia comprovada, elas ainda não são adotadas de forma ampla ou consistente.
Parte do desafio está na própria complexidade do solo, dentro do escopo das interações entre as características e os processos físicos, químicos e biológicos. Traduzir essas interações em conjunto de critérios para decisões práticas no campo exige conhecimento técnico e atualização constante.
Informação como base de melhores práticas
Foi com o intuito de facilitar a aplicação dos estudos do solo no campo que o IAC criou, na década de 1980, o Boletim 100. Ele reúne recomendações para cerca de 130 culturas. Ao longo de décadas, o material se consolidou como referência técnica, especialmente no estado de São Paulo.
No entanto, seu formato tradicional, estático e de atualização a cada 10 anos, já não acompanha o avanço do conhecimento e as rápidas transformações climáticas, tecnológicas e econômicas dos tempos atuais. Era preciso atualizar a abordagem para oferecer recomendações precisas e personalizadas em tempo real.
Essa é a proposta do Centro de Ciência para o Desenvolvimento Smart B100 (CCD-SB100). A iniciativa, apoiada pela FAPESP, é coordenada pelo IAC em parceria com a UNESP, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) da USP, as Fatecs Pompeia e Cotia, o Instituto Biológico (IB), a Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia e a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.
O projeto reúne especialistas de áreas como agronomia, biotecnologia, ciência de dados, inteligência artificial e comunicação, além de empresas e gestores públicos, voltados para solucionar demandas concretas do campo.
A iniciativa se insere num contexto desafiante para a ciência brasileira, que produz muito, mas aplica pouco. Embora o Brasil figure entre os 15 países que mais produzem artigos científicos no mundo, ocupa a 50ª posição no Índice Global de Inovação, segundo o relatório de 2024 da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).
Avanços já alcançados
Em apenas um ano, foi validado um protótipo funcional da Plataforma Smart B100, inicialmente voltado primariamente para manejo do solo e das adubações de cana-de-açúcar e citros, culturas de grande relevância econômica.
O sistema integrará informações de solo, planta, insumos, economia de cabono e clima, permitindo gerar recomendações de manejo com base em soluções com base em ciência. Modelos de inteligência artificial generativa são utilizados para interpretar essas variáveis e responder a consultas de técnicos e produtores de forma contextualizada.
Um avanço importante foi o levantamento e a análise de centenas de publicações científicas. Esse trabalho permitiu identificar padrões de pesquisa, lacunas de conhecimento e critérios de qualidade para seleção de evidências, especialmente sobre a cultura dos citros. A curadoria define quais informações alimentam a base de dados da plataforma, buscando garantir que as recomendações estejam fundamentadas em estudos consistentes, independentes e revisadas por pares.
Na área de biotecnologia, o projeto investiga como características genéticas das plantas interagem com microrganismos associados, influenciando o desempenho agrícola. Estudos com cana-de-açúcar indicam que o genótipo da planta exerce papel central na definição das comunidades microbianas internas e de suas funções. Os resultados também sugerem que microrganismos podem contribuir para o crescimento das plantas e sua tolerância a estresses ambientais, dependendo das condições do solo.
Paralelamente, foi estruturada uma base de dados molecular para cana e citros, organizada a partir de estudos e padronizada para permitir análises integradas. Isso abre possibilidades de explicar mecanismos fisiológicos finos e conectar informações de diferentes níveis — do molecular ao agronômico — em recomendações práticas.
Na área de inteligência artificial generativa, foram desenvolvidos modelos de linguagem adaptados ao vocabulário técnico da agronomia. Esses sistemas permitem interpretar perguntas complexas e relacionar variáveis ambientais e produtivas. Também foram implementados mecanismos automatizados de triagem de artigos científicos e outras publicações, com o objetivo de aprimorar a atualização contínua da base de conhecimento.
Além disso, a plataforma começará a incorporar análises de custo-benefício, assim como logística, buscando alinhar recomendações técnicas à viabilidade econômica das práticas sugeridas. O acesso à plataforma será aberto ao público via web e deverá ocorrer a partir do segundo semestre de 2026.
No contexto que o Brasil tem capacidade científica para enfrentar os grandes desafios agrícolas, o projeto atua diretamente no objetivo de conciliar produtividade e conservação, buscando melhor apoiar decisões dos agricultores no campo e na economia do setor fazendo com que conhecimento, tecnologia e políticas públicas se alinhem e ampliem as possibilidades de impacto real.
Elvis Fusco é afiliado à Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia.
Dirceu de Mattos Junior recebe financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola (Fundag).