A servidora Mariângela Fialek, conhecida como ‘Tuca’, é apontada como “personagem principal” na distribuição de indicações irregulares de emendas parlamentares a pedido de Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), segundo o relatório do Supremo Tribunal Federal.
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A Polícia Federal chegou a esta conclusão após análise de conversas extraídas do celular da servidora, apreendido em 12 de dezembro do ano passado, durante a Operação Transparência, que investiga o suposto desvio da verba proveniente do dinheiro público.
Servidora da Câmara dos Deputados desde março de 2021, atualmente permanece vinculada à Câmara com o cargo de natureza especial, com uma remuneração bruta de R$ 25.958,90. Ela passou à Casa Legislativa quando ocupava o cargo de Assessora Especial do Gabinete da Presidência da Câmara, cargo então ocupado pelo deputado federal Arthur Lira (PP-AL).
Formada em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e mestre em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo (USP), Mariangela tem laços com a política desde 2002, segundo divulgado por ela em seu Linkedin, quando ocupou um cargo de coordenação no Ministério dos Esportes.
Depois, teve vínculo com os mais diversos grupos políticos. Foi assessora jurídica da Casa Civil da Presidência, entre 2006 e 2007, no 2º mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em seguida, trabalhou como assessora técnica no Senado Federal por oito anos.
Entre 2016 a 2018, também foi subchefe de assuntos parlamentares na Presidência da República, então ocupada por Michel Temer (MDB). Ainda na esfera política, Mariangela teve um cargo no Governo de São Paulo entre 2019 e 2020, na gestão João Dória (PSDB). Além disso, são listados pela servidora outros cargos que manteve em órgãos públicos durante sua carreira, como a Caixa e o BNDES.
Em 2022, uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo citou a servidora como "gerente" do orçamento secreto. A prática refere-se ao repasse de emendas parlamentares sem transparência, que está sendo avaliada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto assessora de Lira, Mariangela fazia os despachos das verbas em uma sala que ficou conhecida como "salinha do orçamento secreto".
Ligação com Valdemar
O presidente do Partido Liberal (PL) entrou na mira da Polícia Federal após mensagens encontradas no celular de Mariângela apontarem que ele estaria indicando e redirecionando recursos de ao menos 21 emendas parlamentares.
Conforme a decisão do ministro Flávio Dino, à qual o Terra teve acesso, os diálogos figuravam a “existência de um arranjo funcional informal envolvendo servidores de distribuídos em setores da Câmara dos Deputados”, com planilhas e pedidos de ajustes nos destinos e áreas das emendas.
As mensagens citam abertamente tratativas em nome de Valdemar — ou ‘VCN’, como era tratado —, determinando que os montantes máximos fossem alocados em pastas como o do Ministério do Turismo.
Em 25 de agosto de 2025, por exemplo, o advogado Garigham Amarante Pinto, que ocupa um cargo de natureza especial na Liderança do PL na Câmara, diz à ex-assessora de Lira acreditar que o dirigente do PL vai “jogar nos Turismo os 24”, ou seja, R$ 24 milhões. No entanto, ela pede calma e afirma que passaria o valor.
“Pode colocar o máximo que der. Ele tá querendo Turismos”, responde Amarante Pinto. No dia seguinte, o advogado pergunta: “Fechou o valor do Pres Valdemar?”, que segundo a PF seria uma provável referência ao presidente do PL.
Mariângela responde que se “puder trocar tudo turismo, ótimo”, e o advogado aponta o valor de R$ 24 milhões. Depois, ele ainda envia uma mensagem temporária com uma lista contendo os municípios e o CNPJ correspondente, boa parte acompanhada do nome Turismo.
“Desse modo, é possível que tal lista esteja relacionada aos R$24 milhões mencionados por GARIGHAM, que supostamente seriam indicações de VALDEMAR COSTA NETO”, diz o ministro do STF.
Ainda conforme a investigação, os diálogos entre Mariângela e outra servidora efetiva da Câmara, também lotada na Liderança do PL, relatam dificuldades para “impor alterações às referidas indicações, afirmando, em diversas ocasiões, que Valdemar não aceitaria mudanças nos destinos definidos, mesmo diante de entraves técnicos”.
“Em ao menos um momento, menciona que tais indicações estariam amparadas por promessa de valores oriundos da cota da Mesa Diretora, o que indicaria articulação em nível superior das estruturas formais da Casa”.
Uma planilha anexada na investigação demonstra que essas emendas, somadas, totalizam cerca de R$ 119,9 milhões.
Suspensão das emendas e bloqueio de R$ 119,2 mi
A partir do que foi levantado pela PF, Dino determinou a suspensão dos recursos públicos ligados à suposta atuação dele, além da indisponibilidade de bens do presidente do PL até o limite deste valor.
A suspensão imediata das emendas ligadas ao suposto desvio, sejam elas ainda em empenho, liquidação ou pagamento, conforme Dino, são para a “proteção ao patrimônio público, à moralidade administrativa e às regras que regem a atividade financeira pública”.
O que diz a defesa de Valdemar
Em nota divulgada nas redes sociais, a defesa de Valdemar Costa Neto afirmou que recebeu com "supresa" a decisão do ministro Flávio Dino, e que ela parte de "premissas frágeis inferências subjetivas e de uma indevida criminalização da atividade político-partidária”.
Além disso, os advogados Marcelo Bessa e Thiago Fleury, apontam que o presidente do PL nega categoricamente a prática de qualquer crime, pois "não há prova, ou mesmo indício" de que ele tenha aderido conscientemente a um suposto esquema criminoso.
“É natural e legítimo, no sistema democrático, que um presidente partidário dialogue com parlamentares, defenda prioridades programáticas, articule interesses nacionais e regionais e influencie politicamente na bancada”.
A reportagem não localizou até o momento a defesa dos demais citados na investigação.