'Canetas para músculos': novos medicamentos buscam combater a perda de massa muscular

Estudos avançam em busca de alternativas para preservar força e autonomia ao longo da vida, enquanto especialistas reforçam a importância do movimento

31 ago 2026 - 15h40
Resumo
Pesquisadores desenvolvem novos medicamentos para combater a perda de massa muscular causada pelo envelhecimento ou pelo emagrecimento rápido. Diferente dos anabolizantes, essas drogas atuam em vias biológicas específicas, como o bloqueio da miostatina, visando preservar a capacidade funcional e a saúde. Especialistas alertam, contudo, que os remédios não têm fins estéticos nem substituem os exercícios físicos, fundamentais para transformar o volume muscular em força real e mobilidade.

Viver mais trouxe uma preocupação que nem sempre recebe a mesma atenção que outros cuidados com a saúde: como preservar os músculos ao longo dos anos. Essa perda, que corre tanto com o avanço da idade quanto após um emagrecimento rápido, reduz a força, dificulta tarefas cotidianas e pode comprometer a independência na velhice.

Pesquisas buscam novas formas de proteger os músculos ao longo da vida, principalmente diante do envelhecimento e de grandes perdas de peso
Pesquisas buscam novas formas de proteger os músculos ao longo da vida, principalmente diante do envelhecimento e de grandes perdas de peso
Foto: Canva Equipes/TrueCreatives / Perfil Brasil

É justamente para enfrentar esses problemas que pesquisadores estudam uma nova geração de medicamentos. Em vez de utilizar hormônios anabolizantes, como a testosterona sintética, as substâncias em desenvolvimento procuram interferir em mecanismos específicos relacionados à formação e à preservação do tecido muscular.

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A discussão também ganhou força com o avanço dos medicamentos para emagrecer. Quando a perda de peso é expressiva, parte dela pode corresponder à massa magra. Para determinados pacientes, evitar essa redução pode ser tão importante quanto eliminar o excesso de gordura.

"Temos uma sociedade que envelhece e precisa ser manter saudável, ativa e independente. Preservar os músculos é essencial. O corpo humano não acompanha o progresso científico que nos fez viver mais. Atividade física seguirá fundamental, mas drogas podem ajudar a evitar a perda de músculos, essenciais para a longevidade saudável", afirmou o endocrinologista Felipe Henning Gaia, em entrevista ao 'O Globo'. 

Como as substâncias agem nos músculos?

As pesquisas seguem diferentes caminhos. Um dos principais envolve a miostatina, uma proteína que funciona como uma espécie de regulador do crescimento muscular. Algumas drogas experimentais tentam bloquear essa ação. Outra frente trabalha com a activina, molécula que também participa do controle do tecido muscular.

Entre os candidatos que chegaram a fases mais avançadas de investigação estão apitegromab, bimagrumab e trevogrumab. Parte deles é estudada para doenças específicas, enquanto outras pesquisas avaliam possibilidades relacionadas à perda muscular. A expectativa, porém, não é produzir músculos de maneira indiscriminada. O objetivo médico é mais específico: reduzir perdas que possam prejudicar a saúde e a capacidade funcional.

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O desafio é transformar músculo em força

Esse ponto é fundamental para entender por que medicamentos, como Apitegromab e Bimagrumab, ainda estão em avaliação. Um aumento no volume muscular não significa automaticamente que a pessoa ficará mais forte ou terá mais facilidade para se movimentar. A força depende também do sistema nervoso, da coordenação e da capacidade de utilizar adequadamente os músculos.

Por isso, resultados positivos em exames de composição corporal não são suficientes para comprovar que uma terapia funciona. Clayton Macedo, coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício da Unifesp, chamou atenção justamente para esse limite. "Elas trazem a possibilidade de evitar perdas grandes. Mas não são para ganho extra de massa muscular", apontou ao jornal.

A diferença é importante. Uma terapia destinada a pacientes com perda muscular significativa teria uma finalidade completamente diferente daquela buscada por quem deseja apenas aumentar o volume dos músculos.

O emagrecimento trouxe outra preocupação

A popularização das chamadas canetas para emagrecer colocou a preservação da massa muscular em evidência. Em uma perda de peso acentuada, o organismo pode eliminar tanto gordura quanto massa magra. Para pessoas que já apresentam pouca musculatura, essa redução pode representar um problema adicional.

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Portanto, alguns pesquisadores avaliam a possibilidade de combinar medicamentos para perda de peso com estratégias capazes de proteger os músculos. Ainda não há, contudo, uma resposta definitiva sobre quais combinações seriam mais eficazes e seguras.

O uso dessas substâncias para fins estéticos também preocupa especialistas. Isso porque eles afirmam que medicamentos desenvolvidos para tratar determinadas condições não devem ser encarados como atalhos para ganhar músculos em pessoas saudáveis.

Nada substitui o exercício

E mesmo que essas pesquisas avancem, existe um limite que permanece claro: o medicamento não reproduz a complexidade da atividade física. O exercício estimula, além da musculatura, adaptações neurológicas e metabólicas importantes. É essa combinação que melhora força e capacidade funcional.

Tiago Fernandes, pesquisador da USP especializado em fisiologia muscular, resumiu ao O Globo: "Elas poderão ajudar. Mas o corpo precisa de movimento."

Nesse sentido, uma eventual aprovação desses tratamentos não significaria o fim da academia, da caminhada ou de outras formas de atividade física. A tendência é que eles sejam utilizados como ferramentas complementares, principalmente quando o paciente enfrenta condições que favorecem uma perda muscular importante.

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As pesquisa ainda precisam esclarecer os efeitos do uso prolongado dessas substâncias. Alguns estudos já registraram eventos adversos, como espasmos musculares, diarreia, acne e alterações na pele. Entretanto, interferir nos mecanismos naturais que controlam o crescimento dos músculos pode trazer consequências que só aparecem depois de períodos maiores de acompanhamento.

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