Votos branco e nulo beneficiam algum candidato?

Votos nulos ou em branco são 'descartados' e não entram na contagem dos votos válidos, que são aqueles usados para definir o vencedor da eleição.

29 set 2026 - 18h01
Resumo
Votos brancos e nulos não são repassados a candidatos nem anulam eleições se superarem 50%, pois apenas os votos válidos são computados. Contudo, ao diminuírem o total de válidos necessários para a vitória, podem definir o pleito de forma indireta e até favorecer quem lidera no primeiro turno. Especialistas apontam tendência de alta dessa opção para 2026, sinalizando desilusão com o sistema, embora a disputa acirrada torne incerto qual presidenciável será de fato afetado pelo movimento.
Urna eletrônica com bandeira do Brasil ao fundo
Urna eletrônica com bandeira do Brasil ao fundo
Foto: iStock / Getty Images / BBC News Brasil

No primeiro turno das eleições presidenciais de 2022, mais de 5 milhões de brasileiros - ou pouco menos de 5% do eleitorado que compareceu às urnas - votaram branco ou nulo.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o total foi o menor índice de votos brancos e nulos desde 2014.

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No próximo 4 de outubro, porém, especialistas têm apontado para uma tendência de aumento. As pesquisas mostram que, nas eleições de 2026, esse grupo está em cerca de 8%, junto com aqueles que já disseram que não vão votar para presidente.

Mas, na prática, o que significa votar nulo ou branco? E como essa escolha impacta o resultado final da eleição?

O voto em branco ocorre quando o eleitor não manifesta preferência por nenhum dos candidatos. Com a urna eletrônica, basta pressionar a tecla "branco" e, em seguida, a tecla "confirma".

Já o voto nulo é lançado quando se digita um número que não corresponda a nenhum candidato.

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Mas embora sejam registrados de maneiras diferentes na urna eletrônica, ambos têm o mesmo efeito para o resultado da eleição: não são contabilizados na definição do vencedor.

No Brasil, apenas os chamados votos válidos, aqueles efetivamente dados a algum candidato, entram no cálculo do resultado de eleições.

Isso significa que brancos e nulos não são transferidos para nenhum candidato, nem para aquele que está à frente. Mas, dependendo de sua proporção, eles podem influenciar indiretamente a quantidade de votos necessária para vencer uma eleição.

Também é importante entender a diferença entre os votos nulos e brancos e a abstenção. Esse último é o termo usado para definir a não-participação do eleitor no ato de votar, ou seja, corresponde ao número de eleitores que não compareceram às seções eleitorais para exercer o seu direito.

Ou seja, a abstenção não é um voto e, portanto, não altera diretamente o total de votos válidos.

Como votos brancos e nulos entram na conta?

Para definir quem vence uma eleição, são considerados apenas os votos válidos. Brancos e nulos ficam fora dessa conta.

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Mas indiretamente o voto branco ou nulo pode, sim, ajudar a determinar a disputa.

Isso porque, quanto mais votos brancos e nulos houver, menor será o total de votos válidos usado para calcular a maioria. Isso reduz a quantidade de votos necessária para um candidato vencer.

Um exemplo ajuda a entender esse efeito. Imagine uma eleição com dez eleitores e três candidatos. O primeiro recebe cinco votos, o segundo, três, e o terceiro, dois. Nenhum deles obteve mais da metade dos votos válidos.

Agora suponha que um dos dois eleitores que votaria no terceiro candidato decida anular seu voto. Restam nove votos válidos. O primeiro candidato continua com exatamente cinco votos, mas passa a ter mais da metade dos votos válidos e poderia vencer sem necessidade de segundo turno.

O voto nulo, portanto, não foi transferido ao primeiro colocado. O que mudou foi o total usado como base para calcular a maioria.

Urna eleitoral em local de votação
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

"Na prática, quem vota nulo ou branco deixa que os outros decidam", afirma Luciana Veiga, professora do Departamento de Estudos Políticos da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). "Esses votos não alteram o resultado, apenas deixam que o resultado dos [votos] válidos corra."

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"Quanto maior é a porcentagem [de brancos e nulos], mais chance daquele que está na frente conseguir ser eleito no primeiro turno", diz ainda Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

O que isso significa na eleição presidencial de 2026?

Não é possível dizer com certeza quem seria beneficiado indiretamente por um aumento dos votos nulos e brancos na atual disputa presidencial, dizem as especialistas ouvidas pela BBC Brasil.

Para isso, seria preciso, em primeiro lugar, saber qual candidato cada eleitor que decidiu anular favoreceria caso tivesse decidido dar um voto válido.

Além disso, o atual cenário pré-primeiro turno indica uma disputa bastante apertada entre os dois candidatos mais bem colocados: o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

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No Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, Lula aparece com 40% de intenção de voto no primeiro turno, contra 37% de Flávio, considerando as sondagens divulgadas até 23 de setembro.

A diferença pequena nas intenções de voto, considerando a margem de erro das pesquisas, dificulta a análise de que o candidato que se encontra em primeiro lugar poderia ser favorecido por um aumento dos votos brancos e nulos.

Mas o perfil dos eleitores que já declararam que podem anular seu voto dá algumas pistas, diz Luciana Veiga.

A última pesquisa divulgada pelo Datafolha, que foi a campo em 23 de setembro, detalhou as intenções de voto dos entrevistados divididas por gênero, idade, região do país, religião e nível socioeconônico.

Lula e Flávio Bolsonaro em seus primeiros dias oficiais de campanha
Foto: Adriano Machado e Pilar Olivares/Reuters / BBC News Brasil

Na maioria dos casos, as variações nos perfis dos que dizem que votarão branco ou nulo são muito pequenas para se chegar a qualquer conclusão, diz a professora da Unirio.

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A cientista política afirma, porém, que é possível identificar uma diferença ligeiramente maior na divisão por região do país.

Em uma ponta, 7% dos eleitores entrevistados no Sudeste disseram que pretende anular seu voto, contra 5% no Nordeste, 4% no Centro-Oeste e Norte e 3% no Sul.

Em eleições passadas, candidatos ligados ao bolsonarismo ou a alas mais conservadoras tiveram desempenho um pouco melhor no Sudeste e Sul do país, enquanto o petismo se destacou no Nordeste.

Isso indicaria, portanto, que uma taxa maior de votos nulos e brancos em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo, poderia desfavorecer Flávio Bolsonaro.

O mesmo se observa quando analisada a intenção dividida por religião: entre os católicos, 4% dizem que pretendem votar nulo ou branco, e entre os evangélicos, 7%.

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A mesma pesquisa Datafolha mostra que, entre os católicos, 45% pretendem votar em Lula no primeiro turno, contra 33% que dizem preferir Flávio. No campo evangélico, o bolsonarista tem 47% das intenções de voto, contra 27% do petista.

"Para que possamos dizer que tem impacto, deveríamos ter um mínimo de significância entre o perfil sociodemográfico do voto nulo e branco naqueles em que há diferença significativa de votos entre Flávio e Lula", diz Luciana Veiga.

"Onde há uma diferença um pouco maior é em termos da divisão por religião e região do país, mas ainda assim nem nos dá tanta segurança."

A professora da Unirio afirma, porém, que é o detalhe que pode fazer a diferença em uma eleição tão polarizada como a atual.

Em relação aos eleitores no Sudeste do país que pretendem votar nulo ou branco, Veiga lembra ainda que a região é conhecida pela sua volatilidade, o que torna tudo ainda mais incerto.

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Ela aponta para o resultado da própria pesquisa Datafolha na região, que expõe uma margem extremamente pequena nas intenções de voto de Lula e Flávio: o bolsonarista mantinha, até 23 de setembro, uma vantagem numérica em empate técnico, com 37% contra 35% do petista.

Para Luciana Santana, da Ufal, as diferenças observadas por perfil religioso ou região do país ainda são muito pequenas para traçar qualquer conclusão. "São montantes muito pequenos, não creio que vão fazer tanta diferença assim", opina. "É difícil fazer qualquer afirmação olhando só as pesquisas eleitorais."

E se mais da metade votar branco ou nulo?

Um mito recorrente é o de que uma eleição seria automaticamente cancelada caso mais de 50% dos eleitores anulassem o voto ou votassem em branco.

Isso não acontece.

Mesmo que brancos e nulos fossem maioria, eles continuariam fora da contagem dos votos válidos. O vencedor seria definido a partir dos votos válidos restantes. Uma grande quantidade de votos brancos ou nulos, portanto, não provoca por si só uma nova eleição.

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Uma proporção elevada desses votos, porém, pode ter significado político.

Luciana Veiga afirma que números altos de brancos e nulos podem sinalizar "uma alienação" do eleitorado e uma sensação de falta de representação pelas opções disponíveis ou pelo próprio sistema político.

Segundo ela, um crescimento expressivo desse grupo poderia indicar também um problema de legitimidade política do processo.

"Um número grande de votos nulos e brancos indica uma alienação, e isso é um recado do eleitorado de que não está se sentindo representado pelas opções que ali estão, pelo sistema político e pelas regras políticas", afirma a professora da Unirio.

"É sempre desejável que esses números não cresçam muito, porque eles podem, de alguma maneira, sinalizar uma alienação forte e um pouco de perda da legitimidade do processo como um todo."

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Em entrevista à BBC News Brasil, o cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), disse acreditar que o número de votos brancos e nulos pode aumentar em 2026.

"Essa é uma eleição em que as pessoas estão desanimadas com os candidatos que estão aí, e que tem grande chance de aumentar, num nível razoável, a abstenção e os votos nulos e brancos", afirma.

"Talvez a gente tenha a maior taxa de abstenção nas eleições gerais de 2002 para cá."

Ainda segundo Nicolau, ao votar nulo ou branco, o eleitor passa "um recado" mais enfático de rejeição do que ao se abster.

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